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segunda-feira, 14 de junho de 2010

História dos Estádios: Capítulo II

Hoje continuamos a História dos Estádios com o segundo capítulo - Terras do Desembargador.
No final deste capítulo ficam uns dados estatísticos, algumas curiosidades e alguns marcos importantes, porque históricos, para o nosso Glorioso Clube.


História dos Estádios:
Capítulo II - Terras do Desembargador (1904 a 1906)

As Terras do Desembargador foram um espaço desportivo fundamental para a evolução do futebol em Lisboa e em Portugal. Como Benfiquistas, não podemos deixar de lhe atribuir um carinho muito especial, pois foi aí que nos iniciámos e nos tornámos... ganhadores!

No final do séc. XIX, Os grandes jogos de futebol disputavam-se nos terrenos públicos das Terras do Desembargador, junto ao Convento das Freiras Salésias, em Belém, isto após o início da construção, em 1892, da Praça de Touros do Campo Pequeno, que era, até essa data, o local de eleição para os jogos de futebol realizados na Capital.

Ainda que esporádicos e sem calendário pré-estabelecido (anunciados em "desafio" nas páginas da imprensa lisbonense da época), os jogos de futebol atraíam às Salésias alguns desportistas, mas principalmente a miudagem. Em domingos de jogos, a pequenada de Belém e os casapianos do Restelo "caíam em cima das quatro linhas" na ânsia de ver jogar futebol, mas principalmente para verem quem vencia - se o que desafiava ou o que era desafiado. Depois imitavam os "heróis", nas ruas ou no pátio da Casa Pia.

Foi nesses terrenos que, em 13-12-1903, o Grupo de Belém, composto pelos três irmãos Rosa Rodrigues (conhecidos por Catataus) e os seus vizinhos da Rua de Belém, reforçados com ex-casapianos "bons de bola", venceram por 1-0, no jogo-desforra, o Internacional (CIF), considerado na altura o melhor grupo português de futebol (ainda que nele actuassem, também, jogadores ingleses).

No almoço que se seguiu ao triunfo, foi proposto fundar um clube... só com portugueses! A vitória, que provocou grande alvoroço em Belém, levou à intensificação dos treinos, ao estreitar de relações entre os rapazes de Belém e os ex-casapianos e, alguns meses mais tarde, à criação do nosso clube (28-02-1904). Após a fundação, na área de Belém, as Terras do Desembargador foram um dos locais onde se realizaram os primeiros treinos e onde se efectuou o primeiro jogo do nosso clube (01-01-1905), em que vencemos o Grupo de Campo de Ourique, por 1-0.

Continuámos a jogar nas Salésias, mas, com o crescimento do clube, em associados e popularidade, fazia-se sentir cada vez mais a necessidade de possuirmos "campo próprio". Uma das primeiras medidas da 1.ª Direcção, eleita a 22-11-1906 e presidida pelo Dr. Januário Barreto, ocorreu na 2.ª reunião, a 07.02.1907, em que se deliberou "adquirir um campo atlético privativo do clube".

Em pouco tempo, os jogadores do Benfica eram considerados os melhores que havia em Portugal e os únicos com categoria para "dar réplica" aos mestres invencíveis do Cabo Submarino, o Carcavelos Club. No entanto, não tinham boas condições para treinar e jogar. As estruturas das Salésias eram muito rudimentares. Como eram terrenos públicos, serviam vários fins, entre os quais exercícios de soldados e cavalaria dos regimentos militares de Belém, o que deixava frequentemente o piso em muito mau estado.

Por outro lado, os espectadores incomodavam muitas vezes os jogadores, sobretudo a "soldadesca" que assistia a treinos e desafios, visto que o campo constituía a cerca de um quartel. Este panorama era muito desagradável, sobretudo para alguns atletas do nosso clube, que também eram militares e de patente mais elevada... Com o desenvolvimento das suas capacidades futebolísticas, a par da afirmação profissional, não agradava aos nossos jogadores andar com equipamentos às costas e por balneários ao ar livre, sem comodidade nenhuma - "já não tinham idade nem posição social para rapaziadas".

