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terça-feira, 3 de abril de 2007


A ver se entendi! Segundo o Jornal Record (logo, não é muito fiável...) o Benfica é que poderá ter o estádio interditado! Tá giro tá! Leiam a versão impressa... No online não está esse artigo! Mas não o comprem!! Vão ao café mais rasca do bairro que deve ter la na mesa em baixo do "SIMBALO DO CEPORTÈM!!!"

São estes detalhes que dão um campeonato, o Pepe que agrediu o Yannick, não foi castigado e fez um jogaço contra nós... Está tudo dito!

3 comentários:

antitripa disse...

Calma, isto ainda vai dar muita fruta.....

arrebumbas?! disse...

Estamos no intervalo do jogo em Barcelona... Estamos a levar duas batatas...!
Batam palmas ao Vieira, acreditem na merda toda que ele diz: A culpa é da PSP a culpa é dos supercabrões, enfim, a culpa é de todos menos de quem chefia e organiza os jogos no nosso estádio. O Dínamo de Moscovo também é o culpado por nos ter emprestado o Derlei, a culpa é do AEK por termos a merda de treinador que temos, a culpa é do "Bruxa Bar" por estar a acenar constantemente ao Nélson, a culpa tb é do PSV ter levado o Alcides e não o Anderson, a culpa é da puta da cola que existe no nosso balneário que permite que o Marco Ferreira esteja no nosso clube... A puta da culpa como sempre é de todos e não é de ninguém, e mais uma vez.... morre solteira...!
Puta que pariu a isto tudo. Detesto dizer isto, mas o Benfica já não é dos sócios, é dos... ABUTRES!

Benfica sempre, mesmo depois da morte!
Estamos no intervalo do jogo em Barcelona... Estamos a levar duas batatas...!
Batam palmas ao Vieira, acreditem na merda toda que ele diz: A culpa é da PSP a culpa é dos supercabrões, enfim, a culpa é de todos menos de quem chefia e organiza os jogos no nosso estádio. O Dínamo de Moscovo também é o culpado por nos ter emprestado o Derlei, a culpa é do AEK por termos a merda de treinador que temos, a culpa é do "Bruxa Bar" por estar a acenar constantemente ao Nélson, a culpa tb é do PSV ter levado o Alcides e não o Anderson, a culpa é da puta da cola que existe no nosso balneário que permite que o Marco Ferreira esteja no nosso clube... A puta da culpa como sempre é de todos e não é de ninguém, e mais uma vez.... morre solteira...!
Puta que pariu a isto tudo. Detesto dizer isto, mas o Benfica já não é dos sócios, é dos... ABUTRES!

Benfica sempre, mesmo depois da morte!

arrebumbas?! disse...

"...Pinto da Costa assumiu a derrota, mas não a digeriu. Parecia perdido para o futebol.
A sua atitude revolucionária tinha deixado marcas bastante profundas. O seu futuro
como dirigente estava severamente comprometido, mas Pinto da Costa sempre acreditou
que no futebol é o golo que comanda as atitudes e as situações e que provoca a queda
dos dirigentes e treinadores. Por isso, PC não se deixava abater com tanta facilidade. A
sua resistência não tinha limites e afinal só tinha perdido uma batalha. O importante,
agora, era fazer com que o seu clube tivesse alguns desaires. Tinha, por isso, de montar
a sua estratégia, mesmo sem os seus anteriores aliados.
Os seus companheiros, os da tentativa de revolução, colocaram-se à margem para se
aliarem a quem ficou com o poder, e os profissionais seguiriam o seu rumo, a sua vida
era aquela; e, mais tarde ou mais cedo, acabariam por surgir novos empregos. Eram
artistas do futebol, tinham mérito e qualidade. O seu caso era mais difícil. Era um
dirigente com algum carisma ganho á custa do prestígio de Pedroto. A sua
personalidade e capacidade ainda não tinham sido verdadeiramente testadas. Faltava-lhe
prestígio para fazer frente a Américo de Sá. E não podia continuar a vender fogões toda
a vida...

