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terça-feira, 11 de setembro de 2007

O POLVO (15ª Parte)

Caros AMIGOS, imprestáveis e restante manada desdentada do enclave,
É fabulosa a falta de capacidade de determinados torpes em assumir a vergonha e a falta de princípios que deveriam existir na mente destes cadáveres... Mas adiante... Leiam e vejam o porquê das "coisas".
Continuação

“(...) Galo da Costa controlava todas estas áreas, e não havia dúvidas de que era ele quem mandava no futebol. A Polícia incomodava toda a gente, procedia a investigações, fazia buscas residenciais a várias personalidades, que toda a gente sabia serem satélites de GC, mas nele ninguém tocava. GC, surgia sempre acima de toda a suspeita e com uma porta aberta para sair em defesa dos seus protegidos e dar-lhes a cobertura necessária. O Grande Líder tinha consciência daquilo que valia e do poder que tinha. Sabia que os mais altos dirigentes políticos lhe vinham mendigar apoio nos momentos cruciais. O escândalo não o afectava; a contínua suspeita que caía sobre ele e os seus sócios não tinha grandes efeitos sociais, como se toda a gente aceitasse pacificamente que o futebol era um antro de negócios marginais. O certo é que, apesar de todos os hinos cantados à inocência, quando surgia uma suspeita de corrupção ligada ao futebol, a direcção era sempre a mesma e atingia sempre as mesmas pessoas. Ninguém podia pensar numa perseguição injusta, como fazia crer, porque isso seria até um insulto a Galo da Costa e à sua reconhecida capacidade de gestão de problemas. -Eles que venham comer o milho à minha mão - sussurrava GC, enquanto abria mais uma edição do «Independente», de novo com a sua foto na capa.
A Polícia Judiciária estava no auge das suas investigações. Tinha acumulado provas substanciais, o que levava a brigada a pensar que já havia dados mais que suficientes para começar a prender pessoas. Mas cantaram demasiado cedo o grito da vitória. Não acreditavam na força que a organização tinha e acabaram por ser surpreendidos, isto não obstante terem mesmo chegado a ser passados vários mandatos de busca a casa dos maiores suspeitos. Galo da Costa tinha conhecimento das investigações que estavam a ser efectuadas e avisou Reginaldo Teles para que este se rodeasse de maiores cuidados nos negócios que efectuava. Aos poucos, foram retirando de suas casas documentos que poderiam indiciar a sua actividade marginal. Começou a haver um maior cuidado nos movimentos bancários, mas o negócio não parou. Quando tinham dúvidas sobre como deveriam actuar sem deixar rastos que mais tarde os pudessem comprometer, consultavam um dos seus advogados com fama de grandes especialistas em crime e avançavam com todas as medidas de precaução. As despesas eram muitas, e acabar com o negócio seria o princípio do fim. Alguém tinha de saldar as dívidas e repor o dinheiro mal aplicado. Num dos momentos de maior pressão, tornou-se necessário negociar o resultado de um jogo com um árbitro portuense. O preço estabelecido foi de três mil contos e foi marcado encontro com esse juíz na segunda-feira seguinte no bar de Reginaldo. Nessa noite, o primeiro a chegar foi George Gomes e só mais tarde apareceu Reginaldo, um tanto desconfiado, olhando para todos os cantos da sala com a nítida intenção de identificar todos os seus clientes e classificar os suspeitos. Nem sequer cumprimentou George Gomes, e este, um tanto admirado, não entendendo o que se estava a passar, acabou por perguntar entre dentes: -O que é que tens. Está cá alguém da Judite? -Estou a ver se descubro alguém suspeito. Olha aqueles dois ali ao canto. Conheces?George Gomes rodou sobre os calcanhares com tal velocidade que até entornou o whisky que tinha na mão, marcando-lhe o príncipe-de-gales. Reginaldo, irritado com tal atitude, não se conteve: -És mesmo burro. Se eles forem da Judite, dás logo a perceber que estás comprometido. -Oh, pá, fiquei assustado! Tens razão, mas não te preocupes com aqueles dois. Eu conheço-os. São cabritos. Reginaldo Teles respirou fundo e comentou com George Gomes o jogo do dia anterior e o investimento dos três mil contos. -Viste ontem? Foi tão fácil. Ele controlou o jogo como quis, não houve escândalos e hoje a Imprensa não faz grandes críticas. Assim é que é bom ganhar dinheiro. George Gomes não perdeu a oportunidade para perguntar quando é que os três mil eram entregues, assim como a comissão deles, e Reginaldo Teles explicou-lhe o seu plano com uma certa vaidade: -O homem ficou de vir cá hoje entregar o dinheiro, e o árbitro também vem cá buscá-lo. Devem estar aí a chegar. -Mas, não é perigoso? Ele devia ter sido pago antes, como os outros. O chefe não nos avisou para termos cuidado, porque estávamos a ser seguidos? -Não te preocupes, eu tomei as minhas precauções... Reginaldo nem sequer teve tempo para acabar a frase, pois o árbitro cumpriu escrupulosamente o horário e estava, nesse momento, a entregar o seu sobretudo no bengaleiro. Após receber a ficha de depósito, dirigiu-se para uma mesa, cumprimentando Reginaldo de esguelha. O empregado abeirou-se do cliente, e este pediu um whisky com Coca-Cola e muito gelo.
Não passaram mais de 10 minutos e entrou o dirigente que levava os três mil contos. Tal como o árbitro, entregou o seu sobretudo ao porteiro e dirigiu-se para outra mesa, fazendo também um leve aceno de cabeça a cumprimentar Reginaldo que, de imediato, lançou um olhar cúmplice a uma das suas miúdas. Esta, sem perder tempo, foi sentar-se na mesa do dirigente, e minutos depois já saltava a rolha da primeira garrafa de champanhe, enquanto a empregada lhe mordia o lóbulo da orelha e lhe prometia uma noite de sonho. O árbitro acabou de sorver o seu whisky, chamou o empregado, pagou e dirigiu-se para o bengaleiro, a fim de levantar o seu sobretudo, que lhe foi entregue de imediato. Saiu, metendo uma nota de cinco mil na mão do porteiro. George Gomes, que seguiu todos estes movimentos em silêncio, acabou por perguntar a Reginaldo: -Então o gajo foi-se embora e não levou a pasta? Viste a gorja que ele deu ao porteiro? -És um principiante nestas andanças. George Gomes ficou a olhar para Reginaldo Teles, sem perceber muito bem o que este queria dizer, mas a explicação veio de seguida num tom que denunciava uma certa vaidade: -Quando o árbitro entrou, entregou o sobretudo no bengaleiro, não foi? -Foi, eu vi. -Depois, quando chegou o «pato», fez exactamente a mesma coisa. Só que no sobretudo dele vinha um pacote com os 3 mil, e o Chico Mancas -o homem do bengaleiro- já tinha instruções para passar os três mil de um sobretudo para o outro. Por isso, quando o árbitro saiu, já tinha no bolso a fruta. Desafio o mais esperto a provar que alguém lhe deu aqui dentro o que quer que fosse. George Gomes ficou de boca aberta, sem dizer palavra, e Reginaldo enchendo o peito não resistiu a comentar: -Ainda não entendeste? És mesmo burro. A isto chama-se a táctica do sobretudo.
As investigações intensificavam-se, o cerco apertava-se e Reginaldo Teles começou a beber uns copos a mais. Num dos seus momentos de delírio, devido ao exagero de alcoolémia, deu consigo a pensar no passado. Viu-se no centro do ringue, de luvas levantadas, gritando vitória. Lembrou as patrulhas que fazia em Santos Pousada, quando era necessário controlar as suas putas. Os momentos difíceis e as lutas travadas. E chorou. Agora, graças ao futebol, era um empresário de sucesso. Sozinho, sentado na secretária que tinha a um canto do seu escritório, entrou num momento de tristeza. Algumas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, enquanto o ranho se lhe soltava pelo nariz. Entabulando um diálogo consigo próprio, reviveu o passado: -Tenho a agradecer muito ao GC, mas também, se não fosse eu, se calhar ainda hoje ele andava a vender fogões. Soltando um palavrão ao mesmo tempo que atirava o copo para o chão, foi justificando as suas atitudes como se procurasse no infinito a razão para as suas acções. -Temos o dinheiro que nos apetece. Isso é crime? Nós fazemos parte do espectáculo. Somos nós que montamos a tenda. Somos nós que damos a alegria ao povo. Ganha quem a gente quer. Fazemos muita gente feliz. Temos de ser bem pagos por isso. Somos os maiores!... Este último grito alertou o porteiro, que foi avisar Lisa. Esta largou o balcão, entregando a gestão das operações à sua grande amiga Jennyza, uma mulata que não escondia o seu gosto pelas mulheres. Lisa entrou no escritório deparando com Reginaldo a cambalear e a tentar encontrar a cadeira da sua secretária. Lisa fechou de imediato a porta e comentou com ar de desprezo: -Já viste a cena que estás a fazer? Olha se alguém te visse nesse estado. Deita-te mas é aí a dormir, para ver se isso te passa até fecharmos. Reginaldo olhou Lisa e voltou a lembrar-se do passado. Também ela o tinha ajudado a triunfar, e prometeu: -Se nos safarmos desta, podes ter a certeza que vou acabar com esta merda do putedo. Não quero mais putas a trabalhar para mim. Vou abrir um bar decente. Já chega! Agora sou um senhor. O primeiro-ministro até me quis condecorar, mas quando soube que eu tinha esta merda, recuou. Acabaram-se os alternos. Lembra-te que até posso vir a ser presidente do nosso clube. Ao ouvir isto, Lisa torceu o nariz e respondeu: -Com que grande bebedeira tu estás... -O quê... não acreditas? Olha que continuo a ser o número dois do nosso clube, e alguns candidatos políticos até já me pedem apoio para as eleições. No fundo, eles são como nós. Com putas ou sem putas, é quem mais se orienta. Não vês o nosso presidente. Os grandes políticos vêm todos ao beija-mão. O futebol é que comanda este país, e o resto é treta. Lisa não lhe deu muita conversa e ajudou Reinaldo a deitar-se num pequeno sofá,tirando-lhe a garrafa do whisky da mão: -Hoje, já não bebes mais. Dorme um bocadinho, que isso passa-te. Quando tomou a sua posição no balcão, viu entrar Galo da Costa e ficou assustada. Se ele visse o estado em que estava Reinaldo, era capaz de ficar aborrecido. Por isso, chamou-o para o cumprimentar e sem lhe dar tempo para perguntas disse: -O Reginaldo teve de sair, mas deve estar aí a chegar. Sente-se ali numa mesa que eu mando-lhe já boa companhia. GC sorriu, e acabou por dizer: -Confio nos seus gostos. Estou mesmo a necessitar de uma coisa boa para me divertir, porque problemas já eu tenho com fartura. Passadas duas horas, GC já estava todo lambuzado de bâton. Lisa tinha-lhe colocado na mesa uma das bailarinas que fazia parte do show e, como uma boa profissional que era, esta fez GC esquecer o tempo.
Lisa entrou novamente no escritório, e Reginaldo roncava que nem um porco. Abanou-opara o acordar, e este, estremunhado, abriu os olhos e começou a gritar: -Eu estou inocente, o GC é que tem a culpa de tudo... Lisa deu-lhe um estalo, ao mesmo tempo que dizia: -Está calado. Não faças cenas, que eu não sou da Judite. O GC já está lá fora há duas horas. Arranja-te, que eu vou buscar-te um café. O homem parece que quer falar contigo ainda hoje (...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

domingo, 9 de setembro de 2007

O POLVO (14ª Parte)



Caros Amigos, pessoal dos terrenos e incendiários de escritórios,

Após bastante tempo de ausência, consegui, finalmente, recuperar o disco rígido do meu computador onde tenho toda a minha escrita sobre a escória Andrade e respectivos episódios de “O Polvo”. Espero que continuem a apreciar.


