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domingo, 20 de junho de 2010

História dos Estádios: Capítulo VI


História dos Estádios:
Capítulo VI - Estádio das Amoreiras (1925 - 1940)

O Estádio das Amoreiras foi a concretização de um sonho de 20 anos, que permitiu ao Benfica ter finalmente um "poiso certo". Quando a Escola Normal começou a exigir, em 1920, a utilização dos terrenos da Quinta de Marrocos (local onde se situava o velho campo de Benfica), o Clube iniciou contactos para conseguir um espaço onde pudesse construir um campo atlético. Em 10/04/1921, uma vez mais por intermédio de Cosme Damião, o Benfica conseguiu um terreno onde se podiam erguer novas instalações desportivas. A Direcção nomeada em 10/09/1921 teve tarefa de grande envergadura na preparação da transferência do parque de jogos para o terreno onde o Benfica havia de erguer uma obra notável para a época, embora não tivesse chegado a ficar concluída por completo - o Estádio das Amoreiras.

Houve que preparar tudo: plano (em face das necessidades impostas pelo eclectismo desportivo), projecto, estimativas e... dinheiro! Tudo isto constituiu um processo complicado. Mas serviu, uma vez mais, para demonstrar o entusiasmo que o Benfica sempre empregou nas suas campanhas. A Direcção projectou uma obra grandiosa, destinada ao futuro. O grande objectivo era conseguir pela primeira vez, no seio do Clube (que comemorara, em 28.2.1921, o 17.º aniversário), um espaço desportivo definitivo, isto é, que, de uma vez por todas, lhe pertencesse.

Mas para concretizar o sonho era indispensável arranjar dinheiro, tendo em conta o desejo de tudo ser feito com recursos próprios, à custa de espírito de sacrifício e de muito entusiasmo. Levou dois anos a preparar o "projecto" em que assentou a aquisição dos terrenos das Amoreiras e a construção do novo parque de jogos. A Assembleia Geral realizada em 04/02/1923 foi uma das mais importantes na nossa história. A Direcção foi autorizada a realizar a emissão de 12 000 Obrigações hipotecárias, no valor de 1 200 contos, e de 5 000 Títulos de Propriedade, no valor individual de 200$00 (perfazendo, no total, 1 000 contos), para a construção do Estádio das Amoreiras e para a aquisição de terreno destinado a esse complexo. A compra do terreno, em excelentes condições de localização e preço, foi efectuada com a intervenção de Cosme Damião, que agregava, em simultâneo, as funções de vice-presidente da direcção do Clube e de empregado superior da Casa Palmela, proprietária dos terrenos.



À transacção, seguiu-se a campanha de lançamento de Obrigações e Títulos de Propriedade. Foi uma obra larga de tenacidade e de entusiasmo. O custo do terreno foi de 451 077$50. As obras iniciaram-se em Outubro de 1923. Seguiu-se a construção do Estádio, tendo a direcção contraído um empréstimo de 200 contos, destinado a acelerar o andamento das obras. Até 30/06/1924, os custos estimavam-se em 534 504$80. Um ano depois, em 30/06/1925, os valores eram já de 947 462$37. Finalmente, após mais de dois anos de trabalho esgotante, em que foi necessário as direcções fazerem um esforço gigantesco (e os associados corresponderem), o Benfica inaugurou, a 13/12/1925, um magnífico estádio, perante o testemunho de cerca de 15 000 pessoas. O sonho tornava-se realidade!

Depois do Estádio inaugurado, a Direcção foi viu-se forçada, em 25/04/1926, a contrair novo empréstimo, agora de 100 contos. Com as instalações das Amoreiras gastou-se, até 30/06/1926, 1 480 666$60, incluindo o custo do terreno. O projecto contemplava, também, uma sede junto ao estádio, plano que nunca chegou a concretizar-se! Mas foi nas Amoreiras que o Benfica ressurgiu com a força que lhe iria permitir reencontrar os grandes êxitos. Em termos associativos, o clube possuía agora mais um núcleo na cidade, captando simpatias acrescidas numa área importante de Lisboa: Amoreiras/Campolide/Campo de Ourique. Iniciava-se, assim, um "triângulo vermelho" na Capital, com vértices em Benfica (sede), Baixa (secretaria) e Amoreiras (estádio).