Sem abandonar os bastidores do futebol, foi minando a gerência de Américo de Sá.
Não era homem para ser derrotado com tanta facilidade, mas em alguns momentos
chegou mesmo a sentir o desespero de uma causa que parecia perdida. Mestre a colocar
o boato a circular, fez constar que um clube da capital lhe tinha dirigido o convite para
assumir o comando do departamento de futebol. O objectivo era deixar passar a
mensagem de que o inimigo tinha visto nele superiores qualidades e, perante tal facto,
esperar que algumas vozes se levantassem, reconhecendo o erro que tinham cometido.
Mas acabou por acontecer o contrário. A credibilidade de Pinto da Costa em relação ás
posições que tomou em defesa do Norte foi afectada.
Apercebendo-se de que a sua estratégia não resultara, logo se apressou a desmentir o
boato posto por ele a circular. As eleições estavam próximas e era necessário
estabelecer um plano mais sólido para derrotar Américo de Sá. Não era homem para
viver sob o domínio da derrota ou mudar de atitude procurando novamente as boas
graças do presidente. Na sua personalidade e forma de estar não encaixava a imagem de
um falhado.
Pinto da Costa passou a sua idade escolar num colégio onde imperava uma grande
influência da religião católica e quando atingiu o liceu foi internado num colégio de
padres. Dos mais prestigiados do Norte do País. Ali fabricavam-se verdadeiros homens.
Eram testados como cobaias para poderem enfrentar no futuro as mais adversas
contrariedades da vida.
Uma das disciplinas era constituída pela defesa individual de cada aluno perante toda
a turma e, já nessa altura Pinto da Costa era tido como o mais desenvolto no uso do
discurso, na sua capacidade de raciocínio rápido e retenção na memória de dados
essenciais. Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta, bem cedo começou a
demonstrar um grande sentido de chefia. Sabia como dividir para reinar, utilizando um
ar cândido e descomprometido quando algumas atitudes de má-fé lhe eram dirigidas.
Atirava a pedra e sabia como esconder a mão. Mas a sua verdadeira arma era a
grande capacidade de trabalho e a completa dedicação a tudo o que fazia. Chegou a
pensar ordenar-se padre, e o director do colégio apostava que, se ele seguisse essa
carreira, iríamos ter o segundo papa português.
A sua postura, a sua forma de falar e de estar deram-lhe sempre um toque clerical. A mesma mão que abençoava os amigos, empunhava a cruz onde ele havia de crucificá-los.
Cativava, fazia amizades com facilidade e sabia como as utilizar e destruir como se
nunca tivesse culpa de nada.
Nunca foi grande atleta, mas a sua paixão pelo desporto atirou-o para o dirigismo.
Começou por baixo, mas não foi necessário muito tempo para chegar ao topo da
pirâmide. Destronar Américo de Sá era agora o seu maior desafio. Começou então a
rodear-se de amigos com algum prestígio no clube, procurando apoios para se
candidatar. Tarefa que não era fácil. Na altura, para se ser presidente de um clube de
futebol era necessário ser-se um empresário de sucesso e ter dinheiro disponível para
enfrentar algumas situações, e esse não era o caso de Pinto da Costa. Ele sabia-o como
ninguém e procurou então apoiar-se em pessoas abastadas economicamente, não
dispensando o seu grande amigo, Ilídio Pinto.
Havia, no entanto, uma situação que era necessário ultrapassar. O Ilídio tinha-se
encostado ao Américo de Sá, mas PC sabia que ele estaria sempre do lado de quem
tivesse o poder e, com alguma facilidade, jogava sempre com um pau de dois bicos.
O certo é que Ilídio tinha o dinheiro, e PC iria necessitar desse apoio. Tinha também
na mão outra gente que vivia desafogadamente em termos financeiros e que por terem
sido preteridos por Américo de Sá se colocaram do seu lado, mas esses eram mais
inteligentes e não seria fácil arrancar-lhes o dinheiro sem lhes dar nada em troca.
Não podia também colocar em risco uma nova derrota. Tinha de ir à luta pela certa, e
o momento era propício porque se começava a notar um certa instabilidade no seio do
clube. Tudo servia para se atacar a gerência de Américo de Sá. Faziam-se assembleias
gerais agitadíssimas, com Pinto da Costa a colocar algumas pessoas estrategicamente no
meio dos sócios a criar a confusão.
Américo de Sá passou momentos de grande desespero, porque lhe era impossível
controlar a situação. Foi então que tomou consciência da existência de um jovem com
alguma história no clube. Reinaldo Teles, campeão nacional de boxe e na altura
treinador, foi a solução encontrada para controlar as agitadas assembleias gerais. Ex-pugilista,
brigão, chulo e nutrindo uma certa paixão por negócios ilícitos, ofereceu-se
para arrumar a casa e impor a ordem nas confusões programadas por Pinto da Costa. Era
treinador de boxe do clube e reuniu os seus rapazes para patrulharem a sala, e o certo é
que com alguns murros e cabeçadas acabou por conquistar o lugar de chefe da
segurança de Américo de Sá.
Pinto da Costa temia-o, porque não era um brigão vulgar e muito menos um marginal
estúpido e incompetente. Reinaldo Teles tinha um espírito e uma personalidade muito
idênticos aos de PC. Dava as ordens para descascar à fartazana e depois surgia como o
apaziguador, o bom rapaz que anda tinha a ver com aquela violência. PC detestava-o,
mas viu nele a solução para o futuro.
Reinaldo Teles era um ás a esgrimir os punhos, sabia avaliar com grande exactidão a
capacidade dos seus adversários, e quando não os podia vencer trazia-os para junto de
si. Um anjo, este rapaz que veio bastante jovem de uma aldeia transmontana para servir
numa tasca de um tio. O estabelecimento estava aberto toda a noite, numa altura em que
ainda existiam poucas discotecas. E as que funcionavam em pleno estavam viradas para
o alterno e a prostituição. Mas R. Teles sabia que «putas e vinho verde» só combinam
nas horas e nos locais certos. Havia que tratar da vidinha.
Ajudava o seu tio pela madrugada dentro e vivia com entusiasmo as cenas de
pancadaria entre azeiteiros, putas e marginais. O seu sonho era um dia vir a ser como
eles. Homens valentes, com charme, e mulheres tratadas a pontapé a levarem-lhes o
apuro da noite e o que até tinham roubado ao prazer. Sobre as delícias do amor,
Reinaldo propagandeava dotes extraordinários, como fruto da leitura de um livrinho que
comprara na Feira de Vandoma, uma obra cujo título tinha algo a ver com cama
(obviamente) e que ensinava a combinar o beijo inclinado com o beijo pressionado.
Essa era a matéria que Reinaldo dominava perfeitamente, como já se disse, com
destaque para a arte de beijar.
Mas ainda estava longe de ser o rei na noite, sendo por norma acordado por mais um
pedido da Bety ou da Lady, pois as putas por aqueles lados tinham todas nomes
ingleses...
- Ó miúdo, serve-me aí uma sande de fígado com molho e cebola e um copo desse
verde rasca que o teu tio tem aí!
Reinaldo Teles não se deixava comover. Afinal, eram putas. Tinham de ser tratadas
assim. Enrugando a face, com os cantos da boca a quebrarem para baixo, fazia inchar o
peito, punha-se em bicos de pés na tentativa de imitar os chulos e atirava com o prato da
sande e o copo para a frente da mulher enquanto pensava: «Ainda vais trabalhar para
mim». Foi então que um indivíduo com cara de rato, esquelético e de cabelo oleoso, se
foi encostando á prostituta que Reinaldo servia e, com uma habilidade nata, meteu os
garfos na carteira e roubou-lhe o porta-moedas. Reinaldo, que estava por detrás do
balcão a retirar da montra de vidro um naco de polvo envolto em cebola, viu a cena e
não perdeu a sua oportunidade de brilhar. Saiu do balcão e, com determinação, agarrou
o carteirista e evitou que a Alzira, mais conhecida por Lady, ficasse sem os poucos
tostões que o seu chulo lhe deixou.
Apercebendo-se de toda a cena, a Alzira levantou a mão e deu um soco no carteirista
enquanto lhe dizia:
- Ah, meu filho da puta de choringa!
Sem tempo para pensar, Reinaldo Teles nem sequer hesitou quando se apercebeu que
o carteirista ia responder á agressão. Formando um salto, deu uma cabeçada seguida de
uma esquerda no choringa e este esparramou-se no chão sem vontade de se levantar.
Quando o pôde fazer, nem sequer olhou para trás, deitando a fugir pela rua abaixo.
Os presentes fartaram-se de gabar Reinaldo, não só pela sua coragem como também
por aquela esquerda indomável. A Alzira esqueceu-se de que tinha sido vítima de roubo
e começou a medir o miúdo de alto a baixo com um sorriso comprometedor e, olhando
por cima do ombro, disse-lhe quase num sussurro:
- Hoje tens direito a uma de graça!
- Com direito a beijo pressionado?- quis logo saber Reinaldo.
Que sim, disse ela. Reinaldo Teles não cabia em si. Puxou do pente que trazia no
bolso de trás das calças, passou-o pelos cabelos e não deixou ninguém perceber que
ainda era virgem. Pegou no resto do vinho que sobrou no copo da Alzira e emborcou-o
de uma golada enquanto lhe dizia:
- Estou-te com uma sede!
Quando fechou a tasca, lá estava a Lady á sua espera para uma madrugada de amor.
Mas estava, ainda, Reinaldo com a chave metida na porta, e já o chulo da Alzira lhe
tocava no ombro.
- Onde pensas que vais meu filho. O estabelecimento já fechou. Se queres
desenferrujar o prego, espera para amanhã e não te esqueças de trazes trocado.
Reinaldo Teles ficou fora de si. Já estava a pensar com os tomates, e aquele gajo não
lhe podia vir estragar a festa. Olhou de alto a baixo o chulo. Fixou-o bem nos olhos e
achou que lhe podia dar uma tareia. A sua célebre esquerda saltou como um gancho e
abateu-se nos queixos do chulo. Ainda este não se tinha recomposto e já levava um
meia dúzia de socos, caindo KO no passeio.
Numa só noite, Reinaldo tinha abatido dois adversários. Alzira não hesitou. Estava
cheia daquele chulo, e Reinaldo serio o seu novo amante. Meteu-lhe o braço e, com
firmeza, levou-o até ao seu quarto alugado, por trás da Igreja da Trindade. Por
coincidência ou não, os sinos tocaram a assinalar as cinco da matina e uma gata berrou
de cio.
Reinaldo estava eufórico e, depois de ter descascado em dois duros da noite, não
podia de forma alguma deixar perceber que aquela era a sua primeira noite de amor. As
suas calças de bombazina preta começaram a ser afagadas por Alzira enquanto ela se
despia.
Ao ver o seu par de mamas, Reinaldo não se aguentou mais e teve uma ejaculação.
Lady sentiu as calças humedecidas.
- Já te vieste?
Reinaldo, sem mostrar atrapalhação por aquele percalço, ensaiou uma vez mais a
pose de durão.
- Isto é só uma amostra. Vê se te preparas depressa.
E em que pressinha se foi a virgindade de Reinaldo Teles.
Alzira ficou encantada com toda aquela fogosidade e, mostrando-se submissa, pediu
com um certo carinho:
- A partir de hoje vais ser o meu chulo?
Reinaldo sorriu, enquanto puxava as calças para a cintura e apertava o cinto.
- Depois da sova que deu ao teu chulo, achas que ele teria coragem de aparecer? O
teu homem a partir de hoje, claro que sou eu.
Mas para que essa conquista ganhasse forma, havia muitas lutas para vencer. Os
pretendentes faziam fila porque o negócio estava mau e havia de aparecer um valentão a
conquistar os seus direitos da mesma forma que o fez Reinaldo.
Alzira gostava do miúdo, era forte e atrevido, mas para ficar com ele tinha de pensar
numa forma de o proteger. Reinaldo tinha punhos, mas faltava-lhe a experiência. De
súbito, veio a solução. Ela tinha um cliente que era treinador de boxe do maior clube da
cidade(Porto)e ia-lhe apresentar Reinaldo Teles para o rapaz poder ir lá fazer uns
treinos.
Uma semana depois, o tal treinador de boxe disse a Alzira que Reinaldo tinha futuro.
A partir daí, quando as coisas aqueciam no «Ginginha», a tasca do seu tio, R. Teles
fazia uns treinos extra, passando a ser conhecido e respeitado. Depois de fechar a tasca,
aproveitava a boleia de um amigo e ia ter com a Alzira, que atacava em Santos Pousada.
Trazia o apuro e a rapariga. Os dois estavam apaixonados. O beijo pressionado
passava à história.
Reinaldo começou a somar êxitos no boxe e acabou por deixar o emprego na tasca do
seu tio para se colocar como segurança e porteiro numa casa de alternos. Foi aí que
conheceu a Luísa. Mas um dia, Alzira descobriu tudo, entrou pela boite dentro,
localizou a Luísa, que bebia uma garrafa de champanhe com um cliente enquanto este a
beijava no pescoço, pegou-lhe pelos cabelos, atirou-a por cima da mesa e armou por ali
uma algazarra tremenda.
Reinaldo Teles tentou acalmar as coisas. Não podia perder o emprego e lá convenceu
Alzira a ir-se embora, não sem antes esta prometer que matava a Luísa se ela
continuasse atrás do homem dela.
Reinaldo Teles tinha-se tornado num dos chulos mais importantes da cidade e, com a
ajuda da Luísa, acabou por comprar o seu próprio estabelecimento. O rapaz tinha jeito
para o negócio, e a Luísa tinha uma perspicácia tremenda para escolher as melhores
putas.
Ambicioso, inteligente, hipócrita e já com algum poder económico, Reinaldo Teles
tinha apenas mais um sonho: ser campeão nacional de boxe. Ele era bom de punhos,
mas havia outros melhores.
Com algum sacrifício e habilidade, conseguiu chegar á fase que lhe permitiu disputar
o título. O seu adversário era poderoso e Teles não se podia arriscar a deixar fugir o seu
sonho. Sempre inclinado para negócios marginais, colocou logo em prática um plano
diabólico. Ele sabia que no boxe profissional a corrupção por parte de grupos marginais
era uma prática constante e quase normalizada, e num ápice resolveu o seu problema.
Contactou o seu adversário, negociou a vitória no terceiro "round" e um KO mal
disfarçado deu-lhe a oportunidade de saltar no ringue elevando as luvas em sinal de
vitória.
Era importante para o seu negócio que os jornais noticiassem no dia seguinte que ele
era o novo campeão nacional de boxe. Aquele título significava respeito e medo. Os
factores mais importantes para quem quer gerir com tranquilidade uma casa de alternos
e de prostituição.
Este fora o seu primeiro acto no mundo da corrupção, e Teles ficou fascinado com o
poder do dinheiro. Afinal, ele tinha feito um investimento altamente rentável. Pagou
para conquistar o título, realizou o seu sonho e duplicou a facturação no seu
estabelecimento. Ninguém se arriscava a criar conflitos na sua área de alternos e muito
menos a deixar contas penduradas. Os punhos de um campeão eram sempre temidos.
#6 | Comentado por: MATA-PORCOS | 21 de abril de 2006 às 10:54
Grande post Mata Porcos deves continuar a escrever para informares a saciedade do que é a podridão do Futebol Azul e Branco.
SAudações Leoninas
#7 | Comentado por: Escama Dragões | 21 de abril de 2006 às 10:54
Aproximavam-se novas eleições e Pinto da Costa ia ganhando terreno. O treinador
Austríaco (Hermann Stessl) que fora convidado para tomar conta do seu clube sob a
gerência de Américo de Sá não estava a dar conta do recado. Os sócios habituaram-se
aos títulos e queriam mais, mas a bola teimava em não entrar na baliza.
Enquanto isso, PC esfregava as mãos e preparava a sua candidatura. Os apoios eram
cada vez mais fortes, e uma nova estratégia foi colocada em movimento. Ele tinha de
apostar forte na vitória eleitoral e, aproveitando os maus resultados da equipa, organizou
por todas as freguesias da cidade sessões de esclarecimento com uma programação
meticulosa. Iniciava-se, assim, a «Operação Ácido Sulfúrico», cuja alternativa, em caso
de falhanço, tinha o nome de código de «Operação Cicuta».
Na organização dos seus comícios, PC deu sempre preferência aos bairros pobres e à
parte velha da cidade. Era aí que estava o povo e a força do clube. PC organizou o seu
staff comandando um grupo de associados aos quais impôs serem eles a obrigarem-no a
partir para uma candidatura. Desenvolveu-se então o célebre grupo dos 500, do qual
saíram elementos devidamente comandados que se distribuíam pelos cantos das salas
onde eram organizadas as tais sessões de esclarecimento. A missão deles era empolgar
as sessões e fazer perguntas previamente combinadas com Pinto da Costa.
Numa dessas noites, na Associação Recreativa de Miragaia, foi assim:
- Presidente, qual é o principal inimigo do clube?
- Antes de mais, repito, ainda não presidente...
Gargalhada geral, e PC tomou as rédeas à sala, não evitando porém a queda de
estuque sobre o novo casaco,
- O principal inimigo está dentro do clube, o servilismo a Lisboa. Estamos fartos de
ser espoliados. Chegou a hora de dizer «basta».
Com uma cajadada, PC matava dois coelhos. Para além do mais, o discurso saía-lhe
cada vez mais com mais facilidade e tudo era acompanhado, comentado e analisado
pelo imprensa desportiva e jornais diários. A cidade e Américo de Sá viviam sob o fogo
cerrado de Pinto da Costa. O presidente já não podia sair á rua sozinho, e as assembleias
gerais eram cada vez mais escaldantes, levando mesmo o doutor Sá ao desespero e a
chorar em público. Foi nessa altura que Reinaldo Teles teve o seu papel mais
importante. Organizou um grupo de guarda-costas recrutados nos quadros da secção de
boxe do clube que, com alguns rufias nocturnos á mistura, organizou alguns ataques a
jornalistas que de uma forma ou outra denunciavam a protecção a Pinto da Costa.
Evidenciando alguma inteligência e revelando o seu carácter de hipócrita, Reinaldo
Teles verificou que a derrota de Américo de Sá era mais que evidente, e assim se foi
distanciando da protecção que prometera ao seu presidente. Algumas figuras notáveis da
cidade aliaram-se a Pinto da Costa e, no momento das eleições, a derrota foi fatal para
Américo de Sá.
Pinto da Costa tinha conseguido realizar o seu sonho, levando como trunfo o seu
grande amigo e companheiro de luta Pedroto, o técnico que tinha conseguido o título
para o seu clube.
Fernando Gomes, o ponta de lança mais cobiçado, tinha sido emprestado a um clube
espanhol e serviu de bandeira para ajudar á vitória. Também ele regressou. Mas António
Oliveira, o ex-capitão que nunca se deixou dominar pelos desígnios de Américo de Sá,
recusando-se terminantemente a regressar ao clube, passou por momentos bem difíceis.
Não de ordem económica, mas psicológica. Tinham-lhe sido vedadas todas as entradas
numa equipa que estivesse ao seu nível. Foi marginalizado e refugiou-se num grupo de
amigos, não recebendo a ajuda de ninguém, mesmo de Pinto da Costa, pelo qual deu a
cara. António Oliveira era uma vedeta do nosso futebol, uma estrela, um génio, e não
podia ser esquecido. Foram meses de desespero. Foi sair da ribalta para o anonimato,
mas nada vergou a personalidade deste jogador. Ficou sozinho, mas manteve a classe
que sempre foi a sua imagem de marca.
Sem clube e sem a mínima vontade de treinar, refugiou-se no ambiente nocturno tão
ao seu gosto. Copos e mulheres eram a alma que mantinha de pé a forte estrutura
psíquica do «Caddilaque» - apelido que carinhosamente lhe fora colocado pelos amigos
mais chegados. Eram bacanais atrás de bacanais devidamente organizados no seu
apartamento. Por aquele espaço passaram os melhores ballets de inglesas que actuavam
nos casinos nortenhos, as melhores «strip-teasers», as habituais frequentadoras das
discotecas e também «travestis» que satisfaziam as delícias de algumas convidadas
lésbicas e bissexuais. Sexo em grupo era o prato forte.
Após alguns meses de paragem, António Oliveira resolveu voltar à actividade, mas
antes, na companhia de alguns amigos foi passar uns dias a Bordéus, onde esteve a
ajudar na vindima. E só no seu regresso, com um visual totalmente novo, de cabelo
encaracolado e sem bigode, aceitou um convite do clube da sua terra natal (Penafiel).
Tinha uma equipa modesta, mas como era treinador-jogador, abria uma actividade
totalmente nova no nosso futebol, revolucionando o sistema e isso teria sempre um
enorme impacto mediático. Era a demonstração cabal de que António era, de facto um
homem inteligente, que sabia estar e conhecia o terreno que pisava. A sua estrela
voltava a brilhar e de tal forma que logo foi cobiçado por um grande clube da capital.
António não sabia viver sem a companhia do seu irmão, o Joaquim Oliveira. Foram
sempre muito chegados. O Joaquim Oliveira tinha uma discoteca de alternos e
rivalizava com Reinaldo Teles. O seu mundo eram as putas, tal como Reinaldo, de
quem diferia muito em termos de personalidade e carácter. Reinaldo era um valentão.
Joaquim Oliveira era pacífico e não era chulo, muito pelo contrário: chamavam-lhe
«andor» porque gostava de se rodear de putas e pagar tudo. Todas as noites promovia ceias
com dançarinas e também com algumas miúdas ligadas aos alternos. Levava sempre
consigo amigos para se querer impor e provar que também era alguém.
O negócio não dava para tudo, e vieram as dificuldades. As dívidas aumentaram e,
com a ida do seu irmão para um clube da capital (Sporting) tudo piorava. Vieram as
penhoras. E logo que António Oliveira se impôs no seu novo clube, tratou de arranjar
um negócio para o seu irmão, uma queijaria nas imediações do estádio, onde era normal
alguns jornalistas abastecerem-se sem pagar ou apenas por um preço simbólico (mantinha-se assim a tradição de «pato»). O irmão, pelo seu lado tinha-se assumido
novamente como jogador-treinador e, com a ajuda do seu novo presidente, resolveu
abrir uma agência de contratações de jogadores. A sua missão era contratar jogadores
não só para o clube do seu primo, mas também para os outros. Foi criada a Olivedesportos.
Mas Joaquim Oliveira não estava talhado para esta missão cuja actividade em
Portugal ainda era muito pouco reconhecida. A fuga acabou por surgir através de um
sistema de publicidade montado nos estádios, explorando os painéis. António e o seu
irmão Joaquim continuavam de boas relações com Pinto da Costa, mas este quando,
quando foi eleito presidente, resolveu encetar uma pequena guerra com João Rocha, ex-imigrante nos Estados Unidos e presidente do clube onde António estava a jogar e a
treinar (Sporting). As relações entre ambos esfriaram até à altura em que Pinto da Costa
resolveu tentar trazer novamente o António para o seu clube, mas o jogador manteve
sempre um comportamento de grande responsabilidade. Para além de alguns defeitos,
tinha uma grande virtude: nunca esquecia os seus amigos. João Rocha fora o homem
que lhe dera uma nova oportunidade para voltar ao top do futebol português, que o
ajudou a montar a agência de publicidade para o seu irmão num momento difícil para
ambos, e António não podia de forma alguma esquecer tudo isso. Recusou o convite,
mas Pinto da Costa não perdoou.
A guerra estabeleceu-se entre ambos até ao ódio e continuou até muito depois de
António ter abandonado o clube da capital e optado pela actividade de treinador.
António e o seu irmão nem queriam ouvir falar em Pinto da Costa. «Dá comichão só de
pensar nele», dizia um deles, o mais novo, mas claramente o mais esperto.
A guerra entre os dois clubes e os respectivos presidentes foi aumentando. Pinto da
Costa tinha feito com que o seu clube voltasse às vitórias e aos títulos e, como sempre
foi amante de uma guerrinha, mantinha a sua bem acesa com João Rocha.
A estratégia era de Pedroto:
- No Norte só há um clube com força e na capital há dois, por isso só há uma forma
de os poder dividir e lutarmos contra eles. Temos de estar sempre bem com um e abrir
guerra ao outro.
Pinto da Costa absorveu a filosofia do «mestre» e acrescentou:
- Tens toda a razão e até podemos alternar essa guerra, abrindo fogo sempre sobre o
clube que estiver em melhores condições para poder lutar pelo título.
Frustrada a tentativa de levar para o seu clube o António e em resposta a João Rocha
por este ter ripostado com a contratação de dois jogadores da sua equipa, Pinto da Costa
num acção relâmpago contratou um miúdo que na altura estava a dar nas vistas no clube
do seu inimigo João Rocha. Nessa altura, estava longe de imaginar que seria aquele
jogador que iria dar início ao seu grande golpe de estádio. O miúdo morava no Montijo
e era anunciado como um craque de eleição. Mas o clube de Rocha abriu a guarda e,
numa noite de lua cheia, um funcionário do clube rival do Norte acelerou no seu
Renault até ao Montijo, não se esqueceu de comprar no caminho um pão-de-ló em Rio
Maior para oferecer à família do rapaz e trouxe-o para a «Invicta», onde o craque se
manteve como que sequestrado durante alguns dias. «É o Eusébio branco», dizia-se, se
calhar com alguma legitimidade. O craque era conhecido pelo nome de guerra de Futre.
Entretanto, Reinaldo Teles, depois de ter abandonado Américo de Sá, mesmo antes
de este ter perdido as eleições, insinuou-se perante PC e, como este ainda não se tinha
esquecido da dimensão das dificuldades que lhe foram criadas pelo rapazinho que era
treinador de boxe do seu clube, achou por bem abrir-lhe a porta e oferecer-lhe o lugar de
chefe se segurança. Reinaldo Teles, consta, mandou abrir duas garrafas de champanhe
«Moelas & Cabron», marca que o Fuinha, um dos seus empregados, não conseguiu
encontrar no mercado, mas no fim ninguém reparava que era apenas «Raposeira» o
néctar que estrondeava.
Pedroto nunca esteve muito de acordo com essa acção. Era um indivíduo seguro,
competente e com grande personalidade e não gostava muito, nem sequer apoiava,
acções de violência ou de alguma forma marginais. Lutava por aquilo em que acreditava
e tecia estratégias para a sua luta, contestando, vociferando e acusando de uma forma
directa.
Tornou-se polémico, irreverente e estabeleceu uma acção de combate virada
essencialmente para a arbitragem, cujo controlo partia da capital.
Por isso, contratou para a sua equipa um ex-jornalista (Luís César) com a mania das
estatísticas, e a sua primeira missão foi a de elaborar um ficheiro de todos os árbitros da
1ª categoria, contendo o maior número de informações. Nome, morada, actividade extra,
número de filhos e datas de nascimento de toda a gente do agregado familiar.
Como era contra a violência, e Pinto da Costa não se cansava de gabar os dotes de
Reinaldo Teles, Pedroto pediu ao presidente para lhe entregar a missão de ir a casa dos
árbitros no dia do aniversário destes ou de um dos seus familiares para entregar uma
pequena lembrança, independentemente do facto de esse árbitro ter ou não ter apitado
qualquer jogo do clube. Era o início de uma operação de charme que resultaria em
pleno.
- «Reinaldo, hoje tens de ir a Setúbal entregar uma prenda para o filho do árbitro
Carlos Fortes, que faz anos» - pediu, certo dia, PC.
Reinaldo Teles, sempre pronto para estas acções, lá rumou até Setúbal com um fio de
ouro e uma medalha gravada com o nome do filho do árbitro. Mas, quando lá chegou,
não encontrou ninguém em casa. Uma vizinha, que estava na varanda a estender roupa,
disse-lhe que tinham ido todos a casa da sogra festejar os anos do miúdo. Reinaldo não
perdeu tempo:
- Sabe dizer-me onde mora a sogra?
- Mora em Lisboa – respondeu a vizinha, dando de imediato a respectiva morada.
Reinaldo atravessou a Ponte e uma hora depois lá estava na casa da sogra de Carlos
Fortes para entregar a respectiva prenda ao filho do árbitro.
Cenas como esta sucederam-se, e todos aceitavam com agrado tamanha amabilidade.
Era um gesto bonito e que ninguém podia condenar. Não estava em causa qualquer jogo
ou favor, mas uma amabilidade que não era muito normal no futebol.
Pinto da Costa e Pedroto tinham escolhido a pessoa ideal para executar tal missão.
Reinaldo Teles era bem sucedido quando espelhava a face da inocência, do desinteresse,
do bom amigo.
Foram dezenas e dezenas de missões como esta que deram entrada a Reinaldo Teles
na intimidade dos árbitros. Depois de um gesto daqueles, era normal que convidassem
Reinaldo para um brinde ou mesmo para ficar um pouco na festa familiar. Nasceram
amizades e compadrios. Convites para encontros mais para o Norte e de preferência no
seu bar de alternos, com mulheres e copos disponíveis.
Luísa tinha tomado conta do negócio, e a sua experiência de mulher da vida muito
batida ajudava a controlar e a organizar umas cenas de sexo com as miúdas escolhidas
pelos árbitros que visitavam Reinaldo no seu estabelecimento.
Pedroto desconfiava da situação e andava assustado com o negócio, mas a doença
tomou conta dele e perdeu força, muito embora comandasse todas as operações e
estabelecesse estratégias a partir do seu leito, com a cumplicidade do seu fiel adjunto
António Morais.
Pinto da Costa não gostava da política que estava a ser adoptada e, picado por
Reinaldo Teles, com quem tinha relações já muito estreitas, começou a trair o seu
grande amigo Pedroto. Reinaldo sabia que o técnico não gostava muito do seu estilo
nem apoiava algumas das suas acções. Queria dar dignidade ao clube, e um chulo não
seria a personagem ideal para representar em diversas acções a grandiosidade do
projecto que ele queria atingir.
Reinaldo Teles sabia insinuar-se perante as pessoas. Começou a convidar o presidente
para uns copos no seu território. PC nunca se tinha visto rodeado de tantas mulheres.
Tinha uma educação de seminarista e nunca lhe passara pela cabeça trair a sua mulher,
mas um dia não resistiu às investidas de uma das funcionárias do seu grande amigo
Reinaldo Teles. A mulher tinha sido bem escolhida por Luísa e educada por Reinaldo.
PC sentiu-se no céu, quando desceu ao leito do amor. Nunca tinha vivido experiência
como aquela. Deu consigo a pensar:
- Como é que foi possível andar 40 anos sem conhecer uma experiência como esta?
Reinaldo tinha ganho a sua primeira batalha. O presidente ficou agarrado a ele através
do amor de terceiras (e de quartas, quintas, sextas... não sendo também incomum aos
sábados...). Vieram outras experiências, outras mulheres e Pinto da Costa andava
eufórico.
Depois de Pedroto ter morrido, Reinaldo Teles passou a ser o expoente máximo de
Pinto da Costa, e os outros vice-presidentes do clube não andavam nada contentes com
a situação. Um dos grandes amigos de PC chegou mesmo a comentar:
- O PC tem uma cabeça extraordinária. O seu mal foi ter começado a ir ao pito aos 40
anos. Isto dito assim nem parece nada, mas a verdade é que a vida nocturna transformou
por completo Pinto da Costa, que pensou, por momentos, ter alcançado o paraíso na
Terra.
Reinaldo Teles tinha uma influência extraordinária sobre PC, levando-o mesmo a
dizer que só confiava em Reinaldo e no seu gato. Luísa geria o «Play-Girl», o novo bar
de Reinaldo, com uma eficiência extraordinária, mas não passava de uma ex-puta, ou
mais propriamente de uma puta reformada, mas ainda com boa pinta. A amizade entre
ela e PC tinha aumentado graças aos excelentes encontros que ela lhe ia conseguindo
com as suas melhores raparigas.
A ligação de Reinaldo Teles ao futebol proporcionava-lhe bons negócios e passos
gigantescos na sua ascensão na direcção do clube. A acção de charme com os árbitros
evoluía cada vez mais. Os dirigentes que não aceitavam Reinaldo iam sendo afastados.
Mesmo aqueles que já tinham uma amizade de longos anos com Pinto da Costa. O
sexo tinha tomado conta da mente do homem e não havia nada nem ninguém capaz de o
fazer parar e encarar a situação de uma forma mais digna.
A assiduidade de Pinto da Costa era quase diária e não havia forma de alterar os
hábitos adquiridos. As mulheres desfilavam pela sua mesa e ele só tinha de escolher
qual queria comer e a forma como o queria fazer. Era norma ser o patrão o primeiro a
experimentar as novas empregadas, mas essa função no «Play-Girl» passou a pertencer
a PC.
Era a porta aberta para o êxito e a ascensão de Reinaldo Teles.