Continuação


”(...) Os agentes destacados para a investigação conheciam o terreno que pisavam e não estavam nada optimistas em relação às provas que poderiam vir a encontrar. Isto apesar de terem assistido a vários encontros e conversas que indiciavam a existência de actos corruptos. Um dia, resolveram seguir Reginaldo Teles e acabaram num bar de alternos perto do Marquês. No seu interior estavam dirigentes de um clube, em amena cavaqueira, e que tinham lá ido para se encontrar com um árbitro que lhes ia apitar o jogo da próxima jornada. O espectáculo estava a começar, e no meio da pista exibia-se um travesti com farta cabeleira longa encaracolada e um vestido coberto de lantejoulas vermelhas que lhe descia pelas pernas até ao tornozelo, abrindo uma enorme racha que se prolongava pela coxa esquerda. Cantava em play-back uma canção de Maria Betânia. O árbitro, sentado numa mesa próxima da pista, coçava a sua careca, enquanto alisava os poucos cabelos que lhe sobravam e que lhe cobriam apenas as têmporas. Levou o copo de whisky aos lábios e pousou-o quase de imediato para aplaudir a actuação do travesti. Quando lançou um olhar sobre a entrada viu surgir Reginaldo Teles. Uma das putas levantou-se com ligeireza e foi cumprimentá-lo, enquanto as outras a olhavam com inveja e diziam: -Se a Lisa sabe desta merda, vem aí e dá-lhe uma tareia que a fode. Reginaldo, sem perder o seu habitual fair-play, afastou a mulher e, quando ela se virou, mostrando um cu arrebitado e comprimido numas calças de licra, não resistiu a dar-lhe uma palmada, enquanto lhe dizia: -Tens o melhor cu da Europa. O árbitro assistiu a toda a cena e cumprimentou Reginaldo com um ligeiro aceno de cabeça. Os dirigentes ganharam coragem, levantaram-se e foram falar com o árbitro, que os conhecia e já esperava a investida. Após os cumprimentos tradicionais, o árbitro esperou pelo primeiro ataque, e logo que lhe referiram o jogo de domingo disse apenas: -Não percam tempo. Esses negócios não são tratados comigo. Se querem alguma coisa, falem com Reginaldo Teles. Ele chegou agora, falem com ele.Os agentes da PJ nem queriam acreditar no que ouviam. Estavam perto e escutaram a conversa. Esperaram pela reacção dos dirigentes, e estes, sem perderem tempo, pediram licença para se sentar na mesa de Reginaldo. Só ouviram Reginaldo dizer: -Apareçam amanhã para falarmos desse caso. Tinham voltado à estaca zero, quando julgavam que estava em perspectiva a flagrante que tanto desejavam. Era difícil arranjarem-se provas para deter Reginaldo e George Gomes. Eles rodeavam-se de cuidados dignos de grandes profissionais. O inspector que comandava a operação chegou a dizer: -Isto não vai ser fácil. Ou temos a sorte de os apanhar em flagrante, o que é tremendamente difícil, ou então temos de utilizar a táctica de Al Capone. -A táctica de Al Capone? -perguntou um dos agentes, sem entender muito bem oque o seu chefe queria dizer. -Eu explico. Toda a gente sabia que Al Capone era um gangster de primeira categoria. Matava, corrompia e só tinha negócios ilícitos, mas como ninguém podia provar nada, muitas vezes até passou por bom rapaz, negando descaradamente os seus crimes. Temos neste caso o exemplo disso mesmo. Todos temos a certeza que Galo da Costa e Reginaldo Teles estão envolvidos em casos de corrupção, mas como ninguém pode provar nada, quando alguém os acusa, ainda corre o risco de se transformar num difamador. Ao Al Capone meteram-no na cadeia por fuga aos impostos, e a estes só lhes podemos pegar pelo mesmo motivo, muito embora o sistema fiscal do nosso país não nos dê muita margem de manobra para isso. Doutra forma, só mesmo se um dos árbitros corruptos falar, e isso não é muito provável. A corrupção atingia quase todos os sectores do futebol, e não havia dúvidas de que existia uma organização perfeita por trás de toda esta situação.
Os mais altos dirigentes federativos recebiam luvas da Olivedesportivos para ultrapassar regulamentos, dar exclusivos sem concursos públicos ou marcar jogos seguindo as conveniências horárias da televisão. A PJ seguiu alguns desses dirigentes e verificou que estes no final de cada mês passavam pelos escritórios da Olivedesportivos e nunca ninguém acreditou que eles fossem apenas cumprimentar ou desejar um bom final de mês a Joaquinas Oliveira. Mas, apesar de toda esta evidência, de que algo de anormal se passava, e não haver dúvidas de que existia corrupção, não se conseguia prender ninguém. Quando existia mesmo a possibilidade de se poderem arranjar provas de um crime, elas eram imediatamente abafadas, sem ninguém saber como. Mas um jogador que foi contactado por George Gomes para facilitar um resultado fez questão de dar com a língua nos dentes e transformou o seu caso num escândalo nacional. Prometeu contar toda a verdade. Porém os casos caíam sempre na mão de quem sabia como lhes dar destino. Numa primeira abordagem, esse jogador teve medo de contar toda a verdade. Foram apontadas testemunhas para esse caso que poderiam ser o início da derrocada da organização, mas mais ninguém foi ouvido sobre essa questão. O processo desapareceu como o fumo, levando o caminho de tantos outros: arquivado por falta de provas. É que, quando elas existiam ou se perspectivava o testemunho dos factos, surgia logo uma misteriosa corrente no sentido de fazer as coisas caírem no esquecimento. O império resistiu ao movimento das catacumbas. A televisão gastava milhões em transmissões televisivas. O responsável por essas negociações comprou a dinheiro, misteriosamente, uma casa no valor de 50 mil contos. Todos sabiam que meses antes ele não tinha possibilidades de efectuar tal negócio. Era mais que evidente que estava a receber luvas da Olivedesportivos, mas ninguém lhe pediu contas. O descaramento era tal neste tipo de negócios, e a cobertura de tal forma forte, que a Olivedesportivos, uma empresa instalada num modesto T1, com dois empregados e uma mulher de limpeza, fazia frente e vencia as estações de televisão mais fortes em estruturas e com grande peso político e religioso. Fomentaram-se guerras, desmascaram-se situações, mas a organização tinha tal poder que nem sequer foi minimamente abalada. Ninguém compreendia aquele fenómeno. Um escudo invisível parecia proteger a coutada de GC. Por trás das outras empresas, havia gente com grande peso político, ex-ministros e até ex-primeiros-ministros, mas estas empresas esbarravam sempre no gnomo Joaquinas Oliveira, o tal que meia dúzia de anos antes era apenas o proprietário de um bar de alternos com putas ranhosas e que até as cuecas tinha penhoradas. A televisão era uma enorme fonte de receita. O segredo do negócio não residia, como se tentava fazer crer, na negociação da exclusividade das transmissões, mas no sistema camuflado de publicidade estática. Tudo isto formava uma teia bem tecida e organizada. Por seu lado, o irmão de Joaquinas Oliveira, quando deixou de jogar futebol, dedicou-se à actividade de treinador, mas apesar de todas as ligações comerciais com GC, nunca se deixou envolver pelo sistema. Treinou sempre clubes de pequena nomeada, e era evidente a sua grande capacidade de comando e leitura de jogo. Antónimo Oliveira era inteligente e conhecia como ninguém o futebol por dentro, mas nunca foi um grande amante do trabalho. Treinar um clube e ter de se levantar todos os dias de manhã para exercer essa actividade, ou radicar-se numa cidade pequena para poder laborar, nunca esteve nos seus horizontes, e daí o seu êxito não ter tido uma dimensão à altura do seu talento. A solução para o seu problema estava na selecção. Trabalhava de três em três meses, e como capacidade e talento eram coisas que não lhe faltavam, este era um emprego à sua medida(...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

domingo, 2 de setembro de 2007

Parabéns campeões

Por falta de tempo não tenho postado regularmente.
Portanto neste post venho recordar o que se passou ultimamente de grande importancia e que não deve ser esquecido:
Parabéns ao Nélson Evora pela conquista da medalha de ouro em Osaka e a Vanessa Fernandes que se sagrou campeã mundial de triatlo, ambos atletas do Benfica.

Outro acontecimento que marcou o desporto foi a morte do futebolista do Sevilha FC Antonio Puerta. O nosso blog presta sentidas condolências à família de Antonio Puerta, ao Sevilha e a todos os amigos do atleta.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Final Antecipada


pois é meus amigos, panascas e fdps, calhámos no grupo do campeão europeu e mais uma vez vamos mostrar quem manda na Europa!!
e já no dia 18 de Setembro a final antecipada da liga dos campeões- AC Milan x BENFICA, a tripeirada está no grupo mais facil de toda a prova e cheira-me que vão com o crl na mesma...

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Reeditar o Inferno!!!


Finalmente um jogo oficial!! É disto que precisamos e o nosso corpo nos pede, rola a bola e a mitica camisola do Glorioso apresenta-se hoje no Inferno que todos queremos que regresse tal como nos saudosos anos 80. Nem a fuga de Manuel Fernandes á ultima da hora me abala quando o Glorioso sobe ao relvado, pois um jogador não é o Benfica, nem 11 jogadores são o Benfica...
O benfica é muito mais que qualquer coisa terrena, o Benfica está acima de seres superiores, logo não me preocupo...
A partir das 18horas no sitio do costume...
CONNOSCO QUEM QUISER CONTRA NÒS QUEM PUDER.

domingo, 12 de agosto de 2007

Já Foste Tarde...


