
Continuação (Agora é que vai começar a “tourada”)
“(...) - «Reginaldo, hoje tens de ir a Setúbal entregar uma prenda para o filho do árbitro Carlos Fordes, que faz anos» - pediu, certo dia, GC.
Reginaldo Teles, sempre pronto para estas acções, lá rumou até Setúbal com um fio deouro e uma medalha gravada com o nome do filho do árbitro. Mas, quando lá chegou, não encontrou ninguém em casa. Uma vizinha, que estava na varanda a estender roupa, disse-lhe que tinham ido todos a casa da sogra festejar os anos do miúdo. Reginaldo não perdeu tempo: -Sabe dizer-me onde mora a sogra? -Mora em Lisboa – respondeu a vizinha, dando de imediato a respectiva morada. Reginaldo atravessou a Ponte e uma hora depois lá estava na casa da sogra de Carlos Fordes para entregar a respectiva prenda ao filho do árbitro. Cenas como esta sucederam-se, e todos aceitavam com agrado tamanha amabilidade. Era um gesto bonito e que ninguém podia condenar. Não estava em causa qualquer jogo ou favor, mas uma amabilidade que não era muito normal no futebol. Galo da Costa e Pidroto tinham escolhido a pessoa ideal para executar tal missão. Reginaldo Teles era bem sucedido quando espelhava a face da inocência, do desinteresse, do bom amigo. Foram dezenas e dezenas de missões como esta que deram entrada a Reginaldo Teles na intimidade dos árbitros. Depois de um gesto daqueles, era normal que convidassem Reginaldo para um brinde ou mesmo para ficar um pouco na festa familiar. Nasceram amizades e compadrios. Convites para encontros mais para o Norte e de preferência no seu bar de alternos, com mulheres e copos disponíveis. Lisa tinha tomado conta do negócio, e a sua experiência de mulher da vida muito batida ajudava a controlar e a organizar umas cenas de sexo com as miúdas escolhidas pelos árbitros que visitavam Reginaldo no seu estabelecimento. Pidroto desconfiava da situação e andava assustado com o negócio, mas a doença tomou conta dele e perdeu força, muito embora comandasse todas as operações e estabelecesse estratégias a partir do seu leito, com a cumplicidade do seu fiel adjunto Antónimo Morais. Galo da Costa não gostava da política que estava a ser adoptada e, picado por Reginaldo Teles, com quem tinha relações já muito estreitas, começou a trair o seu grande amigo Pidroto. Reginaldo sabia que o técnico não gostava muito do seu estilo nem apoiava algumas das suas acções. Queria dar dignidade ao clube, e um chulo não seria a personagem ideal para representar em diversas acções a grandiosidade do projecto que ele queria atingir. Reginaldo Teles sabia insinuar-se perante as pessoas. Começou a convidar o presidente para uns copos no seu território. GC nunca se tinha visto rodeado de tantas mulheres. Tinha uma educação de seminarista e nunca lhe passara pela cabeça trair a sua mulher, mas um dia não resistiu às investidas de uma das funcionárias do seu grande amigo Reginaldo Teles. A mulher tinha sido bem escolhida por Lisa e educada por Reginaldo. GC sentiu-se no céu, quando desceu ao leito do amor. Nunca tinha vivido experiência como aquela. Deu consigo a pensar: -Como é que foi possível andar 40 anos sem conhecer uma experiência como esta? Reginaldo tinha ganho a sua primeira batalha. O presidente ficou agarrado a ele através do amor de terceiras (e de quartas, quintas, sextas... não sendo também incomum aos sábados...). Vieram outras experiências, outras mulheres e Galo da Costa andava eufórico. Depois de Pidroto ter morrido, Reginaldo Teles passou a ser o expoente máximo de Galo da Costa, e os outros vice-presidentes do clube não andavam nada contentes com a situação. Um dos grandes amigos de GC chegou mesmo a comentar: -O GC tem uma cabeça extraordinária. O seu mal foi ter começado a ir ao pito aos 40 anos. Isto dito assim nem parece nada, mas a verdade é que a vida nocturna transformou por completo Galo da Costa, que pensou, por momentos, ter alcançado o paraíso na Terra. Reginaldo Teles tinha uma influência extraordinária sobre GC, levando-o mesmo a dizer que só confiava em Reginaldo e no seu gato. Lisa geria o «Play-Girl», o novo bar de Reginaldo, com uma eficiência extraordinária, mas não passava de uma ex-puta, ou mais propriamente de uma puta reformada, mas ainda com boa pinta. A amizade entre ela e GC tinha aumentado graças aos excelentes encontros que ela lhe ia conseguindo com as suas melhores raparigas.
A ligação de Reginaldo Teles ao futebol proporcionava-lhe bons negócios e passos gigantescos na sua ascensão na direcção do clube. A acção de charme com os árbitros evoluía cada vez mais. Os dirigentes que não aceitavam Reginaldo iam sendo afastados. Mesmo aqueles que já tinham uma amizade de longos anos com Galo da Costa. O sexo tinha tomado conta da mente do homem e não havia nada nem ninguém capaz de o fazer parar e encarar a situação de uma forma mais digna. A assiduidade de Galo da Costa era quase diária e não havia forma de alterar os hábitos adquiridos. As mulheres desfilavam pela sua mesa e ele só tinha de escolher qual queria comer e a forma como o queria fazer. Era norma ser o patrão o primeiro a experimentar as novas empregadas, mas essa função no «Play-Girl» passou a pertencer a GC. Era a porta aberta para o êxito e a ascensão de Reginaldo Teles.
Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como aconteceu com Adalberto Magalhães, reputadíssimo empresário. GC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões, não dava tréguas: -Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste! O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reginaldo Teles ia subindo na hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem grande contestação, pois nessa altura já Reginaldo tinha todo o seu staff de segurança organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha, recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada, subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos. Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição (...)".