O clube de Pinto da Costa tinha atingido o auge tanto em termos nacionais como
europeus. Era o apogeu, o delírio e o júbilo de um povo que nunca se tinha visto em
tamanha aventura. PC fez esquecer o seu velho e grande amigo Pedroto, evitando
qualquer comentário que pudesse recordar o velho mestre. A glória tinha de ser só sua e
de mais ninguém. A cidade caiu-lhe aos pés, e foi a partir dessa altura que PC tomou
consciência do poder que tinha e que Reinaldo Teles começou a alimentar a sua grande
esperança de um dia vir a ser alguém no seu clube.
Reinaldo tinha Pinto da Costa quase na mão, através dos assíduos encontros deste
último com as suas miúdas. As amantes sucediam-se e até entravam em lista de espera.
PC sentia-se um Don Juan e conhecia uma vida totalmente diferente daquela a que
sempre estivera habituado. O poder alimentou ainda mais a sua ambição e começaram aí as
traições aos seus melhores amigos.
Umas como pura defesa pessoal, outras para abrir caminho para os que iam
chegando e prometiam uma maior subserviência, o que lhe dava a garantia de poder
governar sozinho e principalmente sem ter de dar muitas explicações.
Os títulos traziam muito dinheiro para os cofres do clube Pinto da Costa já tinha
esquecido os momentos em que era apenas um vendedor de fogões, muito embora
continuasse ligado à mesma firma, onde mantinha uma posição superior. Os milhares
com que tinha de lidar começaram a toldar-lhe a mente e a aumentar a sua ambição.
O seu clube era um grande chamariz para os grandes negócios e não faltaram
oportunistas para tirar partido disso. Foi nessa altura que surgiu um empresário italiano
muito ligado à venda de jogadores, mas com negócios ilícitos à mistura. Luciano
D´Onofrio já tinha jogado futebol em Portugal, e acabou por criar raízes no nosso país,
mais propriamente a sul, aproveitando uma grande parte do seu tempo para entrar nas
redes ligadas ao tráfico de droga... e era mesmo vital aquele ponto geográfico para o
negócio!
Luciano D´Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado
mais parecendo um bico, apareceu pela mão de Reinaldo Teles e recebeu a bênção de
PC.
D´Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em
diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma
pessoa de grande interesse para o clube. Pinto da Costa foi quem mais lucrou com a sua
vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu, e D´Onofrio
viu ali um grande negócio para si e para PC. Em todos os jogadores que fossem
negociados para o clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua
percentagem, desde que mais ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das
primeiras comissões Pinto da Costa via-se rodeado por dois elementos ligados ao
mundo do crime. Não era segredo para ninguém que Luciano D´Onofrio tinha ligações
com a Mafia italiana e que Reinaldo mais alguns familiares viveram sempre de
habilidades e negócios marginais, negócios centralizados na prostituição e na receptação
de objectos roubados. «Pena é que estes ramos não estejam inscritos nos fundos
comunitários», costumava dizer Reinaldo, que um dia ficou deliciado quando em
Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento, Reinaldo viu a
rua de Santa Catarina transformada um gigantesco bordel, imaginando situações do tipo
«leve três e pague duas» ou «pague o seu bacanal em dez suaves prestações». Mas era
sonhar muito alto.
Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade
que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube
tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como
aconteceu com Alberto Magalhães, reputadíssimo empresário.
PC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões,
não dava tréguas:
- Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste!
O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados
desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reinaldo Teles ia subindo na
hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de
futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem
grande contestação, pois nessa altura já Reinaldo tinha todo o seu staff de segurança
organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos
dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a
jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha,
recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada,
subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos.
Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição.
Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições
não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que
o clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de
lançar alguns insultos ao presidente e seus pares.
- Filhos da puta, chulos, vão trabalhar!
Pinto da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reinaldo
Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas,
deu de imediato uma ordem em surdina:
- Fodam-me esse gajo!
Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do
estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não
sabiam muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio.
O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que
ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer.
O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade
com que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até alguns agentes de autoridade
que não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre
esta onde de poder e segurança que Pinto da Costa construiu o seu império e
imperializou a sua própria imagem. Ele sentia-se um Al Capone à portuguesa, com a
vantagem de não poder ser apanhado pelo fisco, pois não tinha rendimentos legais que
justificassem qualquer tributação. Tinha, isso sim, o poder nas mãos e ficou ainda
mais seguro disso a partir do dia em que se aliou a um bruxo muito conceituado em
terras brasileiras que dava pelo nome de Pai João (Delane Vieira), um bruxo que não se
limitava aos orixás, fornecendo também a equipa de futebol com frasquinhos de vidro
que continham um guaraná em pó muito especial, esmagado por uma tribo de índios do
interior do Brasil. O «speed», normalmente recomendado para os gulosos do sexo, ajudava
os craques e, aliado à normal injecção de «vitaminas», tornava-os super-homens dentro
do campo. E era certo que a aparelhagem do anti-doping estava completamente
desajustada para detectar o que quer que fosse. Mas até este sector, a seu tempo, foi
devidamente controlado.
Entretanto, Reinaldo Teles não cessava a sua actividade, continuando a arranjar as
melhores amantes para Pinto da Costa e a dar-lhe toda a protecção. Rodeado de poder,
mas ainda sem dinheiro, o presidente, como lhe chamava Reinaldo, tinha algumas
limitações, mas nunca esqueceu o velho amigo Ilídio Pinto, a quem continuava a
extorquir o dinheiro que queria para efectuar alguns negócios, sempre com a promessa
de que um dia este viria a ser vice do futebol profissional.
- É uma questão de tempo. Você tem de ter paciência. Necessito de si em lugares
mais importantes para a vida do clube. Um dia o futebol será seu.
Com estas palavras de Pinto da Costa, o Ilídio lá ia passando uns cheques e cobrindo
algumas despesas, porque fortuna pessoal foi coisa que nunca se conheceu ao
presidente.
O grande negócio acabaria por surgir.
Um clube espanhol (Atlético de Madrid) interessou-se pela aquisição de Futre, e o
seu presidente resolveu vir a Portugal contactar o jogador, sem antes consultar o clube
de Pinto da Costa. Mas a organização, constituída por mais de uma dezena de guarda-costas, estava sempre bem informada de tudo quanto se passava na cidade e
essencialmente dos assuntos que diziam respeito ao clube. Por isso, quando chegou a
boa nova de que o presidente do clube espanhol estava em Portugal para falar com
Futre, foi de imediato colocado um plano de ataque em marcha, cujo nome de código
era «Caça à Peseta».
Apesar de Gil y Gil estar, no seu país, bem à altura de Pinto da Costa, quando veio a
Portugal estava muito longe de saber o que lhe ia acontecer. Chegou ao Porto e
combinou encontro com um empresário, para avaliar a possibilidade de levar Futre para
Espanha. O bar era pequeno e decorado de uma forma simples. No fundo da sala, um
pouco na penumbra, estava sentado Gil y Gil à espera do tal empresário quando
irromperam pela sala dentro quatro indivíduos que, sem darem cavaco a ninguém, o
rodearam e apertaram contra a parede, lançando o aviso:
- Se voltas aqui sem primeiro falares com o presidente do nosso clube, podes ter a
certeza que não sais daqui vivo. Na próxima, não há aviso! - rugiu Reinaldo, decalcando
o final da sua declaração de um filme que tinha visto em Pinheiro da Cruz.
Estas palavras foram ditas com tanta certeza e segurança que Gil y Gil quase se mijou
pelas pernas abaixo. Fora a sua primeira lição como futuro presidente de um dos
maiores clubes espanhóis. «Coño, em Portugal não se brinca», suspirou, ainda com as
pernas a tremer como varinhas verdes.
Gil y Gil não disse palavra, limitando-se a sair do bar e a enfiar-se na sua viatura,
acelerando, sem olhar para trás, até Espanha. Gil até se esqueceu de comprar um queijo
da serra em Vilar Formoso, como prometera a Carmen, a sua amante de Madrid/Sul.
Já no seu território, contactou directamente com Pinto da Costa, e este, sem muitas
palavras, indicou-lhe um interlocutor: Luciano D´Onofrio.
- O seu braço direito? - quis saber Gil.
- Mais ou menos, pois será ele a conduzir o assunto – informou PC.
Gil y Gil ficou tão impressionado com a acção de Pinto da Costa que resolveu
oferecer um extra ao seu congénere português: uma vivenda em Madrid.
- Sim senhor, mas numa zona fina, se faz favor – aceitou PC de pronto.
D´Onofrio entretanto colocou outro jogador (Rui Barros) de PC num clube italiano (Juventus) e a soma da venda de Futre e desse jogador vendido para Itália foi de 1
milhão e 200 mil contos, uma verba que PC nunca teria imaginado poder passar pelas
suas mãos. De imediato, PC juntou todo aquele dinheiro e abriu uma conta particular,
prometendo aos seus parceiros de direcção que aquela verba iria servir exclusivamente
para a compra de jogadores para o clube. Todos acreditaram, mas esse dinheiro
desapareceu como o fumo. Para amostra não ficou nem sequer um mísero escudo.
As ligações de Pinto da Costa com situações marginais começaram a ser comentadas,
e isso criou um certo descontentamento entre alguns directores, nomeadamente no
patrão da sua empresa, Alfredo Costa, e presidente do Conselho Fiscal do clube.
Ninguém como Alfredo Costa conhecia a vida de Pinto da Costa e, por isso, sabia muito
bem que este andava a vivera além das suas reais possibilidades, entrando em outros
negócios e noutras sociedades, sem se lhe conhecer a proveniência do dinheiro.
Desconfiado desta situação, como presidente do Conselho Fiscal do Clube, Alfredo
Costa um dia interpelou Pinto da Costa sobre o milhão e duzentos mil contos da venda
dos dois jogadores, mas como resposta obteve apenas:
- Não tenho de dar contas a ninguém.
Alfredo Costa estava de pé frente à secretária de Pinto da Costa e quase não acreditou
no que estava a ouvir. Aquela era a confirmação de que o dinheiro tinha mesmo
desaparecido e não pactuou mais com a situação, demitindo-se do seu lugar de
presidente do Conselho Fiscal do clube, ao mesmo tempo que intimava Pinto da Costa a
abandonar a sua empresa.
Alfredo Costa não teve contemplações:
- Recuso-me a trabalhar com gente desonesta. Na minha empresa não posso ter
indivíduos do seu quilate.
Pinto da Costa estava na mó de cima e não ficou muito preocupado com a situação.
Uma grande parte daquele milhão tinha sido investida em várias empresas com ligações
a familiares seus, mas sem o mínimo de capacidade de gestão, e todas acabaram por
falir. O dinheiro fácil nunca é bem gerido, e o clube já estava a pagar as aventuras do
seu presidente.
Mas os fiéis associados pouco se importavam com essas contas. Eles não queriam
saber de gestão, mas de golos, e esses não faltavam. Pinto da Costa e Reinaldo Teles
também sabiam disso e tinham de se organizar no sentido de garantir que esses golos e
essas vitórias nunca haveriam de faltar.
Para deixar a empresa onde trabalhava, Pinto da Costa ainda teve que pagar sete mil
contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos tinha desaparecido
sem deixar rastos e tinha deixado de rastos PC, a contas com a justiça, por cheques
sem cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu
o presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Era nessa área
que se movia como peixe na água, e a modalidade não estava a ser devidamente
explorada. Todos os movimentos foram reprogramados, de forma a que o clube tivesse
uma gestão capaz de alimentar o seu presidente.
Reinaldo Teles acabou por subir na escala do poder no clube. O vice para o futebol
foi afastado, e Reinaldo chegou-se mais ao presidente, ocupando o lugar deixado vago.
A vaidade pessoal de Reinaldo levou-o a abrir mais uma casa de alternos, desta vez
mais chique e refinada. As putas eram de melhor qualidade e o champanhe também.
Pinto da Costa não perdia um strip-tease, e quando lhe agradava, saboreava ao vivo a
estrela do espectáculo. PC sentia-se cada vez mais um Al Capone à portuguesa.
Sempre rodeado de guarda-costas, assumia a pose do gangster e já tratava as
raparigas da forma que um dia vira num filme americano, nos seus tempos de liceu.
Tinham surgido alguns escândalos e alimentava-se a desconfiança em relação à forma
como os dinheiros estavam a ser geridos e distribuídos, mas aos poucos a organização
refinou-se, de forma a não deixar rastos. Luciano D´Onofrio era um gangsterzinho e foi-se
apercebendo da forma pouco cuidada e pouco profissional como os assuntos eram
tratados e em alguns negócios governou-se com mais dinheiro do que aquele que ficara
combinado, e para anular essas fugas, Pinto da Costa resolveu montar uma sociedade
secreta na Suíça para que existisse um maior secretismo. D´Onofrio era uma figura
envolta em algum mistério. Tanto aparecia como, quase por artes mágicas, desaparecia,
o que acontecia normalmente quando se adivinhavam maus momentos. Estas artes de
prestidigitador livraram-no de muitos sarilhos, embora alguns anos mais tarde Luciano
não tivesse conseguido evitar alguns dias de detenção num calabouço suíço, por suposta
ligação a um caso futebolístico que abalou o futebol francês (Olympique Marselha).
PC confiava cegamente no seu amigo Luciano.
- D´Onofrio, vamos legalizar a nossa situação montando uma empresa de compra e
venda de jogadores. No meu clube só você vende e compra todos os atletas, mas
podemos estender o nosso negócio até outros clubes desde que se mantenha segredo
absoluto.
- Está bem , presidente, você é que manda. Um dia ainda há-se ser como o
Berlusconi.
Pinto da Costa não perdeu tempo.
- Vamos já formar essa sociedade, porque tenho um negócio para ser feito já.
Na semana seguinte já estavam os dois na Suíça para legalizarem a empresa de
compra e venda de jogadores.
O seu primeiro negócio foi com um clube francês (Matra Racing de Paris) cujo
Treinador (Artur Jorge) já tinha passado pelo clube de PC.
- Temos de realizar dinheiro, porque as coisas não estão muito boas. As empresas que
tenho montado têm dado uma grande barraca e levam-me o dinheiro todo. Temos o Jorge
Plácido para vender a um clube francês.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e disse com espanto:
- Mas, presidente, esse jogador não tem cotação europeia.
- Não se preocupe com isso, porque quem lá está vai querê-lo.
D´Onofrio, ainda sem acreditar no que ouvia, apesar de toda a sua experiência no
mundo das vigarices, perguntou:
- Como vai ser feito o negócio?
- O nosso clube vende o Plácido à nosso empresa por 60 mil contos e nós vendemo-lo
ao clube francês por 160 mil contos.
- Desses negócios é que eu gosto. Ganhamos mais que o clube.
- Tenho que dar uma volta à minha vida e começar a ganhar dinheiro, porque o que já
perdi não foi pouco. No futebol é que está o nosso grande negócio.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e pensou de imediato em ir um pouco mais
adiante, mas resolveu não falar disso com o presidente. Preferia colocar o problema a
Reinaldo Teles, que era um elemento mais acessível para as situações de ilegalidade.
Logo que pôde, encontrou-se com Reinaldo Teles e convenceu-o a falar com o
presidente.
- Reinaldo, temos um negócio que dá dinheiro que se farta, mas tens de ser tu a falar
disso ao presidente.
Reinaldo olhou-o pensativo, mas lá acabou por se decidir.
- Não venhas com tangas p´ra mim. Diz lá que o que queres que proponha ao
presidente.
- Tenho feito aí uns negócios com cocaína e nem imaginas o lucro que isso dá.
- Estás maluco. Pensas que o presidente vai numa coisa dessas?
- As coisas estão más e é necessário realizar dinheiro. Com a protecção que o futebol
dá, podemos trabalhar à vontade.
Reinaldo Teles convenceu-se de que, de facto, havia alguma razão nas palavras de
Luciano D´Onofrio e comprometeu-se a falar com o presidente sobre o assunto.
Pinto da Costa ouviu atentamente Reinaldo e mandou-o avançar com a ideia, mas ele
queria ficar de fora.
- Resolvam lá isso vocês os dois, mas deixem-me de fora para poder controlar melhor
a situação.
Reinaldo Teles não era burro e ficou desconfiado. Naquele momento não disse nada
mas, passados dias, voltou a falar do assunto.
- O melhor é ficarmos os dois de fora, e eu arranjo alguém para tratar do assunto
directamente com D´Onofrio.
De início, o negócio correu bastante bem, mas passados alguns meses, a polícia
começou a ameaçar com algumas buscas, tendo inclusive ido esperar o autocarro do
clube à portagem dos Carvalhos para o revistar de alto a baixo. Mas nunca encontrou
nada, porque a rede estava bem montada e não faltavam informadores. No entanto,
Pinto da Costa sentiu o perigo que essa situação podia estar a criar e, como tinha
consciência de que inimigos era coisa que não lhe faltava, depois das primeiras prisões
de pessoas ligadas ao grupo que actuava em paralelo com D´Onofrio, deu ordem para se
terminar com o negócio da cocaína que começava a ser vendida um pouco
descaradamente aos próprios jogadores de futebol do FC Porto.
Pinto da Costa não perdia tempo. Não dormia só para pensar. A «coca» garantia
muitas horas de espertina, no fim de contas.
Na Ribeira do Porto, dois homens estão frente a frente, tendo como intermediário um
copo quase a transbordar de vodka. Um deles foi o craque do clube da cidade (Fernando
Gomes). O outro é um jornalista desportivo. Ambos recordam os bons velhos tempos,
quando Pinto da Costa era apenas um elemento de uma equipa que então ganhava sem
precisar de recorrer a meios ilícitos e sem possibilitar o ganho de milhares de contos a
marginais e arrivistas.
O jogador começou a conversa:
- Este mundo é mesmo ingrato.
- A quem o dizes - suspirou o jornalista.
- Parece que estão todos contra mim. Até o teu colega Tavares Telles me vigarizou em
mil contos. Disse que ia escrever o livro da minha vida, pediu o adiantamento e o livro
foi um ar que se lhe deu...
- Que é que se há-de fazer? Este mundo do futebol é mesmo assim. Também não te
despediram do clube sob o argumento de que tinhas faltado ao jantar?
- Essa é que foi... Deus do céu, só de pensar o quanto eu gosto daquele clube! Mas
esse moço de recados, o Octávio, vai ter um bonito funeral.
- Não acredites nisso - retorquiu o jornalista, baixando o tom, pois acabara de entrar
no bar um elemento que não conseguiu identificar - o tipo sabe enganá-los com falinhas
mansas. Sabes que com todo o dinheiro que tem ainda está a dever mil paus ao director
do meu jornal, uma coisa dos tempos de Coimbra?
- Vou sair do futebol - anunciou o craque, após uma longa pausa - Este mundo não
vale a pena: só os vigaristas, os bruxos e os indigentes é que têm futuro. E não vale a
pena metê-los todos num convento, um a um, pois rapidamente iriam acabar por
convencer os próprios santos. Bah!, que se lixem esses gajos...
- Tem fé, amigo, pois vão acabar por cair de podres.
Mas Fernando Gomes, o craque, não estava num dia positivo. Fechou os olhos e por
momentos recordou os golos que marcou, viu-se de braços no ar, os cabelos molhados,
correndo para os adeptos, subindo a rede, abraçando o presidente e pensando que o
mundo se resumia ao estádio.
- Lembras-te quando disseste que a sensação de marcar um golo era superior à de um
orgasmo? - perguntou o jornalista, quebrando um silêncio apenas embalado por uma
música do Rui Veloso que se ouvia em fundo.
Fernando Gomes desfiou as suas mágoas, num lamento-monólogo que foi subindo de
tom:
- Já sei que não sou um génio; nem acabei o curso dos liceus, mas não sou como
aquela besta do «capitão» (João Pinto), que ia para os estágios sempre com o mesmo
livro, continuando a ler no local que nós íamos marcando, ora mais adiante ora mais
para trás. Mas corri um pouco o mundo, leio os jornais e não me dou com a ralé. Até
dizem que tenho voz radiofónica e quem sabe se não poderei ser um dia um grande
comentador desportivo. Ah, mas o meu sonho, o meu grande sonho, é ser presidente do
clube, isso sim, isso iria encher-me as medidas! Eu sei, eu sei, não digas nada, já sei que
só depois de o homem morrer é que terei algumas hipóteses. Mas ele não vai morrer tão
cedo. Não sei como, mas conseguiu a protecção da Nossa Senhora de Fátima. Sim, da
Nossa Senhora de Fátima. O cabrão! Só a mim é que ela não aparece...
Fernando estava inconsolável:
- Não lhe vou perdoar nunca o facto de me ter obrigado a acabar a carreira noutro
clube, logo eu, o símbolo daquele emblema, a sua imagem de marca, o primeiro a dar-lhe
algum dinheirinho para o bolso e o favorito do Pedroto.
Aqui Fernando teve uma ideia:
- Ouve lá, e se eu lançasse uma campanha para dar o nome de Pedroto ao nosso
estádio?
A ideia nasceu ali, naquele momento, mas no mesmo dia, PC teve dela conhecimento.
Vão ter que esperar sentados! - rugiu, sem conseguir esconder que lhe estavam a tentar
cravar um espinho na pata.
A ideia nasceu, foi regada e germinou. Numa noite de Inverno, foi mesmo debatida e
aplaudida num colóquio que se realizou nos arredores da cidade do Porto. Os jornais
fizeram eco do acontecimento, mas nenhum jornalista ousou perguntar a PC o que
pensava da ideia. PC evitou sempre a pergunta, na certeza de que o assunto acabaria por
ficar esquecido.
- O Pedroto já lá tem uma lápide, não precisa de mais homenagens e, c´um raio, se ele
merece o nome no estádio, o que é que eu não mereço? - interrogou PC os botões do seu
novo fato príncipe-de-Gales.
Joaquim Teixeira) foi um jogador muito discreto. O melhor que conseguia era de quando em quando, partir a perna ao melhor jogador da equipa contrária. Para compensar a falta de talento, tomava mais duas pastilhas que as aconselháveis e injectava-se por conta própria, ao ponto de um dia, o médico do clube o ter aconselhado a parar com aquilo, pelo menos, durante 24 horas, sob o risco de bater a bota. Teixeira era tão ambicioso como tosco. É certo que acabou a carreira aos 30 anos e com a calvície a pronunciar-se, mas terminou-a em beleza: com uma boa conta bancária e um chorudo cheque por ter derrubado um adversário na área de rigor, proporcionando uma grande penalidade que salvou a equipa contrária da descida de divisão. O lance não causou qualquer tipo de suspeitas, pois o Teixeira era mesma assim - às vezes acertava, outras não.
Mas a história de Teixeira pouca relevância teria na história da vida de Pinto da
Costa, se o primeiro não acabasse por se tornar um grande amigo do segundo, depois de
ser apresentado por António Oliveira. Rapidamente se gerou ali alguma cumplicidade,
não faltando a adorná-la o habitual naipe de mulheres da vida, desde a classe de
iniciadas até às seniores em fim de carreira. Para ajudar, o País vivia uma ascensão
económica que tinha os dias mais ou menos contados, mas que iria ser boa enquanto
durasse.
Com o Teixeira a controlar as miúdas e o António Oliveira a dar a táctica, PC tinha a
vida nocturna que queria, mas, ao contrário de Reinaldo, continuava muito agarrado ao
dinheiro, não o arriscando na roleta. Esta última acabou por se revelar a desgraça de
Reinaldo, que aí foi deixando largas centenas de contos, proporcionando também a um
conhecido jornalista algumas jogadas de risco, em especial quando a equipa se
deslocava à Madeira. Sempre adiantados dois passos em relação aos restantes, António
Oliveira foi-se afastando do grupo, mas nunca se desligou. Joaquim Teixeira, entretanto, leu dois livros policiais e começou a falar como um doutor, deixando de ser adjunto do António - então um treinador de mediano sucesso - para se tornar técnico principal. O
conhecimento que tinha da arte das pastilhas acabou por se aliar a um feeling muito
especial e, rapidamente, enquanto ia esvaziando o stock de uma farmácia próxima de
Paredes, conheceu o sucesso.
- O futebol é um espanto. Ainda ontem estava a queimar o couro no pelados e hoje
eis-me a fumar um charuto e a dar bitaites para os jornais! - dizia Teixeira para a
mulher, enquanto apreciava as miúdas que se passeavam no areal de Cancún, onde uma
conhecida apresentadora de televisão fazia discretamente amor com dois jovens craques
que nesse ano tinham surgido na ribalta.
- Chegou a hora de começar a apanhar peixe graúdo, pois estou farto de andar aos
figos! - desabafou, longe de saber que nesse momento, PC tinha engendrado mais um
plano diabólico.
O plano era simples e partia do seguinte pressuposto: no futebol, nem só os jogadores
são a mercadoria: há que contar também com o treinador.
- E os treinadores, Reinaldo, é que marcam golos ou os permitem! - referiu PC,
merecendo o assentimento de Reinaldo.
- Vai ser canja - continuou o presidente. Fulano precisa de clube, e nós arranjamos
esse clube, a quem damos a garantia de que, com aquele treinador, é que a equipa não
desce; não sendo preciso dizer mais nada, eles ficam logo a saber que nós seremos os
anjos-da-guarda.
- E o que é que nós vamos ganhar com isso, presidente?
- Tudo. Começamos por ganhar nos treinadores, que nos vendem a alma para o que
for preciso. Depois, ganhamos com os clubes que os contratam, que também nos ficam
a dever favores. Mas não é tudo. Para além de eventuais comissões que virão
directamente para os nossos bolsos, os bons jogadores que aparecerem nesses clubes
ficam garantidos para o nosso lado e aqueles que forem excedentários do nosso plantel
podem ir asilar para esses clubes, o que nos desobriga logo de lhes pagar os ordenados.
Isto é o ovo de Colombo.
- De quem?
- De Colombo, do tipo que descobriu a América. Não julgues que também ele não
enganou os Espanhóis. No fundo, era de Génova. O Cristovão...
- Quem? O da televisão?
- Não, burro, o Cristovão Colombo, e repara que até ele se enganou, pois pensava que
estava a descobrir o caminho para Índia quando descobriu a América. Foi o que me
disse a Nancy, a nova, aquela que trabalhava num videoclube...
- E que tal?
- Para o Colombo não correu mal...
- Não presidente, que tal a Nancy?
- Ah, a Nancy!...boa, sabe aquelas coisas dos filmes...
- ...o beijo pressionado?!
- Qual beijo pressionado, qual quê! Aquelas coisas mais complicadas. Mas não
desconversemos. Quero que fique assente que a partir de hoje temos de formar um
lobby...
- Ó chefe, mas isso compra-se com dólares ou com pesetas?!...
- Calado - prosseguiu, já algo irritado, Pinto da Costa. Vai ser assim: andam por aí
uns rapazes com talento, alguns até foram nossos jogadores, mas os clubes são mais que
muitos e as melhores oportunidades normalmente são dadas aos treinadores
estrangeiros. Vamos acabar com isso. A nossa garantia vai abrir os olhos aos clubes,
que passarão a perguntar-nos que treinador é que podem contratar. Nós é que o
escolhemos, percebes? Mas o rapaz que for escolhido já sabe que nos deve não um, mas
muitos favores, entendes? Para além de passarmos a controlar o que já sabes, ficamos
também com a certeza de que eles farão tudo para derrotar os nossos adversários
directos, enquanto que nos jogos com a nossa equipa!... percebeste agora?
- Mas, ó presidente, isso é genial!
- Claro...
O plano foi posto em marcha logo nessa temporada, tendo como cabeça de fila o
Joaquim Teixeira, também conhecido por «Fixe». Os clubes da região caíram nas palminhas de PC, só um deles desceu por manifesto azar, e os adversários directos, por norma, tramaram-se nas deslocações aos terrenos das equipas controladas. Como se tal não
bastasse, PC foi pedindo alguns adiantamentos ao longo da época aos presidentes mais
abonados, que ficavam satisfeitos só pelo facto de surgirem ao lado de PC ante as
câmaras dos repórteres-fotográficos. Um deles, o Manuel Lopes Rodrigues, até se deu
ao luxo de reunir na sua quinta os mais ricos empresários da região, com estes, a troco
de um galhardete autografado, a entregarem nas mãos de PC uma generosa quantia
«para ajudar o clube mais representativo da região».