Eu sei que vou ser criticado por muitos, mas pouco me importo, pois cada um tem a sua opinião em relação a este indivíduo e eu também não fujo à regra, como tal aqui vai a minha:

Foi para mim o jogador mais regular das últimas temporadas. Em suma, o melhor jogador do Benfica.
Carácter?! O que é isso?! Chegou a Lisboa com ranho no nariz, proveniente de uma terra de pessoas humildes, trabalhadoras e com princípios. No Sporting deram-lhe banho e limparam-lhe o ranho que trazia pendurado. Ensinaram-no a jogar futebol, mas esqueceram-se de lhe transmitir os valores morais com que um homem se rege para o resto da vida: Educação, Honestidade, Reconhecimento, Palavra.
Desde que chegou de Barcelona começou por se “esquecer” do pagamento de um LCD ao respectivo proprietário e teve que ser recordado de forma “diferente” o que fez com que saldasse a dívida de forma imediata. A famosa discussão pela posse da braçadeira de Capitão do Benfica. Barrado à porta da discoteca “Kapital” em véspera de um Sporting-Benfica -na era de Camacho-. A sua relação com os vendedores de automóveis usados, exibindo a excentricidade semana após semana com viaturas... usadas. A birra sobre quem detinha a melhor viatura do balneário encarnado. Segundo sei, haviam de ver a cara deste rapaz quando soube que o grande e nobre Fabrizio Miccoli se apresentou com o seu Lamborghini Gallardo... Ok, é certo que o Bentley e o Lamborghini são viaturas completamente diferentes... A intercepção policial e respectiva coima por falta de seguro automóvel sobre uma viatura importada. “Coima?! O quê?! Mas você não me conhece?! Eu sou o Simão Sabrosa!” “-Ainda por cima... O sr. com a sua posição devia era dar o exemplo.” Retorquiu o agente autuante.
Sempre ele nos flash-interviews com aquele ar de benzoca mal disfarçado e com a boca de lado a falar do género: “Oh Salvador tá a ver?!” típico das famílias cascalenses.
Sempre ele nas conferências de imprensa. Sempre ele a marcar os cantos. Sempre ele a marcar os livres. Sempre ele a marcar os penáltis. Pouca efusividade quando os seus companheiros marcavam golos. Ainda me recordo da birra que este cavalheiro fez depois de marcar o penálti decisivo que deu a vitória e consequente apuramento para a eliminatória seguinte da Taça de Portugal frente ao Nacional na era de Koeman: Correu que nem um desalmado, amuado em direcção ao balneário e só não conseguiu os seus intentos, porque foi “placado” pelo grande e nobre Nuno Gomes e pelo Nélson que ainda assim conseguiram disfarçar a birra do Sr. Simão. E para terminar deixo aqui esta pérola bem fresquinha sobre este “simpático” rapaz de Constantim.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Previsões

"Ganhar é como escovar os dentes neste clube. É um hábito."
Palavras de Jesualdo Ferrreira.
Já dá para imaginar a equipa dos andrades no final da época (isto é, se estes 3 chegarem ao fim da época, o que me parece pouco provável):




P.S- O pessoal está de ferias, por isso o abrandamento nas postagens.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Até um dia, capitão

É com grande tristeza que vejo partir um dos melhores jogadores da história do Benfica.
Os pés do Simão só valem 20 milhões? Atlético de Madrid?? Desiludido, é a única palavra que me ocorre.
Resta-me desejar boa sorte a este grande jogador e um grande homem que tão bem nos representou.
Ficarás no coração de todos nós, obrigado por tudo!

O POLVO (13ª Parte)

Continuação

“(...) As putas já estavam resignadas.
Chegada a hora de o abutre picar sobre a carcaça, Reginaldo começava a gerir a situação, dando toda a cobertura ao clube cujo treinador lá tinha colocado. As tabelas eram feitas mediante os escalões em que os clubes militavam e, como normalmente as coisas melhoravam de imediato, toda a gente se sentia satisfeita. O presidente tornava-se um bom cliente, diminuindo o orçamento para a contratação de jogadores e aumentando a verba de despesas confidenciais que iam direitinhas para os bolsos de Reginaldo. A qualidade do futebol decrescia também, porque já não era necessário investir-se em bons profissionais, mas sim nas habilidades e manobras de bastidores. Os dirigentes não escondiam essa situação: -Que importa ter bons jogadores se não ganhamos?!... À parte tudo isto, os treinadores colocados por Reginaldo também alinhavam em várias jogadas, principalmente nos finais de campeonato. Quando não estava em causa o resultado para uma das equipas cujo treinador fazia parte da carteira de Reginaldo, era fácil pedir-se-lhe a derrota para beneficiar um outro cliente. Todos ganhavam dinheiro com isso. O sector do futebol júnior também foi transformado num grande negócio através do empréstimo de jogadores e, por isso, logo cobiçado pelos familiares de Reginaldo. Os clubes que eram beneficiados com esses empréstimos, para além de usufruírem de imediato de proteccionismo relativamente às arbitragens e de terem de pagar magros vencimentos aos atletas, tinham de passar cheques cujas verbas iam até aos 5 mil contos sempre em nome de Reginaldo Teles e nunca em nome da colectividade.
O clube que se tornou melhor cliente de Reinaldo andava já há algumas épocas a tentar a subida à 1ª Divisão e já tinham investido muitos milhares a partir do bar gerido pela Lisa. Mas depois de ver frustradas as suas acções e de ter gasto muito dinheiro, um dos seus dirigentes resolveu ter uma conversa com Reginaldo Teles e, sem preâmbulos, foi direito ao assunto: -Já andamos há algumas épocas a investir e ainda não conseguimos nada. Desta vez tem de ser. Digam lá quanto é que é necessário para subirmos de divisão. Reginaldo Teles afagou o bigode, pensou, e só depois disse num murmúrio de grande cumplicidade: -Se vocês querem mesmo subir, vamos ter de apostar forte. -E essa força quanto nos custa? -Não é esta a altura para vos dar uma resposta. Vamos estudar o problema e depois falamos. Reginaldo Teles teve então uma conversa com Galo da Costa, colocou-lhe o problema, e este não esteve com meias medidas: -Se eles querem subir, vão ter de pagar bem por isso. Naquela zona há muito dinheiro. Anda tudo bem calçado. Estabelece uma verba de 250 mil contos e divide isso em quatro ou cinco tranches. -Mas, presidente, isso não é muito dinheiro? -Não, não é, atira com essa verba e se eles não forem na fita baixa um pouco a fasquia, mas não muito. Reginaldo e George Gomes marcaram encontro com os interessados e, após uma curta discussão, ficou acordado que essa verba seria de 200 mil contos divididos em quatro tranches de 50 mil contos. O certo é que, após vários escândalos - jogos houve nos quais foram marcadas três grandes penalidades... - , esse clube acabou por subir ao grande palco do nosso futebol, e ninguém fez menção de fazer segredo de que os grandes responsáveis por essa subida foram Reginaldo e GC. Aqui o segredo nem sequer era a alma do negócio, muito pelo contrário, era necessário que toda a gente soubesse para incentivar novos clientes. Uma autêntica operação de marketing. -Reginaldo, isto é muito melhor que jogar na roleta! - atirava GC, enquanto se deliciava com mais um extracto bancário. -Sem dúvida, presidente, mas agora que falou nela, já me está a dar um formigueiro nas mãos. -Oh, não!...
Toda a gente sabia que Galo da Costa vivia do futebol e essencialmente do seu clube, mas ninguém se arriscava a comentar o facto publicamente. Não se lhe conhecia mais nenhuma actividade e muito menos tinha fortuna pessoal, mas não obstante estes factos, vivia como um milionário. Comprava apartamentos de grande luxo para familiares e denunciava sinais exteriores de riqueza. A sua vida era um mistério que ninguém ousava desvendar. Numa reunião de direcção, Galo da Costa colocou com toda a frontalidade o seu problema económico. Ele tinha consciência de que aquilo que impunha era aceite, e ninguém ousava comentar. Já passava das 22 horas, quando entrou pela sala de reuniões. À sua frente estendia-se uma mesa larga e comprida com os cantos arredondados. À sua volta estavam sentados oito dirigentes discutindo entre si vários problemas de menor importância, mas quando sentiram a porta a abrir-se, viram Reginaldo Teles com o puxador na mão a dar passagem a GC, que entrou com um sorriso nos lábios, logo seguido do irmão de Reginaldo, cuja postura física e comportamento se assemelhavam aos de um gorila. Toda a gente se levantou para cumprimentar o presidente. Reinaldo tropeçou na alcatifa e, não fora a acção rápida de Ilídio Pintas, a segurá-lo pela gola do casaco, ter-se-ia enfiado por debaixo da mesa. GC largou um sorriso, e em tom de brincadeira comentou: -Reginaldo, estão a tirar-lhe o tapete? Toda a gente riu, mas Reginaldo é que não achou piada nenhuma. Todos se sentaram, e Galo da Costa apresentou de imediato a sua proposta: -Meus senhores, aqui neste clube os vencimentos vão ser atribuídos conforme as responsabilidades. A pessoa mais responsável é sem dúvida o presidente. Concordam? Os presentes na reunião olharam-se entre si e, sem perceberem muito bem o que GC queria dizer, acabaram por concordar, muito embora se mostrassem hesitantes. Mas, ao aperceber-se da situação, Reginaldo fez da sua voz a de toda a gente: -Claro que ninguém tem dúvidas que a maior responsabilidade pertence ao presidente. Como ninguém se atreveu a contestar tal afirmação, GC, sem mais delongas, expôs a sua posição: -A partir de agora, o presidente vai ganhar sete mil contos por mês, o treinador seis mil e depois seguem-se os vencimentos dos jogadores, sem luvas e prémios, está claro. Os presentes estavam à espera de tudo, menos de uma situação como aquela, e dois«vices», sem soltarem uma única palavra, levantaram-se da mesa e saíram. GC não se preocupou com o facto, tinha-os na mão e sabia que ninguém tinha tomates para falar. Enfrentando os que ficaram, não deu hipótese a que ninguém mais recuasse: -Então, como este ponto está aprovado, passemos a outro! Ouvia-se a chuva que batia nos vidros. Reginaldo bem tentou dar vida à reunião, mas o seu vocabulário não lhe permitiu ir além de uns monossílabos completamente desenquadrados de toda aquela situação: -Bem...hum...hum...pois... A reunião, por motivos óbvios, acabou depressa. Um raid de comandos não seria mais fulminante.
O suporte económico de GC estava a consolidar-se. Sabia-se da sua ligação camuflada à agência de viagens, da sua comparticipação nos lucros e actividade da Olivedesportivos e ultimamente até tinha comprado um jornal, um elemento indispensável para dar a cobertura nacional necessária aos seus mais variados negócios. A corrupção era uma fonte de receita inesgotável e sem impostos. Mas como não assumia publicamente -nem o podia fazer - nenhum destes negócios, tinha sérias dificuldades em explicar de onde lhe vinha a fortuna. Não se preocupava muito com isso. Ele sabia que tinha várias espécies de argumentos para fazer calar quem ousasse pedir explicações. Era um homem com a resposta sempre na ponta de uma viperina língua. Tudo estava devidamente controlado e de nada adiantava aos clubes da capital lutar pelo poder dentro das estruturas do futebol. GC sabia, há muito, que a força do dinheiro combatia tudo, e as lutas regionais e clubistas superavam-se com facilidade, com sexo e com dinheiro. E nestas áreas estava tudo mais que garantido. Nos momentos decisivos de eleições federativas, era ele quem controlava todas as situações, tendo com referência a ajuda preciosa de Ariano Pinto, um estratego de alto nível e um exímio jogador de sueca. Ariano Pinto era homem para deixar o adversário sem vazas, mesmo quando este só tinha trunfos, passe o exagero. Ariano e GC escolhiam os lugares que mais garantias lhes davam para a continuidade dos seus vários negócios, mas, como não podiam escolher todos os lugares, autorizavam mesmo que alguns mais importantes caíssem nas mãos dedirigentes ligados aos seus mais directos rivais. Não seriam necessários mais de dois meses após o acto eleitoral federativo para que se tornasse claro que os dirigentes indicados pelos clubes da capital já estavam do lado de GC. Mestres na arte da corrupção, proporcionavam vidas faustosas aos dirigentes inimigos(?), e a clubite era de imediato esquecida. Era normal ver-se um presidente federativo ao lado do clube de Galo da Costa, quando este tinha de enfrentar algumas dificuldades e, sabendo-se que esse dirigente se afirmava de determinado clube da capital, nunca ninguém se espantou por ele nunca aparecer ao lado do clube das suas cores para o defender. Pelo contrário, até surgiu um presidente lisboeta que se tornou mais nortenho que um galego! Os pontos-chave estavam todos controlados, para que a manobra fosse absoluta. Exageraram, no entanto, em algumas situações. A sede do poder subiu à cabeça de Galo da Costa, e os ataques ao Governo fizeram-se sentir com grande intensidade quando verificou que no campo político não era possível ter tanta cobertura como no futebol. A Procuradoria-Geral da República colocou a Polícia Judiciária em campo, e a acção contra a corrupção no futebol desenvolveu-se de uma forma intensa. Durante vários meses, Reginaldo Teles e George Gomes foram vigiados de perto, e os seus telefones ficaram sob escuta. Passado um mês, os agentes encarregados desta função já não tinham qualquer dúvida em relação à corrupção e aos negócios de Reginaldo Teles, mas as investigações continuaram. Os agentes testemunharam vários encontros de árbitros com Reginaldo e George Gomes. Ouviram várias conversas em código, mas que entendiam perfeitamente. A rede estava bem montada e tudo indicava que, mais tarde ou mais cedo, Reginaldo e os seus pares iriam cair nas várias armadilhas que lhes estavam a ser montadas. Galo da Costa estava fora dessa investigação. Não era fácil atacar-se um homem como seu poder. A polícia tinha de atacar por baixo para chegar lá acima, mas juridicamente o grupo estava bem organizado e bem escorado. Jogavam, de uma forma invulgar, com carências que a Lei apresentava no combate à corrupção. Seria fácil para a polícia chegar à conta bancária de qualquer um deles e pedir justificações para o movimento semanal de verbas tão volumosas. Mas tal não era possível. Os agentes encarregados da investigação viviam desesperados por não poderem provar aquilo que viam com os seus próprios olhos. Por isso, atrasaram as investigações, esperando uma melhor oportunidade que nunca surgia. Eles sabiam que, no momento que pedissem contas ou justificações, bastava um deles negar-se a fazê-lo para que o processo não avançasse. Eles sabiam, também, que quem tinha que provar que o dinheiro nas suas contas bancárias era ilegal era a polícia e não os acusados. Estavam de mãos atadas.(...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