Por ocasião da festa comemorativa das "Bodas de Prata" do SLB, realizada no Estádio das Amoreiras, em 31/03/1929, efectuou-se uma grande parada atlética, com a participação de meio milhar de atletas de todas as modalidades, incluindo de algumas filiais. Pelo terreno das Amoreiras passou o que havia de melhor, ou de mais prometedor, entre os inúmeros atletas do Clube, que desfilaram perante as bancadas cheias de público. A repercussão no universo benfiquista e na imprensa foi tal que daí em diante, no rectângulo de jogo das Amoreiras, se passou a realizar, anualmente, uma grande parada atlética.



Foi durante a permanência nas Amoreiras que o Benfica conquistou os primeiros títulos nacionais: 3 Campeonatos de Portugal (a prova que antecedeu a Taça de Portugal) e o tri-campeonato da I Liga (35/36, 36/37 e 37/38) - competição que depois se viria a designar de I Divisão e, mais tarde (já nos anos 90), novamente de I Liga. Durante este período (1925-1940), o Benfica conquistou ainda uma Taça de Portugal e dois Campeonatos Regionais. Houve grandes jogos nas Amoreiras, com destaque (além da já referida vitória sobre o Ferencvaros), para o 13-1 ao Casa Pia (no Regional de Lisboa), o 6-0 ao FC Porto (na 2.ª mão das ½ finais da Taça de Portugal, recuperando(!) de uma derrota de 1-6 na 1.ª mão), e a vitória por 5-0 sobre Sporting, que permitiu a conquista do 10.º regional de Lisboa, em 39/40. Nas Amoreiras, conseguiu o Benfica 2 séries de 14 vitórias consecutivas e uma série de 25 jogos sem perder. Efectuaram-se neste campo 238 jogos, de que resultaram 164 vitórias, 33 empates, 41 derrotas e 812-343 em golos.



As Amoreiras foram sempre tratadas com o maior carinho pelos benfiquistas. Em 1936, chegou a pensar-se na conclusão do projecto que consistia no melhoramento e aumento das bancadas para 20 000 pessoas, bem como na construção de uma piscina. Junto ao campo de jogos, existia o campo de basquetebol e dois "courts" de ténis. No Verão de 1937, fizeram-se obras para melhorar o piso e facilitar o sistema de drenagem. Em 1939, porém, começam as preocupações com o estádio das Amoreiras: a Direcção do clube é informada de que o ministro Eng.º Duarte Pacheco não prescinde de promover rapidamente a construção de uma auto-estrada pelo traçado escolhido (que implica a inutilização da bancada do peão) e do propósito de atirar os campos desportivos para fora do perímetro interno da cidade. O Benfica tinha, então, de sair das Amoreiras e, provisoriamente, instalar-se no Campo Grande, enquanto a Câmara Municipal de Lisboa não construísse três estádios no Parque Florestal de Monsanto para os três principais clubes da capital.



A indemnização oferecida ao Benfica foi de 600 contos, valor que este contestou, conseguindo elevar o montante em cerca de 33 por cento (800 contos). Foi já sob o estigma do abandono que o Benfica promoveu, nas Amoreiras, em 23/07/1939, um grande almoço de homenagem aos campeões do Clube. Em 1940, dois momentos marcaram a despedida deste Campo: a festa comemorativa do 36.º aniversário (realizada no dia 7 de Abril) e que significou o adeus ao Campo; e a disputa do último jogo (23 de Junho) - um encontro a contar para a 1.ª Mão das meias-finais na Taça de Portugal, com o Barreirense (vitória do Benfica, por 5-2).