Na altura, alguns jornalistas ainda tentaram investigar uma história que podia ser o fio
da meada ou o fim da picada. Era a história de um jogador belga (Cadorin) que, nos
minutos finais de um jogo no estádio do clube grande, entrou em campo, ao que se
supõe, apenas para, na sua área, provocar uma grande penalidade, jogando a bola com a
mão e dando assim a possibilidade à equipa da casa de vencer o jogo e não se atrapalhar
na corrida para o título. O jogador desapareceu de circulação, e a última vez que foi
visto foi a fazer compras em Roterdão, supondo-se que hoje vive desafogadamente
numa quinta dos arredores de Liège, onde todos os anos, pelo Natal, recebe um peru
com uma mensagem de PC.
E o Teixeira? De subida em subida, foi até onde pôde. Depois, claro, já não podia
subir mais. PC tinha encontrado um livro num caixote cujo autor era um tal doutor
Peter, defensor dos princípios de competência.
- Reinaldo, isto é assim: tu só és competente até determinado nível; se o
ultrapassares, passar a ser um incompetente, percebes?
Reinaldo mais uma vez não percebeu bem, pois, como ele mesmo dizia, tinha uma
cabeça que trabalhava a «carvão».
- O Teixeira é bom nestas coisas. Quanto muito, posso arranjar maneira de o pôr a
treinar a selecção de sub-12, se é que isso o realiza. Mais é que não. Fica onde está e
caladinho, e isto é se quer continuar a passar férias a Cancún.
O Teixeira concordou, apenas com um pedido. No final da próxima época, preferia ir de
férias para as Seychelles!
O bar de Reinaldo começou a ser ponto de encontro para aqueles que queriam
usufruir dos favores da arbitragem. Dirigentes e árbitros encontravam-se assiduamente
no local, mas nunca tinham um contacto directo, uma situação que foi sempre muito
bem controlada, para que não houvesse fugas de informação, tanto em relação a favores
como aos preços estipulados.
Lentamente, foi criada uma bem organizada rede de corrupção na arbitragem gerida,
por cima, por Reinaldo Teles, contando este com um assistente directo: Jorge Gomes.
Os árbitros das mais variadas regiões, logo que pisavam o chão da cidade, iam de
imediato ao encontro de Reinaldo. Não pediam nada, e muito menos ofereciam qualquer
tipo de favor; aguardavam antes, pacientemente, por uma abordagem. No início,
estabeleceu-se uma certa confusão promíscua no negócio, e esta situação não era a mais
aconselhável. As pessoas começavam a falar de mais, pois já nada passava
despercebido, e Reinaldo Teles teve de reorganizar o negócio, colocando as cartas na
mesa de Pinto da Costa.
- Eles parecem moscas a cair no meu bar. A coisa já está a dar muita bronca.
- Que coisa?
- Aquele negócio dos árbitros. Começou a insinuar-se que eu era capaz de resolver
tudo, e os gajos não me largam. São os dirigentes de um lado e os árbitros do outro.
Nunca pensei que esta situação pudesse atingir este nível. Uns só querem vitórias; e os
outros, dinheiro...
- Deixa lá. Ao menos, fica toda a gente satisfeita. Esse negócio tem de começar a ser
gerido de uma forma mais segura. Isso vai dar muito dinheiro, mas é necessário saber
fazer as coisas. Roma e Pavia não se fizeram num dia.
Estava dado o mote para o arranque de uma organização mais capaz e eficiente, e o
plano foi colocado em marcha. Havia receptividade de parte a parte e isso já era um
bom avanço. O tempo em que o clube gastava dinheiro para controlar algumas
arbitragens já tinha passado. Os árbitros sabiam exactamente onde estava o poder e
como se chegar a ele, e se em paralelo se podia ganhar dinheiro, muito melhor.
Pinto da Costa estava consciente de que todos o temiam. Não tinha o mínimo de
pruridos quando queria esmagar um inimigo. Não fazia ameaças, mas os que se
mostrassem contra o seu poder podiam ter a certeza de que obteriam uma resposta de
acordo com a situação e sem qualquer tipo de contemplações. Perante tal quadro, era
muito mais proveitoso estar ligado a Reinaldo Teles. Para além do dinheiro que podiam
ganhar, tinham toda a cobertura possível dentro do Conselho de Arbitragem, área onde
Pinto da Costa e os seus pares se moviam com bastante à-vontade, contando com a
colaboração de um presidente da sua inteira confiança. Pinto da Costa gostava de
evidenciar de uma forma discreta esse poder. Era uma forma de fazer saber que quem
mandava era ele. Quem estivesse sob a sua protecção tinha as melhores nomeações e as
melhores classificações. E protegia quem se aliasse a ele, incentivando a aproximação
dos mais indecisos.

PC queria uma organização perfeita e o controlo absoluto sobre todas as situações. Mas
os jornalistas eram indiscretos e perigosos para o negócio. Não era muito saudável que
se levantassem muitas suspeitas, e esse sector tinha também de começar a ser muito
bem controlado. Pinto da Costa sabia insinuar-se e cativar. Quando lhe convinha,
promovia encontros com directores de jornais e, de uma forma desinteressada,
começava a gabar-lhes os feitos e o trabalho. Incentivados pela guerra estabelecida pela
concorrência e sabendo que quem obtivesse maior número de informações junto dos
grandes clubes era quem mais vendia, ninguém se negava a esses encontros. Era
impossível, porém, controlar toda a gente e, através de algumas acções de intimidação,
estabeleceu-se um clima de medo para os que teimavam em mostrar-se independentes.
Normalmente às quartas-feiras, o presidente reunia-se com os jagunços e indicava-lhes
qual o jornalista que tinha de ser encostado e insultado. Nos dias dos jogos, os
capangas passeavam livremente pelo camarote da Imprensa e, através de insultos e
ameaças, exerciam uma tremenda pressão sobre alguns jornalistas. A intenção era clara:
promover o medo e o consequente silêncio. Durante a semana, quem tivesse o
atrevimento de não analisar uma situação conforme lhes convinha podia ter a certeza
que tinha à sua espera na primeira oportunidade alguém com o seu jornal na mão a
ameaçar que o fazia engolir aquele pedaço de papel.
Pinto da Costa era mestre na política da divisão, e ao longo dos tempos foi criando
divisões entre os jornalistas, porque tinha consciência do perigo que representavam
quando todos se resolvessem unir e impor os seus direitos. A organização era-lhe
favorável, e ele sabia como jogar todos os seus trunfos. Um negócios implantado no
seio da arbitragem era exactamente aquilo que lhe faltava. A Olivedesportos e a agência
de viagens Cosmos estavam a facturar como nunca. Tinha conseguido vários
exclusivos que lhe permitiam efectuar o mais variado tipo de operações,
sobrefacturando sem medo de poder ser contestado. Tinha o presidente federativo na
mão, e até nem foi muito difícil conseguir isso. Dava-lhe gozo colocar os da capital a
trabalhar para a sua organização. Um cartão de crédito sem limite e umas viagens
oferecidas ao casal que comandava as operações federativas bastaram para que pudesse
facturar alguns milhões. Pinto da Costa estava adiantado em relação a todos os outros.
Já há muito que tinha entendido que o futebol era a indústria que mais rendia em 90
minutos.
Mas PC não era infalível. Também cometia os seus erros. Quando, através do agora
grande amigo e sócio camuflado, Joaquim Oliveira, ofereceu um cartão de crédito sem
limite ao federativo e à sua mulher, nunca lhe passou pela cabeça que a mulher deste,
numa das viagens da nossa selecção, se lembrasse de utilizar o respectivo cartão em
compras pessoais, gastando quase dois mil contos. O cartão foi de imediato cancelado.
Numa viagem ao Luxemburgo, onde o clube de PC foi disputar um jogo particular, um emigrante português, que se dedicava à pintura de automóveis e também fazia uma perninha como empresário de jogadores de futebol, conseguiu criar uma grande amizade com PC e Reinaldo. O indivíduo tinha boa pinta e falava várias línguas.
Era inteligente e mostrou-se conhecedor do ramo. E como era necessário preencher a
vaga de Luciano D´Onofrio, a solução estava mesmo ali à mão. José Veiga tinha todos
os predicados para entrar na organização e, num ápice, apareceu em Portugal como
sócio de Joaquim Oliveira. Grandes jogadores começaram a passar pela sua mão.
Ganhou prestígio, mas a sua ligação aos Oliveira limitava a sua acção.