O POLVO (12ª Parte)



Continuação

”(...) Já depois dos 90 minutos regulamentares, uma das equipas, não incluídas no seu«pacote», e que jogava a norte, marcou o golo que lhe garantia a permanência. A aposta de Reginaldo Teles tinha falhado. Jogadores, treinadores e dirigentes nem queriam acreditar, e o presidente do clube que tinha dado os tais 50 mil contos para não descer evaporou-se durante mais de três semanas. Claro que depois choveram as desculpas e inventaram-se as maiores jogadas para encobrir o desastre. Reginaldo Teles, depois da tempestade, prometeu que na época seguinte esse clube subiria - e de facto, subiu, muito embora com um investimento menor. Era necessário salvaguardar a imagem para que o negócio não se perdesse, mas para tapar esses buracos houve outros investimentos que falharam. Por exemplo, numa tentativa de subida da 2ª Divisão B à Honra, fez-se também um grande investimento que, tal como o outro, não resultou precisamente na última jornada. Havia dois clubes com possibilidades de serem promovidos. Um deles estava a ser protegido por Reginaldo Teles e a sua organização, o outro vivia da habilidade de alguns dos seus dirigentes que se mexiam bem no seio da arbitragem e conheciam por dentro o negócio. Na última jornada, o clube que estava protegido por Reginaldo ia jogar a casa de um adversário cujo resultado já não contava para nada. O árbitro desse jogo tinha a promessa de que iria ser internacional, e Reginaldo garantiu que este estava controlado. O presidente do clube que queria subir prometeu mesmo uma prenda à mulher de Reginaldo Teles, caso o seu clube fosse promovido: -Ofereço-te um BMW novinho em folha. Eu sei que gostas deste carro, e o Reginaldo não se importa que eu te dê esse prenda. Lisa arregalou os olhos de contentamento e não mais deu descanso ao seu homem: -Vê lá o que andas a fazer. Ele tem que subir. Eu quero aquele BMW. Só que os outros não andavam a dormir. Tinham a situação controlada para o jogo que iam disputar em casa e a aposta tinha de ser feita no jogo com o outro adversário candidato à subida. Na semana que antecedeu esse jogo, já se sabia quem iria ser o árbitro do encontro. Era do Alentejo, terra onde abundam sobreiros e cortiça, e tal como o tal clube era de uma terra onde se fabrica muita rolha; através de um emissário foi dada uma palavrinha ao tal árbitro, mas a proposta no valor de 10 mil contos, foi prontamente recusada. Este foi o sinal de que o árbitro já estava feito com Reginaldo Teles, porque em relação à sua honestidade não havia rolhas que tapassem o fedor que ali se guardava... Só havia uma solução para combater a estratégia de Reginaldo Teles. Os homens da cortiça contactaram o clube a quem o resultado pouco interessava e, como os seus jogadores tinham os vencimentos em atraso, ofereceram-lhes 20 mil contos para ganharem. Era muito dinheiro, e ninguém resistiu à proposta. No dia do jogo, os homens da cortiça lá estavam com a verba combinada: 10 mil contos em dinheiro, trocado no dia anterior no casino por cheques e outros 10 mil em papel com garantia de altos dirigentes federativos da zona centro do País. Ávidos pelo dinheiro que lhes estava a ser oferecido, os jogadores nem pensaram duas vezes, e as habilidades do árbitro não foram suficientes para combater toda aquela (falta de) ambição... Reginaldo Teles tinha perdido mais uma aposta. Tinha falhado mais uma promoção. Fez, no entanto, os seus negócios e ganhou dinheiro com isso. Só mesmo a Lisa é que ficou sem o seu BMW. -Puta que te pariu, Reginaldo! Como se não bastasse o facto de não me foderes, ainda me fazes andar de Opel! - gritou Lisa, depois de mais uma «nega» do marido, numa noite, ainda para mais, de lua plena... -Desculpa, filha, acho que bebi de mais! -adiantou Reginaldo, antes de rolar os olhos rumo a um sono sem sonhos, os seus preferidos.