Actualmente, nos terrenos onde esteve o campo e instalações desportivas está o Liceu Francês e a Avenida Eng.º Duarte Pacheco. Em finais de 1940, o Benfica abandonou as Amoreiras, deixando no local apenas uma delegação. Afinal, o sonho de ter campo privado tornara-se realidade somente durante algum tempo. Após 15 anos de morada fixa, o Benfica regressava a um campo provisório, sendo "obrigado" a arrendar um espaço à CML. Para trás ficava o mítico Estádio das Amoreiras, local onde a mística muito se reforçou.



Os primeiros anos foram de consolidação e, em 1929, dois acontecimentos marcaram as Amoreiras, o Benfica e o desporto português: a visita da consagrada equipa húngara do Ferencvaros, considerada uma das melhores da Europa (nas habituais digressões pelo continente europeu "arrasava" os adversários, incluindo em Portugal, onde goleara já alguns dos melhores clubes portugueses - Sporting e Belenenses, pelo mesmo resultado: 6-0). Em 06/01/1929, perante uma multidão que constituiu "record" de receita em jogos realizados no nosso País, o Benfica venceu o Ferencvaros por 1-0 (considerado, durante muitos anos, o "melhor resultado do futebol português" - é que, depois, os húngaros ainda venceram, mesmo após viagens extenuantes, o V. Setúbal, por 4-1, e o FC Porto, por 5-3). O resultado reavivou os grandes feitos do Benfica em jogos com emblemas internacionais.



 
‡ Curiosidades, Dados Estatísticos e Marcos Históricos ‡



Nome: Estádio das Amoreiras

Localização: Em Campolide, no troço Norte (lado esquerdo) da Rua das Amoreiras. Confinava a Sul com as instalações da Carris, a Norte com as traseiras dos prédios da Rua do Arco do Carvalhão, a Este com a Rua das Amoreiras, onde estava a entrada, no n.º 135, e a Oeste com o Aqueduto das Águas Livres

Datas de posse: Entre 04/02/1923 e finais de 1940



Tipo de Propriedade: Propriedade do Clube



Situação Actual: Instalações do Liceu Francês e Av. Eng.º Duarte Pacheco, entre o Liceu Francês e o Centro Comercial Amoreiras



Superfície aproximada da área: 19.500 m2



Valor aproximado: 1.480.666$60 (incluindo o custo do terreno, de 451.077$50)



Resultados Totais:
Total de 238 jogos. 164 vitórias, 33 empates e 41 derrotas; 812 golos marcados e 343 golos sofridos.




Alguns dos resultados mais expressivos:



06/01/1929 - Vitória de 1-0 sobre o Ferencvaros TC (Hungria)
Obs.: O Benfica foi o único clube vencedor dos húngaros, que na sua digressão por terras lusas golearam todos os melhores clubes portugueses.
05/12/1937 - Vitória de 13-1 sobre o Casa Pia AC
Obs.: Conquista do 10.º título de Campeão Regional
03/02/1939 - Vitória 5-0 sobre o Sporting CP
18/06/1939 - Vitória de 6-0 sobre o FC Porto

 

Curiosidades:



Data da Inauguração e 1.º jogo: 13/12/1925, num jogo para o Regional de Lisboa, com o Casa Pia AC.
Data do último jogo: 23/06/1940, para a Taça de Portugal, com o CF Barreirense
Maior assistência: 15.000 pessoas
Outras Instalações: Dois "courts" de Ténis e Campo de basquetebol
Motivo do Abandono: Expropriação pelo Ministério das Obras Públicas, para a construção da auto-estrada de acesso ao Viaduto de Monsanto, actualmente com o nome do Ministro Eng.º Duarte Pacheco (indemnização de 800.000$00)


 

2 comentários:

portuguesesnoestrangeiro disse...

Excelente trabalho!

Cumprimentos,
Paulo Silva

http://portuguesesnoestrangeiro.wordpress.com/

Sublime Benfica Campeão disse...

...bom trabalho,Chuva!

SBC

http://sublimebenficacampeao.blogspot.com/