PC estabeleceu então uma nova estratégia:
- O José Veiga tem-se mostrado competente e capaz. Tem-nos dado muito dinheiro a
ganhar, mas está na hora de se desfazer a sociedade.
Joaquim Oliveira não entendeu onde o presidente queria chegar e não hesitou em
perguntar:
- Mas não estou a entender. Se ele nos está a dar bom dinheiro, porque é que vamos
desfazer a sociedade?
Então explicou o seu plano:
- Se desligarmos o José Veiga da nossa organização, simulando um desentendimento,
ele fica mais livre para poder trabalhar com outros clubes, nomeadamente com os
nossos maiores adversários. Com esta acção, para além dos lucros que daí podemos
retirar, ficamos com a possibilidade de minar os nossos adversários por dentro. Ficamos
com o campo livre para lhes vendermos jogadores com rótulo dourado, mas fora de
prazo, e também podemos vender os seus melhores jogadores para clubes estrangeiros,
criando, assim, focos de instabilidade ao mesmo tempo que se lhes diminui a força.
Joaquim Oliveira nem queria acreditar no que ouvia. Aquele homem era de facto um
manancial de inteligência. Dois dias depois, estava desfeita a sociedade e, tal como fora
previsto, José Veiga tornou-se num dos empresários mais conceituados da nossa praça.
Mas a completa organização do sector da arbitragem era o negócio que agora fazia
perder mais tempo a PC. Reinaldo Teles tinha descoberto o ovo de Colombo e revelado
jeito para controlar a situação.
Com um tiro podia matar com facilidade dois coelhos. O seu clube não tinha dinheiro
para andar a gastar em arbitragens, e a sua política nunca foi a de gastar, mas sim a de
cobrar. Toda a gente sabia que ele não era homem endinheirado, e alguns dos que, nos
primeiros anos, ainda ajudaram o clube quando se tornou necessário, agora fugiam a
essa situação, porque se sentiam traídos com os negócios efectuados por PC. Era a velha
filosofia de que era possível enganar toda a gente durante muito tempo, mas não
sempre. Como gostava de dizer, «não corre mais o que caminha, mas sim o que mais
imagina». Por isso, tornava-se necessário pensar sempre em novas estratégias.
Quem emprestava dinheiro queria garantias, e o clube ia ficando hipotecado a essas
situações, perdendo algum património sem que ninguém levantasse a voz para travar
esse tipo de situações. Pinto da Costa sentia-se inatingível. Estava acima do poder e até
o desafiava, sem ser punido por isso. Tinha a força do seu clube por trás. As vitórias, os
golos e as alegrias. Tudo era feito em nome do futebol.
Pinto da Costa sabia que tinha muitos inimigos, e não podia falhar dentro do relvado.
O controlo sobre árbitros era a solução que mais garantias dava para que se continuasse
a somar títulos, e Reinaldo Teles tinha a solução na mão, sem gastar dinheiro com isso,
muito pelo contrário, ganhando milhares. Reinaldo limitou-se a deixar germinar o
negócio. Não era necessário movimentar-se. As pessoas vinham ter com ele para
estabelecer o primeiro contacto. Já não se negociava com prendas, mas com dinheiro
vivo. Foi mesmo estabelecida uma tabela, mas Jorge Gomes não estava muito de
acordo.
- Isso das tabelas não tem jeito nenhum. Os jogos têm de valer pela importância que
têm.
- És capaz de ter razão, mas aqui no bar está a dar muita barraca. Temos de falar
com o presidente.
Pinto da Costa já se tinha apercebido da situação e também não andava muito
satisfeito com a exposição pública. Havia que evitar um devassa que, de dia para dia, se
tornava mais fácil de empreender, principalmente da parte dos inimigos do costume. Ele
mesmo era cliente assíduo do bar e não queria ser visto no local na companhia de
árbitros e muito menos envolver-se directamente no negócio.
- Vamos «lavar» a imagem que está a passar lá fora. Esta situação tem que ser
alterada. Muito embora utilizes o teu bar para o primeiro contacto, combinas depois os
encontros para o restaurante do teu primo. O local é mais decente, menos visto, e não é
tão frequentado por gente do futebol. E sempre tem ao lado um bom jardim que dará
sempre para meditar um bocadito...
- Também acho que essa é a posição mais acertada. Vamos mudar isto, e já -
concordou Reinaldo.
Com uma organização mais eficiente, Reinaldo Teles elaborou uma carteira de
árbitros seleccionados por preços, acessibilidade, categoria e forma de actuar. O prémio
de cada favor era estabelecido conforme a importância do jogo, e de início, Reinaldo
cobrava apenas um terço do estabelecido, mas, mais tarde, quando verificou que os seus
favores eram cada vez mais requisitados, passou a cobrar 50 por cento.
Ninguém discutia preços nem duvidava do empenhamento de Reinaldo Teles, que
sempre que lhe era possível marcava a presença no jogo onde estabelecera o seu melhor
negócio.
Mas o volume de pedidos cresceu tanto, que Jorge Gomes começou a ser mais
requisitado, entrando no negócio a todo o vapor. Enquanto Reinaldo assumia os seus
compromissos e as suas responsabilidades no negócio, Jorge Gomes estava mais virado
para o lucro fácil. Fazia-se intermediário, cobrava a respectiva verba e nem sempre os
árbitros viam a fracção combinada, o que dava origem a alguns protestos rapidamente
silenciados com as ameaças do costume.
Jorge Gomes foi mais longe. Com a ambição de ganhar tudo, a maior parte das vezes
nem sequer falava com os árbitros e esperava simplesmente que os resultados fossem
favoráveis para ficar com a respectiva verba. O negócio até era muito mais rentável na
2ª Divisão. Os jogos eram menos vistos, os árbitros estavam menos expostos e toda a
gente queria subir. Foi num negócio entre duas equipas da 2ª Divisão que Jorge Gomes
foi pela primeira vez desmascarado nas suas vigarices.
O árbitro era alentejano, mas tinha um compadre no Porto, proprietário de um
restaurante. O lugar era típico e até se cantava lá o fado. Um representante de um dos
clubes foi falar com o dono desse restaurante, levando uma proposta em carteira.
- Sabemos que és compadre do João Cravo, e ele vem apitar, no domingo. Não
podemos perder. Tens de nos ajudar.
- Está bem, eu falo com o homem.
- Quanto é que achas que lhe podemos dar?
- Mil contitos, mas 200 são para mim.
- Tudo combinado. Trata do negócio.
Passados poucos dias, o mesmo elemento desse clube surgiu no restaurante do
compadre de João Cravo para lhe dizer:
- Não trates de nada, porque o meu vice e o meu presidente foram falar com o
Reinaldo Teles, e ele garantiu que tratava do assunto todo. Para tratar disso, já ficou lá
com dois mil contos.
- Mas eu resolvia isso com mil.
- Oh, pá, nem me quero meter nessa merda! Mandaram-me falar contigo e foram ao
bar do gajo e ele sacou-lhes dois mil contos. Fiquei bera com isso e obriguei-os a
prometerem-me que os teus 200 contos estão garantidos.
- Tudo bem, não há problema. O Reinaldo que me telefone que eu trato do encontro.
O homem vem de véspera e janta no meu restaurante.
Na véspera do tal jantar, Jorge Gomes telefonou ao dono do restaurante e combinou o
encontro com o árbitro. Quando este chegou, foi logo posto ao corrente do que se estava
a passar e esperou até quase de madrugada por Jorge Gomes. Como esta não aparecia,
acabaram por desistir, embora mantendo a esperança de que ele telefonasse. Mas até à
hora do jogo... nem um telefonema nem uma palavra.
O clube que entregou os dois mil contos a Reinaldo ganhou, mas sem qualquer
interferência do árbitro. No final, de regresso ao restaurante do seu compadre, o árbitro
voltou a falar no assunto.
- O Jorge Gomes não me ligou nem disse nada.
- São uns filhos da puta. Ficaram com os dois mil contos e nem sequer se dignaram a
falar comigo. Esses gajos são burros como portas. Andam a dar dinheiro a esses chulos.
De facto, os dois mil contos ficaram na posse da organização de Reinaldo, sem que
este tivesse o mínimo trabalho ou interferência no desenrolara do jogo. E o dono do
restaurante nunca mais viu os tais 200 contos.
Jorge Gomes sabia jogar com a situação e tinha consciência de que, como não se
podia falar abertamente destes negócios, dificilmente se descobriria este tipo de
vigarice.
Uma outra vez, no final de um jogo em que o árbitro foi um internacional nortenho, o
presidente do clube que venceu acompanhou, no final da partida, esse árbitro ao seu
automóvel e pelo caminho disse-lhe abertamente:
- O Jorge Gomes já falou consigo?
- Comigo? Não. Porquê?
- Eu dei-lhes três mil contos para si e ele garantiu-me que já lhos tinha dado.
De súbito, começou a chover e, no momento em que o presidente desse clube saltava
um charco de água e abria o guarda-chuva para abrigar o árbitro, ambos verificaram que
Jorge Gomes, embrulhado numa gabardina, se dirigia a eles.
O árbitro não hesitou, e mesmo ali agarrou-o pelos colarinhos, enquanto lhe dizia:
- Ó meu filho da puta, andas a governar-te à minha custa!
- Tem calma, eu vinha agora trazer-te o dinheiro.
O presidente resolveu então intervir, para evitar que aquilo se transformasse num
escândalo.
- Tenham calma. Vamos resolver isso civilizadamente. Você ainda me disse ontem
que já tinha dado os três mil contos a este homem.
- É que ainda não tive oportunidade de o encontrar.
- Tem aí o dinheiro? - perguntou o presidente.
- Não.
- Então avise o Reinaldo Teles que amanhã vou ao bar dele e se não me devolverem
os três mil contos, armo um escândalo que nem vos passa pela cabeça.
Foram muitos os casos como este. Jorge Gomes estava a comprometer o negócio com
as suas vigarices, mas o certo é que Reinaldo lhe aparava todos os golpes, e PC
começou a desconfiar que eles estavam feitos, muito embora não revelasse o facto para
não perder a confiança de Reinaldo, muito menos agora, que ele lhe tinha apresentado a
Maria. Uma rapariga por quem se estava a apaixonar e para a qual até arranjou um
emprego no clube.
Semanalmente, eram muitos os milhares de contos que se movimentavam em
negócios com os árbitros. Reinaldo Teles e Jorge Gomes já evidenciavam sinais
exteriores de riqueza. Os negócios eram realizados em dinheiro vivo, mas, quando isso
não acontecia, também não havia problema para controlar a situação e não deixar
vestígios. Reinaldo recebia os cheques, trocava-os no casino, levantava dinheiro na
troca de fichas e entregava em dinheiro aos árbitros. Não deixava qualquer tipo de vestígio.
No entanto, esta situação levou-o a viciar-se no jogo. Com alguns montes de fichas
na mão, começou a não resistir à tentação de arriscar algum na roleta e perdeu muitas
centenas de contos. Jorge Gomes não gostou da situação e por diversas
vezes tentou fazer com que o seu amigo deixasse o jogo.
- Não gastes dinheiro nessa merda. Não vês que ninguém ganha, e quando ganha, no
dia seguinte deixa-se o dobro.
- Deixa lá. Isto dá-me gozo, e o dinheiro é dos camelos. Eu controlo a situação.
Posto isto, apostou tudo o que tinha no preto. E ganhou.
- O que é que eu te dizia, Jorge?...