Apesar de falhas bem visíveis na organização, Reginaldo Teles continuava a usufruirde uma excelente reputação no negócio das arbitragens. A máquina estava bem montada, e os perdedores eram levados a acreditar que era praticamente impossível controlar todas as situações de forma a garantirem a vitória. Reginaldo defendia-se afirmando que, se o processo não fosse falível, acertava todas as semanas no totobola. As pessoas conheciam os pormenores da organização e sabiam que o risco de erro era mínimo, mas existia...Reginaldo Teles controlava várias áreas adjacentes ao mundo do futebol e sempre era melhor estar de bem com ele do que tentar lutar contra a sua estrutura. O negócio de corrupção já há muito tinha ultrapassado a arbitragem, encontrando-se instalado noutros sectores. Por vezes, controlar o árbitro não chegava e também era verdade que, nem todos os árbitros se deixavam enredar na teia bem urdida por Reginaldo e George Gomes e, por isso, tornava-se necessário alargar o campo de acção a outros sectores e a alguns jogadores que, na ânsia de arranjar melhores contratos, alinhavam em favores extra. Valia tudo para se servir o melhor possível o cliente. Reginaldo e George Gomes tornaram-se especialistas na tramóia. Tinham toda a cobertura possível do clube que representavam. Aos poucos, os dirigentes dos outrosclubes ficavam dependentes da sua acção e dos seus serviços. No início de cada época, era elaborada uma lista de jogadores a emprestar pelo clube de Reginaldo, e os primeiros a ter acesso a essa lista eram aqueles que se comprometiam a ser os melhores clientes, depositando milhares de contos nos cofres da organização. Destes dividendos, o clube não via nem um tostão, e por isso é que alguns dirigentes com maior estatura moral, ao aperceberem-se que alguns parasitas viviam à conta do seu clube, abandonavam as suas posições, não deixando de comentar: -Isto é impossível. Um clube com tanta dignidade vive rodeado de chulos. É quem mais se orienta. -É preciso ser-se maluco para depender exclusivamente de um pé-descalço e de um mentecapto. -O melhor é sair do barco, senão ainda vamos ao fundo com ele e se isso acontecer já ninguém nos arrancará do lodo... Até o Ilídio, que já tinha investido milhares de contos no clube do seu coração, deixou de acreditar que, algum dia, poderia vir a ser «vice» do futebol profissional e deixou de contribuir quando era chamado a apagar alguns fogos de ordem económica. E gabava-se disso, sem tentar esconder a sua posição: -Deixei de ser burro. Era o que faltava, andar aqui a ganhar honestamente o meu dinheiro para sustentar estes chulos. Se falta dinheiro, que o ponha lá quem o ganha à custa do clube. Se derem 10 por cento do que ganham à nossa custa, já podem acudir a alguns fogos. Sempre é melhor deixarem o dinheiro no clube que os sustenta que deixá-lo no casino. Ilídio sabia que tinha peso entre os adeptos, pelo menos desde o dia em que resolveu pedir a sua demissão de dirigente e, ao contrário de que aconteceu a outros, Galo da Costa se apressara a fazer com que ele regressasse. Gostava de ser campeão todos os anos, mas não apoiava os processos utilizados por Reginaldo e muito menos, ao contrário de outros, deixava que a sua mulher se misturasse com a Lisa nas viagens ao estrangeiro.
Reginaldo Teles ganhava apoiantes entre aqueles que comiam algumas migalhas do seu bolo. Como era conveniente, controlava alguns delegados técnicos, montando um sistema de protecção aos árbitros que com ele colaboravam. Servia-se do seu clube para se insinuar perante os membros do Conselho de Arbitragem, deixando no ar promessas que raramente eram cumpridas. A chantagem era o trunfo mais utilizado na intimidação das pessoas que se deixavam levar por alguns processos menos claros e que, depois de entenderem que pouco ganhavam com isso, manifestavam a intenção de sair da organização. Esses processos, na maior parte das vezes, eram utilizados contra jogadores que se deixavam corromper e que, depois de se sentirem enganados com falsas promessas, se recusavam a aceitar um segundo negócio. Também havia aqueles que, não querendo alinhar no sistema de corrupção, quando contactados, se recusavam a tal. Esses eram constantemente ameaçados e só com muita dificuldade arranjavam novos clubes depois de terminarem os seus contratos. Era a política do medo que se exercia sobre jogadores e dirigentes. Quem contrariasse Reginaldo, sentia que estava a contrariar GC, e o resultado era quase sempre funesto. As pessoas sentiam que lhes estavam a sonegar dinheiro, mas não tinham coragem para se impor. Sabiam por experiência que não era muito saudável alguém voltar-se contra quem manda no futebol. A arrogância com que a dupla GC-Reginaldo actuava e a ditadura que impunham provocava até situações ridículas, mas nada era feito ao acaso. Um dos exemplos disso estava num dos anúncios transmitidos semanalmente pelo Totobola. Nesse anúncio surgiam golos de várias equipas, e como o clube de GC tinha sido esquecido, o próprio presidente contactou a Santa Casa e fez saber que, se não incluíssem num desses anúncios um golo do seu clube, ele mesmo faria uma campanha anti-Totobola. A chantagem valia para tudo, mas GC era também mestre na simpatia, e quando lhe convinha atingir determinado objectivo, se fosse necessário, tornava-se até subserviente. GC e Reginaldo tinham personalidade muito idênticas que se dividiam entre o anjo e o demónio, e por isso é que se entendiam bastante bem e existia uma confiança sem limites entre ambos. GC era o mentor, e Reginaldo o executor. George Gomes queria imitá-los, mas as suas limitações não lhe permitiam longos percursos nessa área. Explodia com muita facilidade e, como não tinha a noção do ridículo, deixava cair a máscara e denunciava a sua real personalidade. Também era verdade que lhe cabia assumir os papéis de maior desgaste. A organização era superiormente constituída e soberbamente organizada. Escolhia os árbitros de personalidade mais frágil para patrocinarem os escândalos nos jogos onde era necessário vencer a qualquer preço e, depois de utilizados, quando já não possuíam qualquer tipo de credibilidade, esses mesmos árbitros eram abandonados e abatidos ao efectivo. Alguns treinadores também se deixaram possuir pela vida fácil de arranjar emprego, entregando toda a sua carreira à responsabilidade de Reginaldo Teles. Ele é que os colocava, mas sempre com o objectivo de conseguir novos clientes. Muitos deles sujeitavam-se ao desemprego durante meses a fio, para esperarem a oportunidade e a ordem dada por Reginaldo. Quando surgia um elemento endinheirado à cabeça de um clube, Reginaldo não perdia tempo. A carreira desse clube começava a sofrer oscilações, até que o presidente era aconselhado, através de um sinal subtil de boa vontade, a mudar de treinador. O acaso proporcionava encontros programados à distância com elementos ao serviço de Reginaldo: -Com esse treinador não vai a lado nenhum. Arranje outro enquanto é tempo. -Não é assim tão fácil como isso. Não há por aí treinadores aos pontapés, e também é necessário pagar-lhes - reagia o presidente, em situação de desespero. -Ó homem, fale com o Reginaldo que ele arranja-lhe um gajo com capacidade. Ele é que controla isto tudo. Estou a ser seu amigo, não ganho nada com isso!
Muitos desses presidentes não agiam de imediato, mas, como os bons resultados teimavam em não aparecer, acabavam por seguir o bom conselho daquele amigo tão providencial. Caíam que nem patinhos na teia que lhes tinha sido estendida. Depois de contactado, Reginaldo colocava a máscara do amigo, do proteccionista que age sem qualquer tipo de interesse. Um autêntico bom samaritano. -Vou arranjar-lhe um treinador de cinco estrelas. Não se preocupe que a partir de agora vai correr tudo muito melhor - garantia aos presidentes mais conhecidos, nos intervalos de algumas beijocas e outras tantas mamadas de algumas especialistas pagas a peso de ouro. Uma semana depois de o novo técnico estar ao serviço desse clube, surgia o conselho tão desejado para os presidentes mais inexperientes: -Tem de começar a aparecer no bar do Reginaldo mais vezes. Ele é um gajo porreiro. E lá é que se resolvem todas as situações. Tentando rentabilizar o investimento que já tinha feito, o «homem» era recebido como um marajá. Lisa encarregava-se de lhe colocar na mesa uma ou duas das suas melhores mulheres. Reinaldo dava ordem para que o serviço de bebidas não falhasse e, para não dar nas vistas, naquele primeiro dia a conta era arredondada para baixo e elevados os carinhos proporcionados pelas raparigas. O dirigente saía satisfeito, e até comentava com os seus colegas: -O Reginaldo é um gajo porreiro. Meteu-me duas mulas na mesa boas como milho, e no final a conta foi uma merdita. O pior acontecia nas visitas seguintes. Iludido com tamanha amizade, o dirigente tornava-se cliente assíduo e, para não parecer mal andar no putedo, sempre tinha a desculpa de que ia tratar de negócios com Reginaldo. Este, por seu lado, só tinha deesperar até que a vítima ficasse definitivamente presa. As bebedeiras sucediam-se, e alguns chegavam até a mijar-se pelas pernas abaixo para descontentamento das mulheres que os tinham de aturar, mas Reginaldo não tinha contemplações quando alguma das suas empregadas se queixavam que já não aguentavam mais micções ou vomitados daqueles pacóvios que estavam ligados ao futebol. -Coitados, nunca saíram de casa e agora bebem dois copos e cagam-se todos. Reginaldo Teles não gostava desse tipo de comentários e cortava-os pela base: -Se não queres trabalhar, fala ali com a Lisa que ela faz-te as contas e vais com a Nossa Senhora. As putas bem se lamentavam, porque com os dirigentes do futebol as suas comissões diminuíam, pelo menos nos primeiros tempos, dado que a intenção não era esmifrá-los, como faziam aos outros clientes, mas cativá-los para operações bem mais proveitosas para o... patrão. -Estás a mangar? O que ele quer é embebedar os perus... -Não tenho pena deles. Tenho mais pena de mim. Ando aqui a dar tudo o que tenho, e o que ganho com esses pavões nem dá para a cabeleireira. -Tem paciência, Vanhia. Pode ser que ainda venhas a casar com um jornalista desportivo, como eu... (...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Perdoem-me...

Caros Amigos, viscondes falidos e parasitas deficitários,

Quero apresentar-vos as minhas sinceras desculpas por não ter postado, ontem, 2ªfeira dia 23 de Julho de 2007 a 12ª parte e respectiva continuação da mirabolante história de O POLVO.
Espero fazê-lo ainda hoje.
Mais uma vez apresento-vos as minhas desculpas e agradeço a vossa compreensão.
Até logo... se Deus quiser.
Um bem haja a todos vós.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

O POLVO (11ª Parte)

