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terça-feira, 11 de setembro de 2007

O POLVO (15ª Parte)

Caros AMIGOS, imprestáveis e restante manada desdentada do enclave,
É fabulosa a falta de capacidade de determinados torpes em assumir a vergonha e a falta de princípios que deveriam existir na mente destes cadáveres... Mas adiante... Leiam e vejam o porquê das "coisas".
Continuação

“(...) Galo da Costa controlava todas estas áreas, e não havia dúvidas de que era ele quem mandava no futebol. A Polícia incomodava toda a gente, procedia a investigações, fazia buscas residenciais a várias personalidades, que toda a gente sabia serem satélites de GC, mas nele ninguém tocava. GC, surgia sempre acima de toda a suspeita e com uma porta aberta para sair em defesa dos seus protegidos e dar-lhes a cobertura necessária. O Grande Líder tinha consciência daquilo que valia e do poder que tinha. Sabia que os mais altos dirigentes políticos lhe vinham mendigar apoio nos momentos cruciais. O escândalo não o afectava; a contínua suspeita que caía sobre ele e os seus sócios não tinha grandes efeitos sociais, como se toda a gente aceitasse pacificamente que o futebol era um antro de negócios marginais. O certo é que, apesar de todos os hinos cantados à inocência, quando surgia uma suspeita de corrupção ligada ao futebol, a direcção era sempre a mesma e atingia sempre as mesmas pessoas. Ninguém podia pensar numa perseguição injusta, como fazia crer, porque isso seria até um insulto a Galo da Costa e à sua reconhecida capacidade de gestão de problemas. -Eles que venham comer o milho à minha mão - sussurrava GC, enquanto abria mais uma edição do «Independente», de novo com a sua foto na capa.
A Polícia Judiciária estava no auge das suas investigações. Tinha acumulado provas substanciais, o que levava a brigada a pensar que já havia dados mais que suficientes para começar a prender pessoas. Mas cantaram demasiado cedo o grito da vitória. Não acreditavam na força que a organização tinha e acabaram por ser surpreendidos, isto não obstante terem mesmo chegado a ser passados vários mandatos de busca a casa dos maiores suspeitos. Galo da Costa tinha conhecimento das investigações que estavam a ser efectuadas e avisou Reginaldo Teles para que este se rodeasse de maiores cuidados nos negócios que efectuava. Aos poucos, foram retirando de suas casas documentos que poderiam indiciar a sua actividade marginal. Começou a haver um maior cuidado nos movimentos bancários, mas o negócio não parou. Quando tinham dúvidas sobre como deveriam actuar sem deixar rastos que mais tarde os pudessem comprometer, consultavam um dos seus advogados com fama de grandes especialistas em crime e avançavam com todas as medidas de precaução. As despesas eram muitas, e acabar com o negócio seria o princípio do fim. Alguém tinha de saldar as dívidas e repor o dinheiro mal aplicado. Num dos momentos de maior pressão, tornou-se necessário negociar o resultado de um jogo com um árbitro portuense. O preço estabelecido foi de três mil contos e foi marcado encontro com esse juíz na segunda-feira seguinte no bar de Reginaldo. Nessa noite, o primeiro a chegar foi George Gomes e só mais tarde apareceu Reginaldo, um tanto desconfiado, olhando para todos os cantos da sala com a nítida intenção de identificar todos os seus clientes e classificar os suspeitos. Nem sequer cumprimentou George Gomes, e este, um tanto admirado, não entendendo o que se estava a passar, acabou por perguntar entre dentes: -O que é que tens. Está cá alguém da Judite? -Estou a ver se descubro alguém suspeito. Olha aqueles dois ali ao canto. Conheces?George Gomes rodou sobre os calcanhares com tal velocidade que até entornou o whisky que tinha