Com a garotada a assistir, bola que saísse fora das "quatro linhas", era uma trabalheira para a trazer de volta ao campo, pois a rapaziada apanhava-a e queria brincar com ela. Havia, também, o perigo de alguns espectadores correrem pelo campo, provocando acidentes entre eles e os jogadores. António Rosa Rodrigues chegou mesmo a fracturar um braço, tendo, na sequência do acidente, partido a perna a um rapaz que atravessou inadvertidamente o terreno de jogo. O incidente provocou a intervenção da Polícia, tendo o nosso atleta prestado contas na esquadra de Belém, já que os terrenos eram públicos e deviam ser utilizados "com urbanidade", ou seja, de modo a não serem provocados desacatos. Havendo acidentes, teria de se responder por eles.

Com dificuldade em conseguir espaços em Lisboa para praticar futebol, o nosso clube, na temporada de 1906/07 - a 3.ª da nossa história desportiva -, utilizou, como os restantes clubes da cidade, campos alheios para jogar futebol. Entre estes, contavam-se a Quinta Nova, em Carcavelos (o único campo atlético privado em Portugal, que pertencia às instalações do Cabo Submarino e onde jogava o Carcavellos Cricket and Football Club - utilizado para o futebol desde os anos 90 do séc. XIX) e o campo da Cruz Quebrada, pertencente aos ingleses do Lisbon Cricket Club, que também praticavam futebol.

O clube continuou a procurar terrenos na área de Belém. Todavia, por não existirem espaços ou pelo facto de os arrendamentos serem demasiado dispendiosos, nunca foi possível conseguir o tão desejado campo próprio, nem mesmo fora de Belém. A solução viria a ser encontrada em Benfica, onde existia um clube - o Grupo Sport de Benfica -, que tinha um razoável campo de jogos, na Quinta da Feiteira, apesar de não possuir bons jogadores de futebol.

Nas Terras do Desembargador, terreno neutro, disputámos 6 jogos, em que somámos 5 vitórias, e um total de 13-2 em golos. Actualmente, estes terrenos estão integrados, devido ao alargamento das instalações, na "parada" do Quartel das Oficinas Gerais de Material de Engenharia, do Exército, a norte da Rua do Embaixador, entre a Travessa das Zebras e a Rua Alexandre de Sá Pinto.



‡ Curiosidades, Dados Estatísticos e Marcos Históricos ‡

Nome: Terras do Desembargador

Localização: Nas Terras das Salésias, a norte da Rua do Embaixador, entre a Travessa das Zebras e a Rua das Freiras Salésias

Situação Actual: Parada do Quartel das Oficinas Gerais de Material de Engenharia (Exército)

Tipo de Propriedade: Terrenos Públicos

Resultados Totais (de 01/01/1905 a 28/01/1906): Total de 6 jogos. 5 vitórias, 0 empates, 1 derrota, 13 golos marcados e 2 golos sofridos


Alguns dos resultados mais expressivos:

13/12/1903 - Vitória de 1-0 sobre o Clube Internacional de Futebol.
Obs.: Foi após este jogo (desforra) - entre o CIF e um misto composto por jogadores do Grupo de Belém (os Catataus) e da Associação do Bem (ex-Casapianos) - que se decidiu formar o Glorioso S.L.BENFICA

01/01/1904 - Vitória de 1-0 sobre o G. Campo de Ourique.
Obs.: 1.º jogo (desafio) do nosso clube. O Grupo de Campo de Ourique era considerado uma das melhores equipas. Dava-se início à popularidade do S.L.BENFICA

23/04/1905 - Vitória de 6-0 sobre GF Estephania.
Obs.: 6.º jogo do nosso clube (e 5.º neste campo) e a 1.ª goleada da história do S.L.BENFICA

28/01/1906 - Vitória de 2-1 sobre o Clube Internacional de Futebol.
Obs.: 2.º jogo (e 1.ª vitória como S.L.BENFICA) com o Internacional, considerado o melhor grupo misto (portugueses e ingleses) a jogar em Portugal


1 comentário:

Rúben Miguel disse...

Continua a colocar esta história do nosso glorioso...o melhor do mundo sem dúvida alguma...

SLB, SLB, SLB, GLORIOSO SLB, GLORIOSO SLB!!!