Continuação

”(...) Galo da Costa tinha vindo de boas famílias, mas era criticado pelos seus parentes, devido ao relacionamento que tinha no mundo da bola. A sua inteligência não deixava dúvidas e, unindo esse factor à facilidade com que Reginaldo se movimentava no mundo do crime, formava com Teles uma dupla quase imbatível. Reginaldo Teles só possuía a cultura adquirida na tasca do seu tio, e o seu discurso só tinha êxito no bas-fond da cidade. As entrevistas que ia dando só podiam ser concedidas a jornalistas da sua confiança, para que a sua ignorância não se manifestasse com tanta evidência, mas era eficiente nas jogadas de bastidores, e era nessa qualidade que Galo da Costa o aproveitava. Não podia, porém, nem responder nem servir de escudo para os ataques vindos de outros clubes cujos dirigentes conheciam muito bem a sua actividade. Para além de não possuir a capacidade de GC, tinha muitos rabos de palha, e quando surgia em maior evidência nunca conseguia retirar muitos efeitos mediáticos. A sua grande mágoa era ainda não ter podido encontrar um negócio que lhe desse tanto dinheiro como os alternos. Muitas vezes lamentava-se com os seus amigos. -Tenho de acabar com esta merda. Até os colegas dos meus filhos na escola dizem que eu vivo das putas, que sou um chulo. Mas o dinheiro ganho com facilidade sempre superou essas mágoas e também não podia prescindir dos serviços da sua mulher, pois ela era uma «expert» no assunto e o segredo do êxito do bar de alternos. -É que isto de lidar com putas não é tarefa fácil para ninguém. Ou temos os olhos bem abertos ou somos comidos indecentemente. A minha mulher conhece o negócio como ninguém e todos os truques. Já não é comida com facilidade - consolava-se Reginaldo, nas noites de maior angústia, quando tentava ler uma obra de Eça de Queirós.
Quem não dava muita importância a essa situação era Galo da Costa. Para ele, até era bom que o seu amigo de maior confiança tivesse boas putas. Quantas mais ele tivesse, mais ele comia, e o bar sempre era um local de bom chamamento para os seus negócios menos lícitos. Galo da Costa já tinha tido dissabores com alguns desses negócios, e os da arbitragem começavam a ser muito denunciados, mas como o dinheiro desse sector era muito e fazia falta, havia que se estabelecer um novo plano de ataque. As despesas eram muitas e, depois de falidas as empresas em que ele tinha gasto tantos milhões, quase toda a gente já sabia que ele vivia somente à custa da influência que o seu clube lhe fornecia para certos negócios. De vendedor de fogões a empresário falido, GC tinha, porém, a certeza de que o mais importante estava feito: o seu clube ia na crista da onda, e o cartão de crédito que tinha no bolso não tinha tecto. Afagando-o, GC acabou por adormecer embalado por um pensamento reconfortante: «Antes um bomVisa que um bis».
Reginaldo Teles trabalhava no mundo da arbitragem com um certo à vontade. Comprava e vendia com a maior das facilidades. Sentia-se seguro e acabava por cometer erros que, acumulados, se iam tornando perigosos, não obstante usufruir de uma grande cobertura judicial, desportiva e política, situações que eram consubstanciadas através de favores concedidos em todas estas áreas, tendo como referência o poder do seu clube. A bandeira do Norte era içada defendendo um regionalismo recheado de hipocrisia. Esta era a forma de arregimentar a força do povo nortenho quando era necessário sair em defesa de interesses meramente pessoais. Pois se os títulos e os golos eram importantes para os fervorosos adeptos do seu clube, eram muito mais para eles, porque era essa força que servia de suporte aos negócios marginais. Galo da Costa tinha consciência de que no futebol eram autorizados, por parte dos adeptos, alguns jogos obscuros de bastidores. A vitória era importante e combatia-se dentro e fora dos relvados. Alguns adeptos até denunciavam um certo gosto pela habilidade nata com que alguns dos seus dirigentes se movimentavam nos bastidores, mas também se sabia que nenhum deles aprovava que se retirassem benefícios em proveito próprio e muito menos utilizando o seu clube para isso. Mas como o clube ia ganhando... Começaram a surgir algumas denúncias, e uma maior cautela era a medida a tomar com uma certa urgência. Andar a negociar árbitros a retalho era perigoso de mais. Os movimentos multiplicavam-se, e os riscos aumentavam. Alguns jornalistas não se deixaram dominar pelo medo e acabaram por sofrer emboscadas, sendo presenteadoscom alguns socos como medida de intimidação. Reginaldo Teles foi avisado e não parava de pensar como é que o negócio teria de ser conduzido para se acabarem com alguns boatos que começavam a tornar-se perigosos. Nem sequer equacionava poder vir a acabar com um comércio tão rentável. Tinha de encontrar uma solução mais eficaz e menos notada. Já se habituara a ganhar algumas centenas de contos semanalmente, e o seu vício pelo jogo no casino requeria grandes proventos. A ideia acabou por surgir através de um dirigente de outro clube que se tornara um grande cliente e que começou a entender a complexidade do negócio e a dificuldade em acudir a todos os pedidos. -Porque é que vocês não se dedicam a um ou dois clubes em vez de andarem a acudir a todos os fogos? Façam contas e vão verificar que o negócio se torna mais rentável, é mais seguro e não gera tantas confusões. Reginaldo Teles ouviu com atenção a observação, e, como dizia, a sua mioleira acendeu-se como um cockpit no momento da aterragem. Para arrefecer as ideias, pediu ao seu empregado que lhe trouxesse mais um whisky. -Mas com muito gelo. Saboreou durante largos minutos a sua bebida, elaborando mentalmente um novo plano de ataque. Olhou à sua volta e, ao verificar que uma das suas prostitutas se despedia de um cliente depois de lhe ter sacado duas garrafas de champanhe, fez-lhe um sinal e chamou-a. Ela olhou admirada e colocando o dedo indicador no meio do peito nu, bem dentro de um decote que ameaçava fazer-lhe saltar as mamas a qualquer momento, interrogou-se, encolhendo os seus lábios vermelhos e carnudos: -Eu?! Reginaldo passou a mão pelo rosto, fez rodar o copo entre os dedos para agitar o gelo e acenou com a cabeça, confirmando o chamamento. Rebolando a anca, atravessou a pista de dança e dirigiu-se a Reginaldo. -Senta aí. -Mas que luxo! Ser convidada para a mesa do patrão! -Cala-te e ouve. O George Gomes dormiu contigo esta noite? -Já sabe que sim. Ou ainda não lhe disseram que ando com ele? -Sei muito bem que andas com ele, e quero é saber onde o posso encontrar agora... neste momento. -Como ainda é cedo, deve ter passado por casa. Mas ele disse-me que vinha cá hoje. -A que horas? -Ai, isso não sei! Mas deve estar a chegar. -Se por acaso estiver ocupado na altura em que ele chegar, diz-lhe que eu quero falar com ele com urgência. -OK! É só isso? - disse a empregada antes de se retirar, ao mesmo tempo que puxava as mamas para cima e deitava o olho a um novo cliente. Reginaldo Teles dirigiu-se para o balcão onde estava a sua mulher a chamar a atenção de uma das suas empregadas. -Estás aqui para trabalhar e não para namorar. Estiveste na mesa daquele gajo e nem um copo lhe sacaste. Reginaldo Teles ia a pedir um pouco de calma à sua Lisa, quando viu George Gomes a entregar a sua gabardina ao porteiro. Fez-lhe logo sinal com a mão e, após uma breve troca de olhares, dirigiram-se para uma mesa mais recuada e sem barulho de música. Reginaldo apresentou-lhe a sua ideia para se avançar com uma nova forma de negócio. Ao fim de alguns minutos, estava tudo resolvido. Iam trabalhar com três ou quatro clubes de divisões inferiores e com um ou dois de primeira categoria, prometendo-lhes a manutenção. Desta forma, a acção não colidia com os interesses do seu clube muito pelo contrário: podia até sair beneficiada. Reginaldo estava tão entusiasmado com o negócio, que deixou George Gomes embasbacado quando lhe disse: -Isto não tem nada que saber. Vamos deixar de trabalhar jogo a jogo. Para correr tudo bem, necessitamos de tempo e organização. O clube que quiser subir contacta-nos com tempo, fazemos o preço e temos todo o campeonato para tratar do assunto. Desta forma, podemos jogar com algumas falhas e colmatá-las com outras jogadas e outros intervenientes. George Gomes ouviu com atenção, mas ficou desconfiado, pois não lhe passava pela cabeça vir a perder dinheiro. Além do mais, ficava sem campo de acção para algumas das suas jogadas em que prometia levar o dinheiro a alguns árbitros e nem sequer os contactava. Mas Reginaldo descansou-o. -O teu papel continua a ser o mesmo. Nós temos de trabalhar todas as semanas, temos de fazer os nossos contactos, só que desta forma a massa vem dos clubes antecipadamente. No início do campeonato estabelecemos um preço de subida e, como em negócios destes não há crédito, eles dão-nos o dinheirinho adiantado e nós é que gerimos a situação. -E já tens algum cliente? Estamos a mais de meio do campeonato, e até ele acabar não vamos ganhar mais nenhum? - perguntou George Gomes, preocupado e ainda confundido com esta nova situação. Mas Reginaldo não perdeu tempo, expondo-lhe novos pormenores do negócio: -Estamos em Março, e é a partir de agora que começam as grandes confusões. Estive a falar com o presidente de um clube que está à rasca. Não quer descer e, como dinheiro é coisa que não lhe falta, vamos arrancar com esse negócio. Amanhã vais falar com ele, apalpas a situação e, se o vires interessado, combina com ele um encontro aqui no bar, que depois eu faço o resto. Trata disso sem falta amanhã, que eu agora vou até ao casino aumentar a minha fortuna. -Já vais foder o dinheiro todo nessa merda. Assim, não há negócio que resista -lamentou-se o George. Na tarde seguinte, George Gomes fez o seu contacto; falou com o presidente do tal clube que não queria descer e, vendo que este se mostrou interessado no negócio, marcou encontro para essa noite.
Reginaldo Teles escolheu duas das suas melhores mulheres, avisou Lisa de que naquela noite iria aparecer um bom cliente e deu instruções para que nada faltasse, porque estava em perspectiva um bom negócio. Quando ia a sair, disse a Lisa para ela falar com as duas empregadas, avisando-as de que, se fosse necessário, elas sairíam com esse cliente. -É que ele gosta de ter mais que uma mulher na cama, e é bom que ele saia daqui satisfeito. Nessa noite, Reginaldo Teles chegou atrasado ao bar, mas fê-lo de propósito, para queas suas duas empregadas tivessem tempo de levar o cliente ao ponto que ele queria. Quando fez a sua entrada, a situação já estava a ser controlada por George Gomes. -Ele está no ponto de rebuçado. -É assim mesmo que eu o quero. Após estas palavras, Reginaldo dirigiu-se para a mesa do seu convidado e disse, com um ar de não total inocência: -O presidente está bem acompanhado! Ambos trocaram um sorriso e compreenderam que tinha chegado a altura de ficarem sozinhos para tratar de negócios. As duas mulheres, após um ligeiro sinal, levantaram-se da mesa sob o argumento de que tinham de ir à casa de banho recompor a maquilhagem, mas prometendo voltar logo que se acendesse a luz verde... Reginaldo Teles começou a falar da situação aflitiva em que estava o clube do seu interlocutor, passando de imediato àquilo que mais interessava e que tinha proporcionado aquele encontro. -Estive ontem a pensar na vossa situação e cheguei à conclusão de que, se não houver um trabalho a sério, vocês vão direitinhos. -Nós também temos consciência disso. -Ainda ontem um presidente veio ter aqui comigo para ver se eu o ajudava a sair de uma situação como a vossa, mas eu não lhe disse nada até falar consigo. Se vocês quiserem, prefiro ajudar o vosso clube. Sempre é da nossa associação (Porto). -Claro que queremos, mas também não temos muito dinheiro para gastar. -Estive a fazer contas e penso que, com 50 mil contos, podemos controlar a situação até ao final do campeonato. Mas, atenção, que este dinheiro também é para ser investido no campo do adversário. -Com 50 mil contos, vocês garantem-nos a manutenção? -Quase a 100 por cento. -Quase? -Sim, quase, porque a bola, que eu saiba, continua a ser redonda... -E como é que vamos pagar esse dinheiro? -Em três tranches. Dez mil agora e mais duas de vinte mil quando virmos que é necessário o investimento. -Está combinado. O George Gomes pode passar lá amanhã pelo meu escritório e já traz o cheque dos 10 mil. Estava em curso uma nova forma de negociar, e pelos vistos mais segura, para além das vantagens que isso trazia. Com aqueles 50 mil contos podia fazer-se muita coisa, uma das quais era tentar atrasar os mais directos adversários do clube de Reginaldo Teles. Quando estes fossem jogar com o clube que tinha pago os 50 mil contos, investia-se nessa situação. Com um tiro matava dois coelhos: o seu clube adiantava-se em termos de pontos, e o seu cliente ficava bem servido. Só que o egoísmo levou-os a cometer novos erros. O dinheiro era fácil e gastava-se ainda mais facilmente. Reginaldo pedia cada vez mais e investia cada vez menos. Estava ciente do poder que tinha e jogava com algumas promessas de árbitros em termos de classificação no ranking final, pagando cada vez menos em dinheiro e fazendo prevalecer outras situações de favor. Alguns árbitros contentavam-se com isso, mas outros arriscavam e, sabendo que eles estavam a ganhar dinheiro com os seus favores, exigiam a quota parte deles. Surgiram então algumas ameaças de despromoção, e não faltaram desentendimentos, assim como processos de pura chantagem, ao melhor estilo de um filme que George Gomes um dia alugou no clube de vídeo da esquina, «O Padrinho». Mas como o tempo não parava e a bola se revela teimosamente redonda, as coisas complicaram-se, até que se chegou ao final do campeonato, e o clube que tinha investido 50 mil contos para não descer jogava a sua última cartada em 90 minutos de futebol. Reginaldo Teles multiplicou-se em acções, jogando em vários campos, mas era tarde de mais para controlar todas as situações. Havia que investir em vários jogos, e o dinheiro tinha sido gasto no casino e noutros negócios. Mesmo assim, ainda tentou outras soluções, mas os adversários mais directos não andavam a dormir e também tomaram as suas precauções (...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
Nota 2: Tal como aconteceu na semana passada e para não cansar os nossos leitores, a publicação de O POLVO só voltará a ser postada na próxima segunda-feira. Até lá, convido todos os que leram desde a 7ª à 11ª -e porque não também da 1ª à 6ª - parte a postarem um comentário sobre o que acham desta mirabolante história.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

O POLVO (10ª Parte)