na mão, marcando-lhe o príncipe-de-gales. Reginaldo, irritado com tal atitude, não se conteve: -És mesmo burro. Se eles forem da Judite, dás logo a perceber que estás comprometido. -Oh, pá, fiquei assustado! Tens razão, mas não te preocupes com aqueles dois. Eu conheço-os. São cabritos. Reginaldo Teles respirou fundo e comentou com George Gomes o jogo do dia anterior e o investimento dos três mil contos. -Viste ontem? Foi tão fácil. Ele controlou o jogo como quis, não houve escândalos e hoje a Imprensa não faz grandes críticas. Assim é que é bom ganhar dinheiro. George Gomes não perdeu a oportunidade para perguntar quando é que os três mil eram entregues, assim como a comissão deles, e Reginaldo Teles explicou-lhe o seu plano com uma certa vaidade: -O homem ficou de vir cá hoje entregar o dinheiro, e o árbitro também vem cá buscá-lo. Devem estar aí a chegar. -Mas, não é perigoso? Ele devia ter sido pago antes, como os outros. O chefe não nos avisou para termos cuidado, porque estávamos a ser seguidos? -Não te preocupes, eu tomei as minhas precauções... Reginaldo nem sequer teve tempo para acabar a frase, pois o árbitro cumpriu escrupulosamente o horário e estava, nesse momento, a entregar o seu sobretudo no bengaleiro. Após receber a ficha de depósito, dirigiu-se para uma mesa, cumprimentando Reginaldo de esguelha. O empregado abeirou-se do cliente, e este pediu um whisky com Coca-Cola e muito gelo.
Não passaram mais de 10 minutos e entrou o dirigente que levava os três mil contos. Tal como o árbitro, entregou o seu sobretudo ao porteiro e dirigiu-se para outra mesa, fazendo também um leve aceno de cabeça a cumprimentar Reginaldo que, de imediato, lançou um olhar cúmplice a uma das suas miúdas. Esta, sem perder tempo, foi sentar-se na mesa do dirigente, e minutos depois já saltava a rolha da primeira garrafa de champanhe, enquanto a empregada lhe mordia o lóbulo da orelha e lhe prometia uma noite de sonho. O árbitro acabou de sorver o seu whisky, chamou o empregado, pagou e dirigiu-se para o bengaleiro, a fim de levantar o seu sobretudo, que lhe foi entregue de imediato. Saiu, metendo uma nota de cinco mil na mão do porteiro. George Gomes, que seguiu todos estes movimentos em silêncio, acabou por perguntar a Reginaldo: -Então o gajo foi-se embora e não levou a pasta? Viste a gorja que ele deu ao porteiro? -És um principiante nestas andanças. George Gomes ficou a olhar para Reginaldo Teles, sem perceber muito bem o que este queria dizer, mas a explicação veio de seguida num tom que denunciava uma certa vaidade: -Quando o árbitro entrou, entregou o sobretudo no bengaleiro, não foi? -Foi, eu vi. -Depois, quando chegou o «pato», fez exactamente a mesma coisa. Só que no sobretudo dele vinha um pacote com os 3 mil, e o Chico Mancas -o homem do bengaleiro- já tinha instruções para passar os três mil de um sobretudo para o outro. Por isso, quando o árbitro saiu, já tinha no bolso a fruta. Desafio o mais esperto a provar que alguém lhe deu aqui dentro o que quer que fosse. George Gomes ficou de boca aberta, sem dizer palavra, e Reginaldo enchendo o peito não resistiu a comentar: -Ainda não entendeste? És mesmo burro. A isto chama-se a táctica do sobretudo.