Pinto da Costa e Reinaldo Teles tinham encontrado nos escalões inferiores as suas
melhores fontes de receita nas negociatas directamente relacionadas com processos de
corrupção na arbitragem. O nível dos dirigentes era mais baixo, e a vaidade dos
endinheirados empresários que procuravam o futebol para evidenciarem a sua posição
social estava a ser soberbamente explorada.
Pinto da Costa esfregava as mãos.
- Como é fácil ganhar dinheiro no futebol. Quando assumi a presidência do clube,
nunca imaginei poder chegar a esta situação e ganhar tanto dinheiro.
- Mas, desta vez, veja lá se tem mais cuidado com os investimentos que faz. Siga o
meu exemplo; gasto algum no jogo, mas estou sempre bem de vida - juntava Reinaldo
Teles, sempre prudente.
- Isso não é de admirar. O teu negócio dá sempre. Agora estás a ver-me a gerir uma
casa de putas? Toda a gente me caía em cima.
- Não é bem assim. Vejam o meu exemplo. Não é segredo para ninguém que sempre
vivi à custa da prostituição. Sim, porque não tenho as gajas para andarem a fazer
cócegas aos clientes e eu não ganhar nenhum. Ninguém vai ao meu bar beber um copo
porque o whisky de lá é muito bom ou a música óptima.
- Nisso tens razão. A maior parte do whisky que lá vendes até está marado! Só
mesmo as gajas é que são boas. Por falar nisso, já há muito tempo que não me
apresentas uma novidade.
- E a Maria?
- Adoro aquela gaja. Pelo menos agora tenho-a junto a mim mais tempo e sem
ninguém desconfiar de nada. Mas isso não quer dizer que não vá provando uma
daquelas novidades que vão aparecendo.
- Estou à espera aí de umas gajas novas que vêm da Rússia e hei-de arranjar-lhe
alguma coisa. Mas, voltando à conversa anterior, não concordo muito consigo quando
me diz que ter um bar de alternos é mau e que não dá prestígio. Você é testemunha de
que esses gajos todos não me largam e estão fartos de dizer que sou um tipo porreiro.
Até me querem fazer uma festa de homenagem. Não vê, nas viagens ao estrangeiro que
fazemos com o clube, as mulheres deles a juntarem-se à minha sem qualquer tipo de
preconceito?! Toda a gente sabe que é a minha mulher que gere as putas, que lida com
elas todos os dias e, sabe uma coisa: mulheres dos nossos vices e de alguns dos
acompanhantes que habitualmente nos seguem, fizeram-se grandes amigas dela e
algumas até puxam conversa para saberem como é o ambiente no bar. Isto é um mundo
de hipocrisia, e o que é necessário é saber viver nele.
- Então eu não sei disso!? Eu levo muitas vezes a tua mulher aos jantares que os
clubes estrangeiros nos oferecem, enquanto tu ficas com os jogadores.
- Bem, mas aí eles não conhecem a Luísa. E ela até tem boa pinta.
Pinto da Costa ouviu o telefone tocar, levantou-se do maple onde estava sentado e foi
atendê-lo na sua secretária.
- Tudo bem, obrigado.
Após uma curta pausa para ouvir o seu interlocutor, PC puxou uma folha de papel e
escreveu um nome.
- Já sabia que ele nos ia nomear esse árbitro. Fui eu que lho pedi pessoalmente. Sabe,
o jogo é importante e não podemos arriscar... OK! Até logo e obrigado. Era o Adriano
Pinto - disse PC.
- Ele está a ajudar-nos bastante.
- Que remédio ele tem. Se não fosse assim, tirava-lhe o tapete.
- Mas ele ajudou-nos bastante no início e pode ajudar-nos ainda mais.
- Sei perfeitamente que tenho aprendido muito com ele. No início, foi o Adriano que
me abriu os olhos e me ensinou que caminhos devia percorrer para ganhar os títulos que
ganhámos. Mas agora quem manda no futebol sou eu. A força está do nosso lado, e se
ele não fizer o que mandamos, não tenhas dúvida que lhe tiro o tapete, e ele sabe disso.
Reinaldo Teles lembrou-se do quanto Adriano Pinto era importante em toda a
estratégia estabelecida. Só a sua amizade já era bom para o negócio que começou a ser
montado.
Pinto da Costa tinha uma visão extraordinária em relação ao futuro e começou a urdir
a sua organização. Reinaldo Teles e Jorge Gomes continuavam a dar todo o apoio nos
negócios com os árbitros, apostando na ajuda a clubes de escalões inferiores. Com esta
acção, iam ganhando algumas centenas de contos semanalmente e tinham cada vez mais
os árbitros na mão, não sendo necessário, por isso, gastar nem um tostão quando esses
árbitros viessem apitar o seu clube.
Entrava-se num ciclo vicioso. Os árbitros ficavam de tal forma hipotecados a
Reinaldo Teles que, quando fossem nomeados para os jogos com o seu clube, não
tinham força moral para o trair e nem sequer era necessário comprá-los. Mas nem tudo
corria da melhor forma, e Reinaldo teve consciência de que não dominava o sector
conforme julgava, quando, por diversas vezes, saiu derrotado em acções por ele
desenvolvidas.
Em 1992, na última jornada do campeonato da 2ª Divisão, Reinaldo Teles foi
contactado no seu bar por um clube que tinha hipóteses de subir de escalão e que ia
jogar com outro que se não ganhasse seria despromovido. O negócio ficou acertado,
comprometendo-se Reinaldo a entregar ao árbitro três mil contos, garantindo outro tanto
para si. O árbitro era da capital e, depois de contactado num dos grandes hotéis da
cidade por Jorge Gomes e Reinaldo, comprometeu-se a fazer o frete e a ir receber a
verba combinada no domingo à noite ao restaurante do primo de Reinaldo.
O clube protegido por Reinaldo era o visitante, e ao intervalo já estava a ganhar por
3-0 com uma arbitragem verdadeiramente escandalosa. A ameaça de invasão de campo
estava iminente, mas nem isso assustou o árbitro da partida. Mas, perante tal situação, o
presidente do clube visitado, sabendo que o negócio tinha sido feito por Reinaldo e
conhecendo o montante da verba combinada, no interregno da partida entrou na cabina
do árbitro e, com o descaramento que provinha do desespero, fez directamente a sua
proposta ao árbitro e fiscais de linha.
- Sabemos que Reinaldo Teles vos ofereceu três mil contos e vocês podem sair daqui
mortos.
Retirando uma pequena pasta de debaixo do braço, puxou de um grande maço de notas,
colocou-o em cima da mesa que estava na cabina do árbitro e apostou forte quando
disse:
- Estão aqui cinco mil contos e queremos ganhar. A vossa protecção está garantida.
Saiu da cabina do árbitro e esperou pacientemente pelos últimos 45 minutos. O
inevitável acabou por acontecer: o árbitro deu de tal forma a volta à situação, que o jogo
terminou com um resultado de 4-3.
Reinaldo Teles tinha sido derrotado na sua estratégia e prometeu vingança ao árbitro.
O certo é que esse árbitro abandonou o ofício mesmo antes de atingir o limite de idade.
Reinaldo Teles sabia que tinha de ser duro na sua acção para não perder o controlo da
situação, e Pinto da Costa avisou-o muitas vezes.
- É necessário ser duro e inflexível.
Ambos se recordavam bem de um caso passado uns anos antes com um árbitro
algarvio que foi apanhado com a «boca na botija».
Desde que tinha sido promovido ao primeiro escalão, Francisco Silva revelou uma
grande ambição pelo dinheiro, aceitando negociar sempre que possível com Reinaldo
Teles. Mas depressa verificou que era ele quem dava a cara e sofria a consequência dos
escândalos a que ficava obrigado.
Reinaldo ganhava tanto como ele e, por vezes, até mais. Este árbitro tinha falado
várias vezes com os presidentes dos clubes que favorecia, e eles acabavam por confessar
quanto tinham dado a Reinaldo ou a Jorge Gomes. Achou que aquilo era uma
exploração e resolveu actuar por conta própria.
Pinto da Costa teve conhecimento da situação e avisou Reinaldo Teles do perigo que
aquela atitude constituía.
- Vamos tratar da saúde desse gajo, para que não haja mais fugas. Quando souberes
de um contacto directo, avisa-me que eu trato do resto.
Reinaldo Teles assentou com a cabeça em sinal de concordância e saiu do gabinete do
presidente a pensar na forma como deveria actuar.
Jorge Gomes estava à espera dele e, depois de discutirem o assunto, não teve
contemplações.
- Vamos fodê-lo. Mandamos dar-lhe uma tareia, para ver se ele aprende.
Reinaldo não respondeu logo, e passados alguns segundos acabou por dizer:
- Dar-lhe uma tareia não é solução. O presidente garantiu que tinha outra estratégia.
Só temos de estar atentos e avisá-lo quando soubermos de algum negócio directo.
A oportunidade não tardou a chegar. Francisco Silva pedia que nem um cego, e a
informação tão desejada acabou por chegar.
O presidente do Conselho de Arbitragem (Lourenço Pinto) era da total confiança de
Pinto da Costa e deu-lhe a informação tão esperada.
- Temos o homem na mão. Ele telefonou ao Rocha (Manuel Rocha, presidente do
Penafiel) e pediu-lhe dois mil contos pelo jogo de domingo. Vamos fazer-lhe uma
emboscada. O Rocha leva um gravador quando lhe for entregar o dinheiro, e depois
entramos nós em acção.
- Sigam com a operação, mas lembrem-se que temos de ficar sempre de fora.
Quando se viu desmascarado, o Silva chorou, pediu perdão, mas não adiantou nada.
Tinha sido feito. Houve ainda algumas hesitações não sabendo bem se devia levar o
assunto para a frente ou apenas pregar um tremendo susto ao Silva, mas o escândalo
rebentou e não foi possível segurar a situação.
PC e Reinaldo mais uma vez saíam ilibados do problema gerado, assumindo o papel
de anjinhos, mas a força que detinham foi bem evidenciada. Para os outros árbitros, o
aviso surgia sempre na forma de um «lembrem-se do que aconteceu ao Silva, que fugiu
à nossa protecção, quis fazer os seus negócios sozinho e acabou por se espalhar; mais
vale ganhar menos mas estar devidamente protegido».
O sistema voltava a estar sob controlo, e a submissão da maior parte dos árbitros a
Reinaldo era cada vez mais forte. Ele sabia que não podia perder aquele negócio. A
árvore continuou a dar os seus frutos, mesmo fora de época.
O restaurante do seu primo transformou-se num autêntico estabelecimento cambial,
tal era o volume de negócios que ali se desenvolvia. Os cheque voavam de mesa para
mesa, desaparecendo debaixo dos pratos de feijoada.
José Silvano, um árbitro com algumas dificuldades na vida, devido aos maus negócios que tinha efectuado na sua empresa, necessitou, entretanto, de comprar uma carrinha e falou com Reinaldo para lhe emprestar três mil contos de modo a efectuar o negócio. Reinaldo levou-o ao presidente, e este não hesitou em passar-lhe o respectivo cheque para a compra da carrinha, mas exigiu ao árbitro que este lhe passasse um outro cheque da mesma importância, mas com um prazo mais alongado. Ambos concordaram, e o árbitro levou os três mil contos.
Quando Reinaldo regressou ao gabinete do presidente, perguntou, um tanto
espantado:
- Não é um risco muito grande emprestar dinheiro a este gajo?
- Claro que é sempre um risco, mas não vamos ficar sem esse dinheiro. Isso foi
apenas um investimento. Nós vamos precisar dele.
Passadas poucas semanas, o clube de Pinto da Costa lutava pelo título com o seu
principal rival (perigosamente próximo, nessa temporada), e havia uma deslocação
difícil mais a norte do País. PC chamou Reinaldo e explicou-lhe a situação:
- No domingo, vamos jogar o título. Temos de ganhar de qualquer maneira, e as
coisas não estão nada fáceis. Chegou a altura de pedir contas ao teu amigo árbitro.
Reinaldo entendeu logo o que o seu presidente queria; pegou no telefone e discou o
número do árbitro.
Do lado de lá atendeu uma voz grossa e bem timbrada que Reinaldo identificou de
imediato:
- Olá, estás bom?
- Quem fala?
- É o Reinaldo. O presidente mandou-me falar-te, porque precisa daquele dinheiro
que te emprestou.
- Mas agora não tenho essa verba...
- Mas tu prometeste!!!
- Claro que prometi, mas as coisas correram mal.
- Sabes que o presidente tem um cheque?
- Sei. E o que é que ele vai fazer?
- Nada, se tu te portares bem.
- Olha que porra! Até parece que ando a portar-me mal!
- Não é isso. Vais ser nomeado para fazer o nosso jogo de domingo e nós temos de
ganhar de qualquer maneira. Não interessa como, temos é de ganhar.
- Já sabes que comigo não há problema. Diz ao presidente que pode contar comigo.
Mas vê lá se me toca alguma coisa.
- Deixa isso comigo. Faz a tua parte, que nós depois cá nos entendemos.
No dia desse jogo, José Silvano passou pela maior vergonha para dar a vitória ao clube de PC, inventando uma grande penalidade que nunca existiu, com a agravante de tudo isto se passar em casa do adversário, situação que lhe originou uma penosa fuga pelas traseiras. Mas ele já estava muito batido nestas «saídas à comandante», assim baptizadas porque normalmente aconteciam no «jeep» do comandante da GNR.
Os jornais, a rádio e a televisão comentaram o escândalo, mas o título foi assegurado.
Dias depois, o árbitro transmontano, que de bruto só tinha o aspecto físico, foi em busca
do cheque dos três mil contos que tinha passado a Pinto da Costa, mas este nem sequer
o recebeu, mandando recado por Reinaldo:
- O presidente disse que aquele dinheiro nada tinha a ver com o empréstimo que te
fez. São negócios diferentes. Nós fizemos-te um favor e tu retribuíste com outro.
- Mas já viste o que passei no domingo para não ganhar nada com isso?
- Tem calma que vais recuperar esse dinheiro. Eu disse-te que não havia problemas,
não disse? E vais ver que não há.
- Como é que então vais resolver essa situação?
- É fácil. Vou arranjar-te uns joguinhos e clientes para te pagarem o frete. Nós
ficamos com o dinheiro e abatemos à dívida.
- Isso não é justo - disse o árbitro, ao mesmo tempo que dava um murro na mesa.
- Não te enerves, porque a situação não é tão injusta como tu julgas. Já sabes que
connosco podes ganhar muito dinheiro e vais até superar com toda a certeza essa merda
dos três mil contos. Deixa isso connosco, que nós arranjamos-te jogos para cobrir isso e
muito mais.
De facto não faltaram jogos a José Silvano. Reinaldo não se cansava de lhe arranjar
nomeações e pedir os respectivos fretes, mas a devolução do cheque é que nunca foi
efectuada, tendo sido utilizado várias vezes para exercer sobre o árbitro os mais variados
tipo de chantagem.
Os escândalos foram-se avolumando, e o árbitro ficou de tal modo hipotecado à situação que mais tarde teve de fugir para o estrangeiro para evitar a prisão. Algures no Golfo Pérsico, onde tentava montar um negócio de camelos, o pobre árbitro dizia mal da sua vida:
- Grandes cabrões, servem-se de uma pessoa e quando ela já não é necessária lançam-na pela borda fora. Mas eles não vão perder pela demora!
José Silvano era apenas um exemplo de como alguns árbitros estavam agarrados a
Reinaldo Teles e eram obrigados a executar todos os seus planos, muito embora, no
meio de toda esta estratégia, surgissem algumas falhas no sistema. O certo é que os
árbitros que mais dinheiro ganhavam com os negócios de Reinaldo Teles eram aqueles
que apareciam mais vezes a apitar os jogos do seu clube, sendo-lhes exigidos favores à
troca de nada.
Quanto mais egoísta era o árbitro e mais gastador se mostrava, mais hipotecado
ficava. Quando queriam montar negócios ou necessitavam de dinheiro para cobrir
algumas despesas da sua vida particular, telefonavam a Reinaldo Teles, e este, salvo
raras excepções, nunca se fazia rogado na execução dos empréstimos, mantendo sempre
em sua posse alguns documentos comprovativos.
Reinaldo Teles sabia bem avaliar a potencialidade dos empréstimos e quanto essa
verba lhe iria render. Presos pelas dívidas, os árbitros em causa tinham de se submeter
às ordens emanadas por Reinaldo ou Jorge Gomes, uma figura que, aos poucos, se foi
transformando no braço direito do seu dilecto amigo. Os empréstimos eram abatidos
mediante os jogos efectuados, mas a verba descontada na dívida era sempre muito
inferior à que Reinaldo cobrava aos respectivos dirigentes que com ele contactavam.
Alguns árbitros estavam fartos de ser explorados e começaram a surgir algumas
fugas. Contactados pelos clubes adversários dos protegidos de Reinaldo, traíam os
objectivos e colocavam-se do lado contrário, para dessa forma levarem algum dinheiro.
A organização era rígida e não perdoava tais veleidades. Reinaldo estava fora de si e,
descontrolado, até insultava os árbitros em público.
- És um ingrato, mas vou tratar-te da saúde. Este ano já te dei a ganhar mais de 10 mil
contos e tu traíste-me. `Tás fodido comigo.
O árbitro, tentando arranjar desculpa para disfarçar o negócio que tinha feito, ainda
ripostou:
- Não podia fazer mais do que aquilo que fiz, senão era um escândalo.
- Era um escândalo, o caralho!!! Não viste, há três jornadas atrás, o que fez o Chico?.
Foi preciso marcar três grandes penalidades para ganharem, e ele marcou-os. Aconteceu-lhe alguma coisa? Claro que não. Ele está sob a nossa protecção.
- Ó Reinaldo, desculpa lá, não me fales dessa merda de desonestidades nem de
ingratidões! Para eu ter ganho mais de 10 mil contos, tu ganhaste o dobro ou mais. Eu
também estou fodido contigo, porque no jogo que fiz anteriormente ajudei o clube que
me pediste e não vi nem um tostão. Não me venhas, por isso, com a conversa de que te pregaram o mico. Eu soube que eles te deram o dinheiro, e eu não ando aqui a fazer
fretes de graça, ou para ganhares só tu.
- Está bem, está bem. Vais ver o que te vai acontecer!
E aconteceu mesmo: esse árbitro, que tinha subido ao primeiro escalão no ano
anterior, acabou por ser novamente despromovido.
Reinaldo não perdeu a oportunidade para lançar o aviso sobre os outros:
- Estão a ver o que acontece a quem nos tenta foder e não quer colaborar connosco?
Abram os olhos, comigo é que ganham dinheiro!
PC já tinha vários apoios associativos e alguns conselheiros na mão, e caso o presidente
do CA não se deixasse influenciar, este já sabia que tinha os dias contados. Poucos
foram os que conseguiram gerir com independência o sector. PC estava consciente da
força que tinha e das alianças que possuía. Arrastava atrás de si uma grande força
popular, argumentando com bandeiras políticas regionais; mas os que o seguiam de perto
iam-se afastando, logo que verificavam que aquela bandeira servia apenas para encobrir
os seus negócios e não perder o poder popular tão útil em situações menos favoráveis.
PC era capaz de tudo para ganhar. Para ele, não existiam barreiras nem
personalidades. Habitou-se a esmagar quem se lhe atravessasse no caminho. Duas
semanas antes de um jogo entre gigantes (Porto-Benfica) e onde se iria discutir o título,
teve um encontro com o presidente do Conselho de Arbitragem, naquela altura um
homem isento e honesto, mas com a consciência de que tinha de ter uma certa
flexibilidade em algumas situações. A nomeação do árbitro para esse jogo era
extremamente importante, e o assunto foi discutido entre os dois:
- Que árbitro é que lhe agradava para fazer o seu jogo?
PC não respondeu. Pensou um pouco, pegou num papel e escreveu o nome de um
árbitro de Setúbal (Carlos Valente), entregando o papel ao presidente do CA. Este
analisou-o e concordou com a situação, até porque o árbitro tinha qualidade e não era
daqueles que normalmente negociavam nos bastidores.
O clube rival acabou por saber quem era o árbitro e também quem o tinha escolhido.
O responsável pelo futebol desse clube, homem muito traquejado e capaz de fazer frente
a PC, colocou um plano em marcha. Desconfiado de que PC já tinha o árbitro
controlado, contactou com um dos seus fiscais de linha e negociou com ele o resultado
do encontro.
Tudo se passou nos arredores da capital no campo de um clube de escalão inferior,
onde esse fiscal de linha treinava habitualmente com outros árbitros. Só que, no dia em
que o responsável do clube da capital se foi encontrar com o tal fiscal de linha, o
encontro foi presenciado por alguém que também tratava da sua forma física. Este,
desconfiado, no dia seguinte ligou para Pinto da Costa.
- Queria falar com o Senhor Pinto da Costa.
- Da parte de quem? - responderam do lado de lá da linha.
- Diga-lhe por favor que fala Maciel Feijoca.
Bzzz, click...
- Olá, está bom? Então o que é que manda? - perguntou PC do lado de lá do fio.
- PC, ontem vi o Gaspar Ramos a falar com um dos fiscais de linha do árbitro que vos
vai apitar no domingo. Ponha-se a pau.
- Ah, sim! Esse gajo está fodido comigo! Vou já tratar do assunto.
Depois de desligar o telefone, PC, lívido de raiva, ordenou que lhe fizessem uma
chamada para o presidente do CA. Logo que este lhe surgiu do lado de lá do fio, entrou
a matar:
- Tem de me mudar o árbitro do nosso jogo!
- Então não foi você que o escolheu?
- Pois escolhi, mas soube agora que o Gaspar Ramos já contactou com um dos seus
fiscais de linha.
- Isso pode não querer dizer nada, e a faltarem três dias para o jogo não vou substituir
o árbitro. Isso seria um escândalo.
- Mas tem de ser, senão eu vou fazer um barulho dos diabos.
- Faça aquilo que quiser, desde que seja você a assumir essa responsabilidade. Pode
até dizer aos jornais que sabe desse encontro. A responsabilidade é sua.
Sentindo a inflexibilidade do presidente do CA, ligou de imediato a Adriano Pinto, o
homem que o socorria nos momentos de maior aflição, mas nem este conseguiu
demover o presidente do CA da sua atitude.
Pinto da Costa colocou então em movimento uma outra estratégia e, através dos meios
de comunicação social, criticou aquela nomeação, levando, como era seu hábito, o
assunto ao rubro. O certo é que no dia do jogo confirmaram-se as suspeitas, e o tal juiz
de linha que fora visto a ser contactado pelo dirigente do clube adversário não se portou
nada bem, prejudicando o clube de PC. Para agravar, um habitual suplente (César Brito)
da equipa adversária até bisou, dando a vitória e o título à sua equipa. Pela primeira vez,
o assalariado de PC que treinava a equipa (Artur Jorge) deixou o verniz estalar,
chorando baba e ranho na cara do dito juíz de linha.
À saída, os árbitros setubalenses levaram uma grande sova, e o chefe de equipa,
coitado, sem saber de nada, até levou porrada da mulher de Reinaldo Teles.
- Mas, meus amigos, eu não tenho nada a ver com isto, como vocês sabem -
desabafava o apitador, enquanto colocava pomada na zona atingida. O que é que eu fiz
para merecer isto? Como é que vou explicar à minha mulher estas arranhadelas nas
costas? - E, mesmo sendo um homem valente, começou a choramingar...
Pinto da Costa teve durante toda essa semana de provar o sabor amargo de que, afinal
não conseguia controlar todas as situações. Sentiu que tinha de refinar os seus métodos
e mandou chamar Reinaldo Teles para discutirem os dois o problema.
Reinaldo Teles entrou envergonhado no gabinete do presidente. Não sabia o que
dizer. Ele que julgava que tinha o mundo da arbitragem na mão, que tinha inclusive
aconselhado o seu presidente a escolher aquele árbitro, e que acabou por ser traído.
Pinto da Costa quando viu o seu «vice» entrar no seu gabinete, de cabeça baixa, disse
num tom apaziguador:
- Não vale a pena estarmos agora a bater mais no ceguinho. Temos é de tomar
medidas para que uma coisa destas não volte a acontecer.
- Ó presidente, sabe que não controlamos os árbitros todos.
- Sei muito bem disso, mas a partir de agora, para estes jogos mais importantes,
temos de fazer com que sejam nomeados árbitros da nossa inteira confiança e que
alinhem no escândalo, se for necessário. O mais importante é ganharmos.
Reinaldo ficou mais animado com as palavras do presidente e lançou um alerta:
- Isto até é mau para o nosso negócio. Os outros árbitros começam a perder-nos o
respeito, e nós acabamos por perder não só o controlo da situação com também aquele
dinheirinho que entra todas as semanas.
- O povo é de memória curta, e com mais umas vitórias esquece o que aconteceu no
domingo.
Pinto da Costa e Reinaldo Teles gastavam dinheiro à grande e à francesa. A paixão de
PC pela Maria era cada vez mais forte, e isso trouxe-lhe custos exagerados, porque ela
sempre se revelou uma mulher de gostos caros e tinha de garantir o futuro da filha de
ambos, amealhando alguns cobres. E Reinaldo estava cada vez mais viciado no jogo.
Em cada cidade que parava não resistia a uma visita ao casino local. O vício pelo jogo
era tremendo. Até parecia castigo de Deus.
Tinha entrado nos casinos para lavar dinheiro para os seus negócios pouco claros e
acabou por ficar agarrado à roleta. Reinaldo sonhava com Las Vegas, e não havia quem
o convencesse que não muito longe ficam os precipícios do Grand Canyon...
- Mas no meu caso não vai ser assim. O dinheirinho que entra todas as semanas há-de
dar para estas coisas e muito mais.
O futebol é um grande negócio e, agora, que temos a arbitragem na mão, não nos faltará dinheiro - dizia Reinaldo a Jorge Gomes, na tentativa de o convencer a não o
aborrecer mais com aquelas conversas de que ele andava a arriscar dinheiro de mais no
jogo. - Quem não arrisca, não petisca! - gostava de repetir Reinaldo, especialmente
quando desperdiçava umas milenas no preto para ver sair o vermelho, ainda para mais o
vermelho...
- Olha, essa merda do jogo ainda há-de ser a tua desgraça. Faz mas é como eu. Vou
investindo nuns apartamentos. Pelo menos fico com o futuro garantido - dizia-lhe Jorge
Gomes.
- Não te preocupes com isso. O negócio vai melhorar. O presidente tem aí um
projecto em vista que vai mudar isto tudo - respondia Reinaldo.
Tornava-se muito arriscado tentar servir vários clubes ao mesmo tempo. As pessoas
já falavam muito nessas histórias e qualquer dia rebentava um escândalo medonho. PC
reuniu-se com Reinaldo, e ambos discutiram a nova forma de ganhar dinheiro com a
arbitragem, mas com a situação completamente controlada ou, pelo menos, mais
controlada.
O futebol continuava a ser a guarida dos homens endinheirados à procura de
promoção social. Ter muito dinheiro não bastava. Eles gostavam de ser conhecidos, e
nada melhor que o futebol para promover socialmente os novos ricos. Reinaldo Teles
sabia melhor que ninguém quais eram os empresários que manifestavam grande
disponibilidade financeira. A maior parte deles eram seus clientes e deixavam no seu
bar muitas centenas de contos através das suas raparigas contratadas. Era só arranjar
uma forma de lhe aliviar um pouco mais a bolsa, e o futebol era o melhor meio para
isso. O desporto-rei servia de capa para o mais variado tipo de situações. Era só saber
aproveitá-lo. Servia para lavar dinheiro e principalmente para fazer esquecer certos
preconceitos sociais. O exemplo de Reinaldo era o que mais evidenciava essa situação.
Chegou ao Porto para servir na tasca do tio, foi um dos mais conhecidos chulos da
cidade, continuava a viver à custa da exploração de carne branca, e as famílias mais
conceituadas esqueciam-se disso tudo para o apoiar até à vice-presidência de um dos
clubes mais prestigiados da Europa. A sua mulher, que palmilhou noites seguidas na
Rua de Santos Pousada, era agora uma senhora bem colocada e apaparicada por todos
aqueles que rodeavam o clube, não obstante continuar a ser a dona de um bordel.
O futebol é um fenómeno social, e era necessário saber retirar o devido proveito
desse facto.
Pinto da Costa tinha vindo de boas famílias, mas era criticado pelos seus parentes,
devido ao relacionamento que tinha no mundo da bola. A sua inteligência não deixava
dúvidas e, unindo esse factor à facilidade com que Reinaldo se movimentava no mundo
do crime, formava com Teles uma dupla quase imbatível.
Reinaldo Teles só possuía a cultura adquirida na tasca do seu tio, e o seu discurso só
tinha êxito no bas-fond da cidade. As entrevistas que ia dando só podiam ser concedidas
a jornalistas da sua confiança, para que a sua ignorância não se manifestasse com tanta
evidência, mas era eficiente nas jogadas de bastidores, e era nessa qualidade que Pinto
da Costa o aproveitava. Não podia, porém, nem responder nem servir de escudo para os
ataques vindos de outros clubes cujos dirigentes conheciam muito bem a sua actividade.
Para além de não possuir a capacidade de PC, tinha muitos rabos de palha, e quando
surgia em maior evidência nunca conseguia retirar muitos efeitos mediáticos. A sua
grande mágoa era ainda não ter podido encontrar um negócio que lhe desse tanto
dinheiro como os alternos. Muitas vezes lamentava-se com os seus amigos.
- Tenho de acabar com esta merda. Até os colegas dos meus filhos na escola dizem
que eu vivo das putas, que sou um chulo.
Mas o dinheiro ganho com facilidade sempre superou essas mágoas e também não
podia prescindir dos serviços da sua mulher, pois ela era uma «expert» no assunto e o
segredo do êxito do bar de alternos.
- É que isto de lidar com putas não é tarefa fácil para ninguém. Ou temos os olhos
bem abertos ou somos comidos indecentemente. A minha mulher conhece o negócio
como ninguém e todos os truques. Já não é comida com facilidade - consolava-se
Reinaldo, nas noites de maior angústia, quando tentava ler uma obra de Eça de Queirós.
Quem não dava muita importância a essa situação era Pinto da Costa. Para ele, até era
bom que o seu amigo de maior confiança tivesse boas putas. Quantas mais ele tivesse,
mais ele comia, e o bar sempre era um local de bom chamamento para os seus negócios
menos lícitos.
Pinto da Costa já tinha tido dissabores com alguns desses negócios, e os da
arbitragem começavam a ser muito denunciados, mas como o dinheiro desse sector era
muito e fazia falta, havia que se estabelecer um novo plano de ataque.
As despesas eram muitas e, depois de falidas as empresas em que ele tinha gasto
tantos milhões, quase toda a gente já sabia que ele vivia somente à custa da influência
que o seu clube lhe fornecia para certos negócios. De vendedor de fogões a empresário
falido, PC tinha, porém, a certeza de que o mais importante estava feito: o seu clube ia
na crista da onde, e o cartão de crédito que tinha no bolso não tinha tecto. Afagando-o,
PC acabou por adormecer embalado por um pensamento reconfortante: «Antes um bom
Visa que um bis».