Continuação





"(...) -Está bem, está bem. Vais ver o que te vai acontecer! E aconteceu mesmo: esse árbitro, que tinha subido ao primeiro escalão no ano anterior, acabou por ser novamente despromovido. Reginaldo não perdeu a oportunidade para lançar o aviso sobre os outros: -Estão a ver o que acontece a quem nos tenta foder e não quer colaborar connosco? Abram os olhos, comigo é que ganham dinheiro!
GC já tinha vários apoios associativos e alguns conselheiros na mão, e caso o presidente do CA não se deixasse influenciar, este já sabia que tinha os dias contados. Poucos foram os que conseguiram gerir com independência o sector. GC estava consciente da força que tinha e das alianças que possuía. Arrastava atrás de si uma grande força popular, argumentando com bandeiras políticas regionais; mas os que o seguiam de perto iam-se afastando, logo que verificavam que aquela bandeira servia apenas para encobrir os seus negócios e não perder o poder popular tão útil em situações menos favoráveis. GC era capaz de tudo para ganhar. Para ele, não existiam barreiras nem personalidades. Habituou-se a esmagar quem se lhe atravessasse no caminho. Duas semanas antes de um jogo entre gigantes (Porto-Benfica) e onde se iria discutir o título, teve um encontro com o presidente do Conselho de Arbitragem, naquela altura um homem isento e honesto, mas com a consciência de que tinha de ter uma certa flexibilidade em algumas situações. A nomeação do árbitro para esse jogo era extremamente importante, e o assunto foi discutido entre os dois: -Que árbitro é que lhe agradava para fazer o seu jogo? GC não respondeu. Pensou um pouco, pegou num papel e escreveu o nome de um árbitro de Setúbal (Carlos Valentão), entregando o papel ao presidente do CA. Este analisou-o e concordou com a situação, até porque o árbitro tinha qualidade e não era daqueles que normalmente negociavam nos bastidores. O clube rival acabou por saber quem era o árbitro e também quem o tinha escolhido. O responsável pelo futebol desse clube, homem muito traquejado e capaz de fazer frente a GC, colocou um plano em marcha. Desconfiado de que GC já tinha o árbitro controlado, contactou com um dos seus fiscais de linha e negociou com ele o resultadodo encontro. Tudo se passou nos arredores da capital no campo de um clube de escalão inferior, onde esse fiscal de linha treinava habitualmente com outros árbitros. Só que, no dia em que o responsável do clube da capital se foi encontrar com o tal fiscal de linha, o encontro foi presenciado por alguém que também tratava da sua forma física. Este, desconfiado, no dia seguinte ligou para Galo da Costa. -Queria falar com o Senhor Galo da Costa. -Da parte de quem? - responderam do lado de lá da linha. -Diga-lhe por favor que fala Maciel Feijoada. Bzzz, click... -Olá, está bom? Então o que é que manda? - perguntou GC do lado de lá do fio. -GC, ontem vi o Gaspar Raminhos a falar com um dos fiscais de linha do árbitro que vos vai apitar no domingo. Ponha-se a pau. -Ah, sim! Esse gajo está fodido comigo! Vou já tratar do assunto. Depois de desligar o telefone, GC, lívido de raiva, ordenou que lhe fizessem uma chamada para o presidente do CA. Logo que este lhe surgiu do lado de lá do fio, entrou a matar: -Tem de me mudar o árbitro do nosso jogo! -Então não foi você que o escolheu? -Pois escolhi, mas soube agora que o Gaspar Raminhos já contactou com um dos seus fiscais de linha. -Isso pode não querer dizer nada, e a faltarem três dias para o jogo não vou substituir o árbitro. Isso seria um escândalo. -Mas tem de ser, senão eu vou fazer um barulho dos diabos. -Faça aquilo que quiser, desde que seja você a assumir essa responsabilidade. Pode até dizer aos jornais que sabe desse encontro. A responsabilidade é sua. Sentindo a inflexibilidade do presidente do CA, ligou de imediato a Ariano Pinto, o homem que o socorria nos momentos de maior aflição, mas nem este conseguiu demover o presidente do CA da sua atitude. Galo da Costa colocou então em movimento uma outra estratégia e, através dos meios de comunicação social, criticou aquela nomeação, levando, como era seu hábito, o assunto ao rubro. O certo é que no dia do jogo confirmaram-se as suspeitas, e o tal juiz de linha que fora visto a ser contactado pelo dirigente do clube adversário não se portou nada bem, prejudicando o clube de GC. Para agravar, um habitual suplente (Cessar Brito) da equipa adversária até bisou, dando a vitória e o título à sua equipa. Pela primeira vez, o assalariado de GC que treinava a equipa (Artosco Jorge) deixou o verniz estalar, chorando baba e ranho na cara do dito juíz de linha. À saída, os árbitros setubalenses levaram uma grande sova, e o chefe de equipa, coitado, sem saber de nada, até levou porrada da mulher de Reginaldo Teles. -Mas, meus amigos, eu não tenho nada a ver com isto, como vocês sabem -desabafava o apitador, enquanto colocava pomada na zona atingida. O que é que eu fiz para merecer isto? Como é que vou explicar à minha mulher estas arranhadelas nas costas? - E, mesmo sendo um homem valente, começou a choramingar... Galo da Costa teve durante toda essa semana de provar o sabor amargo de que, afinal não conseguia controlar todas as situações. Sentiu que tinha de refinar os seus métodos e mandou chamar Reginaldo Teles para discutirem os dois o problema. Reginaldo Teles entrou envergonhado no gabinete do presidente. Não sabia o que dizer. Ele que julgava que tinha o mundo da arbitragem na mão, que tinha inclusive aconselhado o seu presidente a escolher aquele árbitro, e que acabou por ser traído. Galo da Costa quando viu o seu «vice» entrar no seu gabinete, de cabeça baixa, disse num tom apaziguador: -Não vale a pena estarmos agora a bater mais no ceguinho. Temos é de tomar medidas para que uma coisa destas não volte a acontecer. -Ó presidente, sabe que não controlamos os árbitros todos. -Sei muito bem disso, mas a partir de agora, para estes jogos mais importantes, temos de fazer com que sejam nomeados árbitros da nossa inteira confiança e que alinhem no escândalo, se for necessário. O mais importante é ganharmos. Reginaldo ficou mais animado com as palavras do presidente e lançou um alerta: -Isto até é mau para o nosso negócio. Os outros árbitros começam a perder-nos o respeito, e nós acabamos por perder não só o controlo da situação com também aquele dinheirinho que entra todas as semanas. -O povo é de memória curta, e com mais umas vitórias esquece o que aconteceu no domingo. Galo da Costa e Reginaldo Teles gastavam dinheiro à grande e à francesa. A paixão de GC pela Mariana era cada vez mais forte, e isso trouxe-lhe custos exagerados, porque ela sempre se revelou uma mulher de gostos caros e tinha de garantir o futuro da filha de ambos, amealhando alguns cobres. E Reginaldo estava cada vez mais viciado no jogo. Em cada cidade que parava não resistia a uma visita ao casino local. O vício pelo jogo era tremendo. Até parecia castigo de Deus. Tinha entrado nos casinos para lavar dinheiro para os seus negócios pouco claros e acabou por ficar agarrado à roleta. Reginaldo sonhava com Las Vegas, e não havia quem o convencesse que não muito longe ficam os precipícios do Grand Canyon... -Mas no meu caso não vai ser assim. O dinheirinho que entra todas as semanas há-de dar para estas coisas e muito mais.
O futebol é um grande negócio e, agora, que temos a arbitragem na mão, não nos faltará dinheiro - dizia Reginaldo a George Gomes, na tentativa de o convencer a não o aborrecer mais com aquelas conversas de que ele andava a arriscar dinheiro de mais no jogo. - Quem não arrisca, não petisca! - gostava de repetir Reginaldo, especialmente quando desperdiçava umas milenas no preto para ver sair o vermelho, ainda para mais o vermelho... -Olha, essa merda do jogo ainda há-de ser a tua desgraça. Faz mas é como eu. Vou investindo nuns apartamentos. Pelo menos fico com o futuro garantido - dizia-lhe George Gomes. -Não te preocupes com isso. O negócio vai melhorar. O presidente tem aí um projecto em vista que vai mudar isto tudo - respondia Reginaldo. Tornava-se muito arriscado tentar servir vários clubes ao mesmo tempo. As pessoas já falavam muito nessas histórias e qualquer dia rebentava um escândalo medonho. GC reuniu-se com Reginaldo, e ambos discutiram a nova forma de ganhar dinheiro com a arbitragem, mas com a situação completamente controlada ou, pelo menos, mais controlada. O futebol continuava a ser a guarida dos homens endinheirados à procura de promoção social. Ter muito dinheiro não bastava. Eles gostavam de ser conhecidos, e nada melhor que o futebol para promover socialmente os novos ricos. Reginaldo Teles sabia melhor que ninguém quais eram os empresários que manifestavam grande disponibilidade financeira. A maior parte deles eram seus clientes e deixavam no seu bar muitas centenas de contos através das suas raparigas contratadas. Era só arranjar uma forma de lhe aliviar um pouco mais a bolsa, e o futebol era o melhor meio para isso. O desporto-rei servia de capa para o mais variado tipo de situações. Era só saber aproveitá-lo. Servia para lavar dinheiro e principalmente para fazer esquecer certos preconceitos sociais. O exemplo de Reginaldo era o que mais evidenciava essa situação. Chegou ao Porto para servir na tasca do tio, foi um dos mais conhecidos chulos da cidade, continuava a viver à custa da exploração de carne branca, e as famílias mais conceituadas esqueciam-se disso tudo para o apoiar até à vice-presidência de um dos clubes mais prestigiados da Europa. A sua mulher, que palmilhou noites seguidas na Rua de Santos Pousada, era agora uma senhora bem colocada e apaparicada por todos aqueles que rodeavam o clube, não obstante continuar a ser a dona de um bordel. O futebol é um fenómeno social, e era necessário saber retirar o devido proveito desse facto (...)”.

Continua...


Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O POLVO (9ª Parte)