As investigações intensificavam-se, o cerco apertava-se e Reginaldo Teles começou a beber uns copos a mais. Num dos seus momentos de delírio, devido ao exagero de alcoolémia, deu consigo a pensar no passado. Viu-se no centro do ringue, de luvas levantadas, gritando vitória. Lembrou as patrulhas que fazia em Santos Pousada, quando era necessário controlar as suas putas. Os momentos difíceis e as lutas travadas. E chorou. Agora, graças ao futebol, era um empresário de sucesso. Sozinho, sentado na secretária que tinha a um canto do seu escritório, entrou num momento de tristeza. Algumas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, enquanto o ranho se lhe soltava pelo nariz. Entabulando um diálogo consigo próprio, reviveu o passado: -Tenho a agradecer muito ao GC, mas também, se não fosse eu, se calhar ainda hoje ele andava a vender fogões. Soltando um palavrão ao mesmo tempo que atirava o copo para o chão, foi justificando as suas atitudes como se procurasse no infinito a razão para as suas acções. -Temos o dinheiro que nos apetece. Isso é crime? Nós fazemos parte do espectáculo. Somos nós que montamos a tenda. Somos nós que damos a alegria ao povo. Ganha quem a gente quer. Fazemos muita gente feliz. Temos de ser bem pagos por isso. Somos os maiores!... Este último grito alertou o porteiro, que foi avisar Lisa. Esta largou o balcão, entregando a gestão das operações à sua grande amiga Jennyza, uma mulata que não escondia o seu gosto pelas mulheres. Lisa entrou no escritório deparando com Reginaldo a cambalear e a tentar encontrar a cadeira da sua secretária. Lisa fechou de imediato a porta e comentou com ar de desprezo: -Já viste a cena que estás a fazer? Olha se alguém te visse nesse estado. Deita-te mas é aí a dormir, para ver se isso te passa até fecharmos. Reginaldo olhou Lisa e voltou a lembrar-se do passado. Também ela o tinha ajudado a triunfar, e prometeu: -Se nos safarmos desta, podes ter a certeza que vou acabar com esta merda do putedo. Não quero mais putas a trabalhar para mim. Vou abrir um bar decente. Já chega! Agora sou um senhor. O primeiro-ministro até me quis condecorar, mas quando soube que eu tinha esta merda, recuou. Acabaram-se os alternos. Lembra-te que até posso vir a ser presidente do nosso clube. Ao ouvir isto, Lisa torceu o nariz e respondeu: -Com que grande bebedeira tu estás... -O quê... não acreditas? Olha que continuo a ser o número dois do nosso clube, e alguns candidatos políticos até já me pedem apoio para as eleições. No fundo, eles são como nós. Com putas ou sem putas, é quem mais se orienta. Não vês o nosso presidente. Os grandes políticos vêm todos ao beija-mão. O futebol é que comanda este país, e o resto é treta. Lisa não lhe deu muita conversa e ajudou Reinaldo a deitar-se num pequeno sofá,tirando-lhe a garrafa do whisky da mão: -Hoje, já não bebes mais. Dorme um bocadinho, que isso passa-te. Quando tomou a sua posição no balcão, viu entrar Galo da Costa e ficou assustada. Se ele visse o estado em que estava Reinaldo, era capaz de ficar aborrecido. Por isso, chamou-o para o cumprimentar e sem lhe dar tempo para perguntas disse: -O Reginaldo teve de sair, mas deve estar aí a chegar. Sente-se ali numa mesa que eu mando-lhe já boa companhia. GC sorriu, e acabou por dizer: -Confio nos seus gostos. Estou mesmo a necessitar de uma coisa boa para me divertir, porque problemas já eu tenho com fartura. Passadas duas horas, GC já estava todo lambuzado de bâton. Lisa tinha-lhe colocado na mesa uma das bailarinas que fazia parte do show e, como uma boa profissional que era, esta fez GC esquecer o tempo.
Lisa entrou novamente no escritório, e Reginaldo roncava que nem um porco. Abanou-opara o acordar, e este, estremunhado, abriu os olhos e começou a gritar: -Eu estou inocente, o GC é que tem a culpa de tudo... Lisa deu-lhe um estalo, ao mesmo tempo que dizia: -Está calado. Não faças cenas, que eu não sou da Judite. O GC já está lá fora há duas horas. Arranja-te, que eu vou buscar-te um café. O homem parece que quer falar contigo ainda hoje (...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

1 comentário:

Bruno disse...

Muito bom!
Tava a ver que tinhas parado a meio... Continua o bom trabalho!

Saudações Bennfiquistas!