Reinaldo Teles trabalhava no mundo da arbitragem com um certo à vontade.
Comprava e vendia com a maior das facilidades. Sentia-se seguro e acabava por
cometer erros que, acumulados, se iam tornando perigosos, não obstante usufruir de
uma grande cobertura judicial, desportiva e política, situações que eram
consubstanciadas através de favores concedidos em todas estas áreas, tendo como
referência o poder do seu clube.
A bandeira do Norte era içada defendendo um regionalismo recheado de hipocrisia.
Esta era a forma de arregimentar a força do povo nortenho quando era necessário
sair em defesa de interesses meramente pessoais. Pois se os títulos e os golos eram
importantes para os fervorosos adeptos do seu clube, eram muito mais para eles, porque
era essa força que servia de suporte aos negócios marginais.
Pinto da Costa tinha consciência de que no futebol eram autorizados, por parte dos
adeptos, alguns jogos obscuros de bastidores. A vitória era importante e combatia-se
dentro e fora dos relvados. Alguns adeptos até denunciavam um certo gosto pela
habilidade nata com que alguns dos seus dirigentes se movimentavam nos bastidores,
mas também se sabia que nenhum deles aprovava que se retirassem benefícios em
proveito próprio e muito menos utilizando o seu clube para isso. Mas como o clube ia
ganhando...
Começaram a surgir algumas denúncias, e uma maior cautela era a medida a tomar
com uma certa urgência. Andar a negociar árbitros a retalho era perigoso de mais. Os
movimentos multiplicavam-se, e os riscos aumentavam. Alguns jornalistas não se
deixaram dominar pelo medo e acabaram por sofrer emboscadas, sendo presenteados
com alguns socos como medida de intimidação. Reinaldo Teles foi avisado e não parava de pensar como é que o negócio teria de ser conduzido para se acabarem com alguns boatos que começavam a tornar-se perigosos. Nem sequer equacionava poder vir a acabar com um comércio tão rentável.
Tinha de encontrar uma solução mais eficaz e menos notada. Já se habituara a ganhar
algumas centenas de contos semanalmente, e o seu vício pelo jogo no casino requeria
grandes proventos.
A ideia acabou por surgir através de um dirigente de outro clube que se tornara um
grande cliente e que começou a entender a complexidade do negócio e a dificuldade em
acudir a todos os pedidos.
- Porque é que vocês não se dedicam a um ou dois clubes em vez de andarem a acudir
a todos os fogo? Façam contas e vão verificar que o negócio se torna mais rentável, é
mais seguro e não gera tantas confusões.
Reinaldo Teles ouviu com atenção a observação, e, como dizia, a sua mioleira
acendeu-se como um cockpit no momento da aterragem. Para arrefecer as ideias, pediu
ao seu empregado que lhe trouxesse mais um whisky.
- Mas com muito gelo.
Saboreou durante largos minutos a sua bebida, elaborando mentalmente um novo
plano de ataque. Olhou à sua volta e, ao verificar que uma das suas prostitutas se
despedia de um cliente depois de lhe ter sacado duas garrafas de champanhe, fez-lhe um
sinal e chamou-a.
Ela olhou admirada e colocando o dedo indicador no meio do peito nu, bem dentro de
um decote que ameaçava fazer-lhe saltar as mamas a qualquer momento, interrogou-se,
encolhendo os seus lábios vermelhos e carnudos:
- Eu?!
Reinaldo passou a mão pelo rosto, fez rodar o copo entre os dedos para agitar o gelo e
acenou com a cabeça, confirmando o chamamento.
Rebolando a anca, atravessou a pista de dança e dirigiu-se a Reinaldo.
- Senta aí.
- Mas que luxo! Ser convidada para a mesa do patrão!
- Cala-te e ouve. O Jorge Gomes dormiu contigo esta noite?
- Já sabe que sim. Ou ainda não lhe disseram que ando com ele?
- Sei muito bem que andas com ele, e quero é saber onde o posso encontrar agora...
neste momento.
- Como ainda é cedo, deve ter passado por casa. Mas ele disse-me que vinha cá hoje.
- A que horas?
- Ai, isso não sei! Mas deve estar a chegar.
- Se por acaso estiver ocupado na altura em que ele chegar, diz-lhe que eu quero falar
com ele com urgência.
- OK! É só isso? - disse a empregada antes de se retirar, ao mesmo tempo que puxava
as mamas para cima e deitava o olho a um novo cliente.
Reinaldo Teles dirigiu-se para o balcão onde estava a sua mulher a chamar a atenção
de uma das suas empregadas.
- Estás aqui para trabalhar e não para namorar. Estiveste na mesa daquele gajo e nem
um copo lhe sacaste.
Reinaldo Teles ia a pedir um pouco de calma à sua Luísa, quando viu Jorge Gomes a
entregar a sua gabardina ao porteiro. Fez-lhe logo sinal com a mão e, após uma breve
troca de olhares, dirigiram-se para uma mesa mais recuada e sem barulho de música.
Reinaldo apresentou-lhe a sua ideia para se avançar com uma nova forma de negócio.
Ao fim de alguns minutos, estava tudo resolvido. Iam trabalhar com três ou quatro
clubes de divisões inferiores e com um ou dois de primeira categoria, prometendo-lhes a
manutenção. Desta forma, a acção não colidia com os interesses do seu clube muito pelo
contrário: podia até sair beneficiada.
Reinaldo estava tão entusiasmado com o negócio, que deixou Jorge Gomes
embasbacado quando lhe disse:
- Isto não tem nada que saber. Vamos deixar de trabalhar jogo a jogo. Para correr
tudo bem, necessitamos de tempo e organização. O clube que quiser subir contacta-nos
com tempo, fazemos o preço e temos todo o campeonato para tratar do assunto. Desta
forma, podemos jogar com algumas falhas e colmatá-las com outras jogadas e outros
intervenientes.
Jorge Gomes ouviu com atenção, mas ficou desconfiado, pois não lhe passava pela
cabeça vir a perder dinheiro. Além do mais, ficava sem campo de acção para algumas
das suas jogadas em que prometia levar o dinheiro a alguns árbitros e nem sequer os
contactava. Mas Reinaldo descansou-o.
- O teu papel continua a ser o mesmo. Nós temos de trabalhar todas as semanas,
temos de fazer os nossos contactos, só que desta forma a massa vem dos clubes
antecipadamente. No início do campeonato estabelecemos um preço de subida e, como
em negócios destes não há crédito, eles dão-nos o dinheirinho adiantado e nós é que
gerimos a situação.
- E já tens algum cliente? Estamos a mais de meio do campeonato, e até ele acabar
não vamos ganhar mais nenhum? - perguntou Jorge Gomes, preocupado e ainda
confundido com esta nova situação.
Mas Reinaldo não perdeu tempo, expondo-lhe novos pormenores do negócio:
- Estamos em Março, e é a partir de agora que começam as grandes confusões. Estive
a falar com o presidente de um clube que está à rasca. Não quer descer e, como dinheiro
é coisa que não lhe falta, vamos arrancar com esse negócio. Amanhã vais falar com ele,
apalpas a situação e, se o vires interessado, combina com ele um encontro aqui no bar,
que depois eu faço o resto. Trata disso sem falta amanhã, que eu agora vou até ao casino
aumentar a minha fortuna.
- Já vais foder o dinheiro todo nessa merda. Assim, não há negócio que resista -
lamentou-se o Jorge.
Na tarde seguinte, Jorge Gomes fez o seu contacto; falou com o presidente do tal
clube que não queria descer e, vendo que este se mostrou interessado no negócio,
marcou encontro para essa noite.

Reinaldo Teles escolheu duas das suas melhores mulheres, avisou Luísa de que naquela
noite iria aparecer um bom cliente e deu instruções para que nada faltasse, porque
estava em perspectiva um bom negócio.
Quando ia a sair, disse a Luísa para ela falar com as duas empregadas, avisando-as de
que, se fosse necessário, elas sairíam com esse cliente.
- É que ele gosta de ter mais que uma mulher na cama, e é bom que ele saia daqui
satisfeito.
Nessa noite, Reinaldo Teles chegou atrasado ao bar, mas fê-lo de propósito, para que
as suas duas empregadas tivessem tempo de levar o cliente ao ponto que ele queria.
Quando fez a sua entrada, a situação já estava a ser controlada por Jorge Gomes.
- Ele está no ponto de rebuçado.
- É assim mesmo que eu o quero.
Após estas palavras, Reinaldo dirigiu-se para a mesa do seu convidado e disse, com
um ar de não total inocência:
- O presidente está bem acompanhado!
Ambos trocaram um sorriso e compreenderam que tinha chegado a altura de ficarem
sozinhos para tratar de negócios. As duas mulheres, após um ligeiro sinal, levantaram-se
da mesa sob o argumento de que tinham de ir à casa de banho recompor a maquilhagem,
mas prometendo voltar logo que se acendesse a luz verde...
Reinaldo Teles começou a falar da situação aflitiva em que estava o clube do seu
interlocutor, passando de imediato àquilo que mais interessava e que tinha
proporcionado aquele encontro.
- Estive ontem a pensar na vossa situação e cheguei à conclusão de que, se não
houver um trabalho a sério, vocês vão direitinhos.
- Nós também temos consciência disso.
- Ainda ontem um presidente veio ter aqui comigo para ver se eu o ajudava a sair de
uma situação como a vossa, mas eu não lhe disse nada até falar consigo. Se vocês
quiserem, prefiro ajudar o vosso clube. Sempre é da nossa associação (Porto).
- Claro que queremos, mas também não temos muito dinheiro para gastar.
- Estive a fazer contas e penso que, com 50 mil contos, podemos controlar a situação
até ao final do campeonato. Mas, atenção, que este dinheiro também é para ser investido
no campo do adversário.
- Com 50 mil contos, vocês garantem-nos a manutenção?
- Quase a 100 por cento.
- Quase?
- Sim, quase, porque a bola, que eu saiba, continua a ser redonda...
- E como é que vamos pagar esse dinheiro?
- Em três tranches. Dez mil agora e mais duas de vinte mil quando virmos que é
necessário o investimento.
- Está combinado. O Jorge Gomes pode passar lá amanhã pelo meu escritório e já traz
o cheque dos 10 mil.
Estava em curso uma nova forma de negociar, e pelos vistos mais segura, para além
das vantagens que isso trazia. Com aqueles 50 mil contos podia fazer-se muita coisa,
uma das quais era tentar atrasar os mais directos adversários do clube de Reinaldo
Teles. Quando estes fossem jogar com o clube que tinha pago os 50 mil contos,
investia-se nessa situação. Com um tiro matava dois coelhos: o seu clube adiantava-se
em termos de pontos, e o seu cliente ficava bem servido.
Só que o egoísmo levou-os a cometer novos erros. O dinheiro era fácil e gastava-se
ainda mais facilmente. Reinaldo pedia cada vez mais e investia cada vez menos. Estava
ciente do poder que tinha e jogava com algumas promessas de árbitros em termos de
classificação no ranking final, pagando cada vez menos em dinheiro e fazendo
prevalecer outras situações de favor. Alguns árbitros contentavam-se com isso, mas
outros arriscavam e, sabendo que eles estavam a ganhar dinheiro com os seus favores,
exigiam a quota parte deles. Surgiram então algumas ameaças de despromoção, e não
faltaram desentendimentos, assim como processos de pura chantagem, ao melhor estilo
de um filme que Jorge Gomes um dia alugou no clube de vídeo da esquina, «O Padrinho».
Mas como o tempo não parava e a bola se revela teimosamente redonda, as coisas
complicaram-se, até que se chegou ao final do campeonato, e o clube que tinha
investido 50 mil contos para não descer jogava a sua última cartada em 90 minutos de
futebol.
Reinaldo Teles multiplicou-se em acções, jogando em vários campos, mas era tarde
de mais para controlar todas as situações. Havia que investir em vários jogos, e o
dinheiro tinha sido gasto no casino e noutros negócios. Mesmo assim, ainda tentou
outras soluções, mas os adversários mais directos não andavam a dormir e também
tomaram as suas precauções.
Já depois dos 90 minutos regulamentares, uma das equipas, não incluídas no seu
«pacote», e que jogava a norte, marcou o golo que lhe garantia a permanência. A aposta
de Reinaldo Teles tinha falhado. Jogadores, treinadores e dirigentes nem queriam
acreditar, e o presidente do clube que tinha dado os tais 50 mil contos para não descer
evaporou-se durante mais de três semanas.
Claro que depois choveram as desculpas e inventaram-se as maiores jogadas para
encobrir o desastre. Reinaldo Teles, depois da tempestade, prometeu que na época
seguinte esse clube subiria - e de facto, subiu, muito embora com um investimento
menor. Era necessário salvaguardar a imagem para que o negócio não se perdesse, mas
para tapar esses buracos houve outros investimentos que falharam.
Por exemplo, numa tentativa de subida da 2ª Divisão B à Honra, fez-se também um
grande investimento que, tal como o outro, não resultou precisamente na última jornada.
Havia dois clubes com possibilidades de serem promovidos. Um deles estava a ser
protegido por Reinaldo Teles e a sua organização, o outro vivia da habilidade de alguns
dos seus dirigentes que se mexiam bem no seio da arbitragem e conheciam por dentro o
negócio.
Na última jornada, o clube que estava protegido por Reinaldo ia jogar a casa de um
adversário cujo resultado já não contava para nada. O árbitro desse jogo tinha a
promessa de que iria ser internacional, e Reinaldo garantiu que este estava controlado.
O presidente do clube que queria subir prometeu mesmo uma prenda à mulher de
Reinaldo Teles, caso o seu clube fosse promovido:
- Ofereço-te um BMW novinho em folha. Eu sei que gostas deste carro, e o Reinaldo
não se importa que eu te dê esse prenda.
Luísa arregalou os olhos de contentamento e não mais deu descanso ao seu homem:
- Vê lá o que andas a fazer. Ele tem que subir. Eu quero aquele BMW.
Só que os outros não andavam a dormir. Tinham a situação controlada para o jogo
que iam disputar em casa e a aposta tinha de ser feita no jogo com o outro adversário
candidato à subida.
Na semana que antecedeu esse jogo, já se sabia quem iria ser o árbitro do encontro.
Era do Alentejo, terra onde abundam sobreiros e cortiça, e tal como o tal clube era de
uma terra onde se fabrica muita rolha; através de um emissário foi dada uma palavrinha
ao tal árbitro, mas a proposta no valor de 10 mil contos, foi prontamente recusada. Este
foi o sinal de que o árbitro já estava feito com Reinaldo Teles, porque em relação à sua
honestidade não havia rolhas que tapassem o fedor que ali se guardava...
Só havia uma solução para combater a estratégia de Reinaldo Teles. Os homens da
cortiça contactaram o clube a quem o resultado pouco interessava e, como os seus
jogadores tinha os vencimentos em atraso, ofereceram-lhes 20 mil contos para
ganharem. Era muito dinheiro, e ninguém resistiu à proposta.
No dia do jogo, os homens da cortiça lá estavam com a verba combinada: 10 mil
contos em dinheiro, trocado no dia anterior no casino por cheques e outros 10 mil em
papel com garantia de altos dirigentes federativos da zona centro do País. Ávidos pelo
dinheiro que lhes estava a ser oferecido, os jogadores nem pensaram duas vezes, e as
habilidades do árbitro não foram suficientes para combater toda aquela (falta de)
ambição...
Reinaldo Teles tinha perdido mais uma aposta. Tinha falhado mais uma promoção. Fez,
no entanto, os seus negócios e ganhou dinheiro com isso. Só mesmo a Luísa é que ficou
sem o seu BMW.
- Puta que te pariu, Reinaldo! Como se não bastasse o facto de não me foderes, ainda
me fazes andar de Opel! - gritou Luísa, depois de mais uma «nega» do marido, numa
noite, ainda para mais, de lua plena...
- Desculpa, filha, acho que bebi de mais!- adiantou Reinaldo, antes de rolar os olhos
rumo a um sono sem sonhos, os seus preferidos.