Continuação

“(...) Galo da Costa tinha uma visão extraordinária em relação ao futuro e começou a urdir a sua organização. Reginaldo Teles e George Gomes continuavam a dar todo o apoio nos negócios com os árbitros, apostando na ajuda a clubes de escalões inferiores. Com esta acção, iam ganhando algumas centenas de contos semanalmente e tinham cada vez mais os árbitros na mão, não sendo necessário, por isso, gastar nem um tostão quando esses árbitros viessem apitar o seu clube. Entrava-se num ciclo vicioso. Os árbitros ficavam de tal forma hipotecados a Reginaldo Teles que, quando fossem nomeados para os jogos com o seu clube, não tinham força moral para o trair e nem sequer era necessário comprá-los. Mas nem tudo corria da melhor forma, e Reginaldo teve consciência de que não dominava o sector conforme julgava, quando, por diversas vezes, saiu derrotado em acções por ele desenvolvidas. Em 1992, na última jornada do campeonato da 2ª Divisão, Reginaldo Teles foi contactado no seu bar por um clube que tinha hipóteses de subir de escalão e que ia jogar com outro que se não ganhasse seria despromovido. O negócio ficou acertado, comprometendo-se Reginaldo a entregar ao árbitro três mil contos, garantindo outro tanto para si. O árbitro era da capital e, depois de contactado num dos grandes hotéis da cidade por George Gomes e Reginaldo, comprometeu-se a fazer o frete e a ir receber a verba combinada no Domingo à noite ao restaurante do primo de Reginaldo. O clube protegido por Reginaldo era o visitante, e ao intervalo já estava a ganhar por 3-0 com uma arbitragem verdadeiramente escandalosa. A ameaça de invasão de campo estava iminente, mas nem isso assustou o árbitro da partida. Mas, perante tal situação, o presidente do clube visitado, sabendo que o negócio tinha sido feito por Reginaldo e conhecendo o montante da verba combinada, no interregno da partida entrou na cabina do árbitro e, com o descaramento que provinha do desespero, fez directamente a sua proposta ao árbitro e fiscais de linha. -Sabemos que Reginaldo Teles vos ofereceu três mil contos e vocês podem sair daqui mortos. Retirando uma pequena pasta de debaixo do braço, puxou de um grande maço de notas, colocou-o em cima da mesa que estava na cabina do árbitro e apostou forte quando disse: -Estão aqui cinco mil contos e queremos ganhar. A vossa protecção está garantida. Saiu da cabina do árbitro e esperou pacientemente pelos últimos 45 minutos. O inevitável acabou por acontecer: o árbitro deu de tal forma a volta à situação, que o jogo terminou com um resultado de 4-3. Reginaldo Teles tinha sido derrotado na sua estratégia e prometeu vingança ao árbitro. O certo é que esse árbitro abandonou o ofício mesmo antes de atingir o limite de idade. Reginaldo Teles sabia que tinha de ser duro na sua acção para não perder o controlo da situação, e Galo da Costa avisou-o muitas vezes. -É necessário ser duro e inflexível. Ambos se recordavam bem de um caso passado uns anos antes com um árbitro algarvio que foi apanhado com a «boca na botija». Desde que tinha sido promovido ao primeiro escalão, Francesco Silva revelou uma grande ambição pelo dinheiro, aceitando negociar sempre que possível com Reginaldo Teles. Mas depressa verificou que era ele quem dava a cara e sofria a consequência dos escândalos a que ficava obrigado. Reginaldo ganhava tanto como ele e, por vezes, até mais. Este árbitro tinha falado várias vezes com os presidentes dos clubes que favorecia, e eles acabavam por confessar quanto tinham dado a Reginaldo ou a George Gomes. Achou que aquilo era uma exploração e resolveu actuar por conta própria. Galo da Costa teve conhecimento da situação e avisou Reginaldo Teles do perigo que aquela atitude constituía. -Vamos tratar da saúde desse gajo, para que não haja mais fugas. Quando souberes de um contacto directo, avisa-me que eu trato do resto. Reginaldo Teles assentou com a cabeça em sinal de concordância e saiu do gabinete do presidente a pensar na forma como deveria actuar. George Gomes estava à espera dele e, depois de discutirem o assunto, não teve contemplações. -Vamos fodê-lo. Mandamos dar-lhe uma tareia, para ver se ele aprende. Reginaldo não respondeu logo, e passados alguns segundos acabou por dizer: -Dar-lhe uma tareia não é solução. O presidente garantiu que tinha outra estratégia. Só temos de estar atentos e avisá-lo quando soubermos de algum negócio directo. A oportunidade não tardou a chegar. Francesco Silva pedia que nem um cego, e ainformação tão desejada acabou por chegar. O presidente do Conselho de Arbitragem (Lourencas Pinto) era da total confiança de Galo da Costa e deu-lhe a informação tão esperada. -Temos o homem na mão. Ele telefonou ao Roche (Manuel Roche, presidente do Penafiel) e pediu-lhe dois mil contos pelo jogo de domingo. Vamos fazer-lhe uma emboscada. O Roche leva um gravador quando lhe for entregar o dinheiro, e depois entramos nós em acção. -Sigam com a operação, mas lembrem-se que temos de ficar sempre de fora. Quando se viu desmascarado, o Francesco Silva chorou, pediu perdão, mas não adiantou nada. Tinha sido feito. Houve ainda algumas hesitações não sabendo bem se devia levar o assunto para a frente ou apenas pregar um tremendo susto ao Francesco Silva, mas o escândalo rebentou e não foi possível segurar a situação. GC e Reginaldo mais uma vez saíam ilibados do problema gerado, assumindo o papel de anjinhos, mas a força que detinham foi bem evidenciada. Para os outros árbitros, o aviso surgia sempre na forma de um «lembrem-se do que aconteceu ao Silva, que fugiu à nossa protecção, quis fazer os seus negócios sozinho e acabou por se espalhar; mais vale ganhar menos mas estar devidamente protegido».O sistema voltava a estar sob controlo, e a submissão da maior parte dos árbitros a Reginaldo era cada vez mais forte. Ele sabia que não podia perder aquele negócio. A árvore continuou a dar os seus frutos, mesmo fora de época. O restaurante do seu primo transformou-se num autêntico estabelecimento cambial, tal era o volume de negócios que ali se desenvolvia. Os cheques voavam de mesa para mesa, desaparecendo debaixo dos pratos de feijoada.
Josué Silvano, um árbitro com algumas dificuldades na vida, devido aos maus negócios que tinha efectuado na sua empresa, necessitou, entretanto, de comprar uma carrinha e falou com Reginaldo para lhe emprestar três mil contos de modo a efectuar o negócio. Reginaldo levou-o ao presidente, e este não hesitou em passar-lhe o respectivo cheque para a compra da carrinha, mas exigiu ao árbitro que este lhe passasse um outro cheque da mesma importância, mas com um prazo mais alongado. Ambos concordaram, e o árbitro levou os três mil contos. Quando Reginaldo regressou ao gabinete do presidente, perguntou, um tanto espantado: -Não é um risco muito grande emprestar dinheiro a este gajo? -Claro que é sempre um risco, mas não vamos ficar sem esse dinheiro. Isso foi apenas um investimento. Nós vamos precisar dele. Passadas poucas semanas, o clube de Galo da Costa lutava pelo título com o seu principal rival (perigosamente próximo, nessa temporada), e havia uma deslocação difícil mais a norte do País. GC chamou Reginaldo e explicou-lhe a situação: -No domingo, vamos jogar o título. Temos de ganhar de qualquer maneira, e as coisas não estão nada fáceis. Chegou a altura de pedir contas ao teu amigo árbitro. Reginaldo entendeu logo o que o seu presidente queria; pegou no telefone e discou o número do árbitro. Do lado de lá atendeu uma voz grossa e bem timbrada que Reginaldo identificou de imediato: -Olá, estás bom? -Quem fala? -É o Reginaldo. O presidente mandou-me falar-te, porque precisa daquele dinheiro que te emprestou. -Mas agora não tenho essa verba... -Mas tu prometeste!!! -Claro que prometi, mas as coisas correram mal. -Sabes que o presidente tem um cheque? -Sei. E o que é que ele vai fazer? -Nada, se tu te portares bem. -Olha que porra! Até parece que ando a portar-me mal! -Não é isso. Vais ser nomeado para fazer o nosso jogo de domingo e nós temos de ganhar de qualquer maneira. Não interessa como, temos é de ganhar. -Já sabes que comigo não há problema. Diz ao presidente que pode contar comigo. Mas vê lá se me toca alguma coisa. -Deixa isso comigo. Faz a tua parte, que nós depois cá nos entendemos. No dia desse jogo, Josué Silvano passou pela maior vergonha para dar a vitória ao clube de GC, inventando uma grande penalidade que nunca existiu, com a agravante de tudo isto se passar em casa do adversário, situação que lhe originou uma penosa fuga pelas traseiras. Mas ele já estava muito batido nestas «saídas à comandante», assim baptizadas porque normalmente aconteciam no «jeep» do comandante da GNR. Os jornais, a rádio e a televisão comentaram o escândalo, mas o título foi assegurado. Dias depois, o árbitro transmontano, que de bruto só tinha o aspecto físico, foi em busca do cheque dos três mil contos que tinha passado a Galo da Costa, mas este nem sequer o recebeu, mandando recado por Reginaldo: -O presidente disse que aquele dinheiro nada tinha a ver com o empréstimo que te fez. São negócios diferentes. Nós fizemos-te um favor e tu retribuíste com outro. -Mas já viste o que passei no domingo para não ganhar nada com isso? -Tem calma que vais recuperar esse dinheiro. Eu disse-te que não havia problemas, não disse? E vais ver que não há. -Como é que então vais resolver essa situação? -É fácil. Vou arranjar-te uns joguinhos e clientes para te pagarem o frete. Nós ficamos com o dinheiro e abatemos à dívida. -Isso não é justo - disse o árbitro, ao mesmo tempo que dava um murro na mesa. -Não te enerves, porque a situação não é tão injusta como tu julgas. Já sabes que connosco podes ganhar muito dinheiro e vais até superar com toda a certeza essa merda dos três mil contos. Deixa isso connosco, que nós arranjamos-te jogos para cobrir isso e muito mais. De facto não faltaram jogos a Josué Silvano. Reginaldo não se cansava de lhe arranjar nomeações e pedir os respectivos fretes, mas a devolução do cheque é que nunca foi efectuada, tendo sido utilizado várias vezes para exercer sobre o árbitro os mais variados tipo de chantagem. Os escândalos foram-se avolumando, e o árbitro ficou de tal modo hipotecado à situação que mais tarde teve de fugir para o estrangeiro para evitar a prisão. Algures no Golfo Pérsico, onde tentava montar um negócio de camelos, o pobre árbitro dizia mal da sua vida: -Grandes cabrões, servem-se de uma pessoa e quando ela já não é necessária lançam-na pela borda fora. Mas eles não vão perder pela demora!
Josué Silvano era apenas um exemplo de como alguns árbitros estavam agarrados a Reginaldo Teles e eram obrigados a executar todos os seus planos, muito embora, no meio de toda esta estratégia, surgissem algumas falhas no sistema. O certo é que os árbitros que mais dinheiro ganhavam com os negócios de Reginaldo Teles eram aqueles que apareciam mais vezes a apitar os jogos do seu clube, sendo-lhes exigidos favores à troca de nada. Quanto mais egoísta era o árbitro e mais gastador se mostrava, mais hipotecado ficava. Quando queriam montar negócios ou necessitavam de dinheiro para cobrir algumas despesas da sua vida particular, telefonavam a Reginaldo Teles, e este, salvo raras excepções, nunca se fazia rogado na execução dos empréstimos, mantendo sempre em sua posse alguns documentos comprovativos. Reginaldo Teles sabia bem avaliar a potencialidade dos empréstimos e quanto essa verba lhe iria render. Presos pelas dívidas, os árbitros em causa tinham de se submeter às ordens emanadas por Reginaldo ou George Gomes, uma figura que, aos poucos, se foi transformando no braço direito do seu dilecto amigo. Os empréstimos eram abatidos mediante os jogos efectuados, mas a verba descontada na dívida era sempre muito inferior à que Reginaldo cobrava aos respectivos dirigentes que com ele contactavam. Alguns árbitros estavam fartos de ser explorados e começaram a surgir algumas fugas. Contactados pelos clubes adversários dos protegidos de Reginaldo, traíam os objectivos e colocavam-se do lado contrário, para dessa forma levarem algum dinheiro. A organização era rígida e não perdoava tais veleidades. Reginaldo estava fora de si e, descontrolado, até insultava os árbitros em público. -És um ingrato, mas vou tratar-te da saúde. Este ano já te dei a ganhar mais de 10 mil contos e tu traíste-me. ‘Tás fodido comigo.’ O árbitro, tentando arranjar desculpa para disfarçar o negócio que tinha feito, ainda ripostou: -Não podia fazer mais do que aquilo que fiz, senão era um escândalo. -Era um escândalo, o caralho!!! Não viste, há três jornadas atrás, o que fez o Chico? Foi preciso marcar três grandes penalidades para ganharem, e ele marcou-os. Aconteceu-lhe alguma coisa? Claro que não. Ele está sob a nossa protecção. -Ó Reginaldo, desculpa lá, não me fales dessa merda de desonestidades nem de ingratidões! Para eu ter ganho mais de 10 mil contos, tu ganhaste o dobro ou mais. Eu também estou fodido contigo, porque no jogo que fiz anteriormente ajudei o clube que me pediste e não vi nem um tostão. Não me venhas, por isso, com a conversa de que te pregaram o mico. Eu soube que eles te deram o dinheiro, e eu não ando aqui a fazer fretes de graça, ou para ganhares só tu (...)”.

Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.