Apesar de falhas bem visíveis na organização, Reinaldo Teles continuava a usufruir
de uma excelente reputação no negócio das arbitragens. A máquina estava bem
montada, e os perdedores eram levados a acreditar que era praticamente impossível
controlar todas as situações de forma a garantirem a vitória. Reinaldo defendia-se
afirmando que, se o processo não fosse falível, acertava todas as semanas no totobola.
As pessoas conheciam os pormenores da organização e sabiam que o risco de erro era
mínimo, mas existia...
Reinaldo Teles controlava várias áreas adjacentes ao mundo do futebol e sempre era
melhor estar de bem com ele do que tentar lutar contra a sua estrutura. O negócio de
corrupção já há muito tinha ultrapassado a arbitragem, encontrando-se instalado noutros
sectores. Por vezes, controlar o árbitro não chegava e também era verdade que, nem
todos os árbitros se deixavam enredar na teia bem urdida por Reinaldo e Jorge Gomes e,
por isso, tornava-se necessário alargar o campo de acção a outros sectores e a alguns
jogadores que, na ânsia de arranjar melhores contratos, alinhavam em favores extra.
Valia tudo para se servir o melhor possível o cliente.
Reinaldo e Jorge Gomes tornaram-se especialistas na tramóia. Tinham toda a
cobertura possível do clube que representavam. Aos poucos, os dirigentes dos outros
clubes ficavam dependentes da sua acção e dos seus serviços. No início de cada época,
era elaborada uma lista de jogadores a emprestar pelo clube de Reinaldo, e os primeiros
a ter acesso a essa lista eram aqueles que se comprometiam a ser os melhores clientes,
depositando milhares de contos nos cofres da organização. Destes dividendos, o clube
não via nem um tostão, e por isso é que alguns dirigentes com maior estatura moral, ao
aperceberem-se que alguns parasitas viviam à conta do seu clube, abandonavam as suas
posições, não deixando de comentar:
- Isto é impossível. Um clube com tanta dignidade vive rodeado de chulos. É quem
mais se orienta.
- É preciso ser-se maluco para depender exclusivamente de um pé-descalço e de um
mentecapto.
- O melhor é sair do barco, senão ainda vamos ao fundo com ele e se isso acontecer já
ninguém nos arrancará do lodo...
Até o Ilídio, que já tinha investido milhares de contos no clube do seu coração,
deixou de acreditar que, algum dia, poderia vir a ser «vice» do futebol profissional e
deixou de contribuir quando era chamado a apagar alguns fogos de ordem económica. E
gabava-se disso, sem tentar esconder a sua posição:
- Deixei de ser burro. Era o que faltava, andar aqui a ganhar honestamente o meu
dinheiro para sustentar estes chulos. Se falta dinheiro, que o ponha lá quem o ganha à
custa do clube. Se derem 10 por cento do que ganham à nossa custa, já podem acudir a
alguns fogos. Sempre é melhor deixarem o dinheiro no clube que os sustenta que deixá-lo
no casino.
Ilídio sabia que tinha peso entre os adeptos, pelo menos desde o dia em que resolveu
pedir a sua demissão de dirigente e, ao contrário de que aconteceu a outros, Pinto da
Costa se apressara a fazer com que ele regressasse. Gostava de ser campeão todos os
anos, mas não apoiava os processos utilizados por Reinaldo e muito menos, ao contrário
de outros, deixava que a sua mulher se misturasse com a Luísa nas viagens ao
estrangeiro.
Reinaldo Teles ganhava apoiantes entre aqueles que comiam algumas migalhas do seu
bolo. Como era conveniente, controlava alguns delegados técnicos, montando um
sistema de protecção aos árbitros que com ele colaboravam. Servia-se do seu clube para
se insinuar perante os membros do Conselho de Arbitragem, deixando no ar promessas
que raramente eram cumpridas.
A chantagem era o trunfo mais utilizado na intimidação das pessoas que se deixavam
levar por alguns processos menos claros e que, depois de entenderem que pouco
ganhavam com isso, manifestavam a intenção de sair da organização. Esses processos,
na maior parte das vezes, eram utilizados contra jogadores que se deixavam corromper e
que, depois de se sentirem enganados com falsas promessas, se recusavam a aceitar um
segundo negócio. Também havia aqueles que, não querendo alinhar no sistema de
corrupção, quando contactados, se recusavam a tal. Esses eram constantemente
ameaçados e só com muita dificuldade arranjavam novos clubes depois de terminarem
os seus contratos. Era a política do medo que se exercia sobre jogadores e dirigentes.
Quem contrariasse Reinaldo, sentia que estava a contrariar PC, e o resultado era quase
sempre funesto.
As pessoas sentiam que lhes estavam a sonegar dinheiro, mas não tinham coragem
para se impor. Sabiam por experiência que não era muito saudável alguém voltar-se
contra quem manda no futebol.
A arrogância com que a dupla PC-Reinaldo actuava e a ditadura que impunham
provocava até situações ridículas, mas nada era feito ao acaso. Um dos exemplos disso
estava num dos anúncios transmitidos semanalmente pelo Totobola. Nesse anúncio
surgiam golos de várias equipas, e como o clube de PC tinha sido esquecido, o próprio
presidente contactou a Santa Casa e fez saber que, se não incluíssem num desses
anúncios um golo do seu clube, ele mesmo faria uma campanha anti-Totobola.
A chantagem valia para tudo, mas PC era também mestre na simpatia, e quando lhe
convinha atingir determinado objectivo, se fosse necessário, tornava-se até subserviente.
PC e Reinaldo tinham personalidade muito idênticas que se dividiam entre o anjo e o
demónio, e por isso é que se entendiam bastante bem e existia uma confiança sem
limites entre ambos.
PC era o mentor, e Reinaldo o executor. Jorge Gomes queria imitá-los, mas as suas
limitações não lhe permitiam longos percursos nessa área. Explodia com muita
facilidade e, como não tinha a noção do ridículo, deixava cair a máscara e denunciava a
sua real personalidade. Também era verdade que lhe cabia assumir os papéis de maior
desgaste.
A organização era superiormente constituída e soberbamente organizada. Escolhia os
árbitros de personalidade mais frágil para patrocinarem os escândalos nos jogos onde
era necessário vencer a qualquer preço e, depois de utilizados, quando já não possuíam
qualquer tipo de credibilidade, esses mesmos árbitros eram abandonados e abatidos ao
efectivo.
Alguns treinadores também se deixaram possuir pela vida fácil de arranjar emprego,
entregando toda a sua carreira à responsabilidade de Reinaldo Teles. Ele é que os
colocava, mas sempre com o objectivo de conseguir novos clientes. Muitos deles
sujeitavam-se ao desemprego durante meses a fio, para esperarem a oportunidade e a
ordem dada por Reinaldo.
Quando surgia um elemento endinheirado à cabeça de um clube, Reinaldo não perdia
tempo. A carreira desse clube começava a sofrer oscilações, até que o presidente era
aconselhado, através de um sinal subtil de boa vontade, a mudar de treinador. O acaso
proporcionava encontros programados à distância com elementos ao serviço de
Reinaldo:
- Com esse treinador não vai a lado nenhum. Arranje outro enquanto é tempo.
- Não é assim tão fácil como isso. Não há por aí treinadores aos pontapés, e também é
necessário pagar-lhes - reagia o presidente, em situação de desespero.
- Ó homem, fale com o Reinaldo que ele arranja-lhe um gajo com capacidade. Ele é
que controla isto tudo. Estou a ser seu amigo, não ganho nada com isso!

Muitos desses presidentes não agiam de imediato, mas, como os bons resultados
teimavam em não aparecer, acabavam por seguir o bom conselho daquele amigo tão
providencial. Caíam que nem patinhos na teia que lhes tinha sido estendida.
Depois de contactado, Reinaldo colocava a máscara do amigo, do proteccionista que
age sem qualquer tipo de interesse. Um autêntico bom samaritano.
- Vou arranjar-lhe um treinador de cinco estrelas. Não se preocupe que a partir de
agora vai correr tudo muito melhor - garantia aos presidentes mais conhecidos, nos
intervalos de algumas beijocas e outras tantas mamadas de algumas especialistas pagas
a peso de ouro.
Uma semana depois de o novo técnico estar ao serviço desse clube, surgia o conselho
tão desejado para os presidentes mais inexperientes:
- Tem de começar a aparecer no bar do Reinaldo mais vezes. Ele é um gajo porreiro.
E lá é que se resolvem todas as situações.
Tentando rentabilizar o investimento que já tinha feito, o «homem» era recebido
como um marajá. Luísa encarregava-se de lhe colocar na mesa um ou duas das suas
melhores mulheres. Reinaldo dava ordem para que o serviço de bebidas não falhasse e,
para não dar nas vistas, naquele primeiro dia a conta era arredondada para baixo e
elevados os carinhos proporcionados pelas raparigas. O dirigente saía satisfeito, e até
comentava com os seus colegas:
- O Reinaldo é um gajo porreiro. Meteu-me duas mulas na mesa boas como milho, e
no final a conta foi uma merdita.
O pior acontecia nas visitas seguintes. Iludido com tamanha amizade, o dirigente
tornava-se cliente assíduo e, para não parecer mal andar no putedo, sempre tinha a
desculpa de que ia tratar de negócios com Reinaldo. Este, por seu lado, só tinha de
esperar até que a vítima ficasse definitivamente presa.
As bebedeiras sucediam-se, e alguns chegavam até a mijar-se pelas pernas abaixo
para descontentamento das mulheres que os tinham de aturar, mas Reinaldo não tinha
contemplações quando alguma das suas empregadas se queixavam que já não
aguentavam mais micções ou vomitados daqueles pacóvios que estavam ligados ao
futebol.
- Coitados, nunca saíram de casa e agora bebem dois copos e cagam-se todos.
Reinaldo Teles não gostava desse tipo de comentários e cortava-os pela base:
- Se não queres trabalhar, fala ali com a Luísa que ela faz-te as contas e vais com a
Nossa Senhora.
As putas bem se lamentavam, porque com os dirigentes do futebol as suas comissões
diminuíam, pelo menos nos primeiros tempos, dado que a intenção não era esmifrá-los,
como faziam aos outros clientes, mas cativá-los para operações bem mais proveitosas
para o... patrão.
- Estás a mangar? O que ele quer é embebedar os perus...
- Não tenho pena deles. Tenho mais pena de mim. Ando aqui a dar tudo o que tenho,
e o que ganho com esses pavões nem dá para a cabeleireira.
- Tem paciência, Vaninha. Pode ser que ainda venhas a casar com um jornalista
desportivo, como eu...
As putas já estavam resignadas.
Chegada a hora de o abutre picar sobre a carcaça, Reinaldo começava a gerir a situação,
dando toda a cobertura ao clube cujo treinador lá tinha colocado. As tabelas eram feitas
mediante os escalões em que os clubes militavam e, como normalmente as coisas
melhoravam de imediato, toda a gente se sentia satisfeita. O presidente tornava-se um
bom cliente, diminuindo o orçamento para a contratação de jogadores e aumentando a
verba de despesas confidenciais que iam direitinhas para os bolsos de Reinaldo. A
qualidade do futebol decrescia também, porque já não era necessário investir-se em
bons profissionais, mas sim nas habilidades e manobras de bastidores.
Os dirigentes não escondiam essa situação:
- Que importa ter bons jogadores se não ganhamos?!...
À parte tudo isto, os treinadores colocados por Reinaldo também alinhavam em
várias jogadas, principalmente nos finais de campeonato. Quando não estava em causa o
resultado para uma das equipas cujo treinador fazia parte da carteira de Reinaldo, era
fácil pedir-se-lhe a derrota para beneficiar um outro cliente. Todos ganhavam dinheiro
com isso.
O sector do futebol júnior também foi transformado num grande negócio através do
empréstimo de jogadores e, por isso, logo cobiçado pelos familiares de Reinaldo. Os
clubes que eram beneficiados com esses empréstimos, para além de usufruírem de
imediato de proteccionismo relativamente às arbitragens e de terem de pagar magros
vencimentos aos atletas, tinham de passar cheques cujas verbas iam até aos 5 mil contos
sempre em nome de Reinaldo Teles e nunca em nome da colectividade.

O clube que se tornou melhor cliente de Reinaldo andava já há algumas épocas a tentar
a subida à 1ª Divisão e já tinham investido muitos milhares a partir do bar gerido pela
Luísa. Mas depois de ver frustradas as suas acções e de ter gasto muito dinheiro, um dos
seus dirigentes resolveu ter uma conversa com Reinaldo Teles e, sem preâmbulos, foi
direito ao assunto:
- Já andamos há algumas épocas a investir e ainda não conseguimos nada. Desta vez
tem de ser. Digam lá quanto é que é necessário para subirmos de divisão.
Reinaldo Teles afagou o bigode, pensou, e só depois disse num murmúrio de grande
cumplicidade:
- Se vocês querem mesmo subir, vamos ter de apostar forte.
- E essa força quanto nos custa.
- Não é esta a altura para vos dar uma resposta. Vamos estudar o problema e depois
falamos.
Reinaldo Teles teve então uma conversa com Pinto da Costa, colocou-lhe o
problema, e este não esteve com meias medidas:
- Se eles querem subir, vão ter de pagar bem por isso. Naquela zona há muito
dinheiro. Anda tudo bem calçado. Estabelece uma verba de 250 mil contos e divide isso
em quatro ou cinco tranches.
- Mas, presidente, isso não é muito dinheiro?
- Não, não é, atira com essa verba e se eles não forem na fita baixa um pouco a
fasquia, mas não muito.
Reinaldo e Jorge Gomes marcaram encontro com os interessados e, após uma curta
discussão, ficou acordado que essa verba seria de 200 mil contos divididos em quatro
tranches de 50 mil contos. O certo é que, após vários escândalos - jogos houve nos quais
foram marcadas três grandes penalidades... - , esse clube acabou por subir ao grande
palco do nosso futebol, e ninguém fez menção de fazer segredo de que os grandes
responsáveis por essa subida foram Reinaldo e PC.
Aqui o segredo nem sequer era a alma do negócio, muito pelo contrário, era
necessário que toda a gente soubesse para incentivar novos clientes. Uma autêntica
operação de marketing.
- Reinaldo, isto é muito melhor que jogar na roleta! - atirava PC, enquanto se
deliciava com mais um extracto bancário.
- Sem dúvida, presidente, mas agora que falou nela, já me está a dar um formigueiro
nas mãos.
- Oh, não!...
Toda a gente sabia que Pinto da Costa vivia do futebol e essencialmente do seu clube,
mas ninguém se arriscava a comentar o facto publicamente. Não se lhe conhecia mais
nenhuma actividade e muito menos tinha fortuna pessoal, mas não obstante estes factos,
vivia como um milionário. Comprava apartamentos de grande luxo para familiares e
denunciava sinais exteriores de riqueza. A sua vida era um mistério que ninguém ousava
desvendar.
Numa reunião de direcção, Pinto da Costa colocou com toda a frontalidade o seu
problema económico. Ele tinha consciência de que aquilo que impunha era aceite, e
ninguém ousava comentar.
Já passava das 22 horas, quando entrou pela sala de reuniões. À sua frente estendia-se
uma mesa larga e comprida com os cantos arredondados. Á sua volta estavam sentados
oito dirigentes discutindo entre si vários problemas de menor importância, mas quando
sentiram a porta a abrir-se, viram Reinaldo Teles com o puxador na mão a dar passagem
a PC, que entrou com um sorriso nos lábios, logo seguido do irmão de Reinaldo, cuja
postura física e comportamento se assemelhavam aos de um gorila. Toda a gente se
levantou para cumprimentar o presidente. Reinaldo tropeçou na alcatifa e, não fora a
acção rápida de Ilídio Pinto, a segurá-lo pela gola do casaco, ter-se-ia enfiado por
debaixo da mesa.
PC largou um sorriso, e em tom de brincadeira comentou:
- Reinaldo, estão a tirar-lhe o tapete?
Toda a gente riu, mas Reinaldo é que não achou piada nenhuma.
Todos se sentaram, e Pinto da Costa apresentou de imediato a sua proposta:
- Meus senhores, aqui neste clube os vencimentos vão ser atribuídos conforme as
responsabilidades. A pessoa mais responsável é sem dúvida o presidente. Concordam?
Os presentes na reunião olharam-se entre si e, sem perceberem muito bem o que PC
queria dizer, acabaram por concordar, muito embora se mostrassem hesitantes. Mas, ao
aperceber-se da situação, Reinaldo fez da sua voz a de toda a gente:
- Claro que ninguém tem dúvidas que a maior responsabilidade pertence ao
presidente.
Como ninguém se atreveu a contestar tal afirmação, PC, sem mais delongas, expôs a
sua posição:
- A partir de agora, o presidente vai ganhar sete mil contos por mês, o treinador seis
mil e depois seguem-se os vencimentos dos jogadores, sem luvas e prémios, está claro.
Os presentes estavam à espera de tudo, menos de uma situação como aquela, e dois
«vices», sem soltarem uma única palavra, levantaram-se da mesa e saíram. PC não se
preocupou com o facto, tinha-os na mão e sabia que ninguém tinha tomates para falar.
Enfrentando os que ficaram, não deu hipótese a que ninguém mais recuasse:
- Então, como este ponto está aprovado, passemos a outro!
Ouvia-se a chuva que batia nos vidros. Reinaldo bem tentou dar vida à reunião, mas o
seu vocabulário não lhe permitiu ir além de uns monossílabos completamente
desenquadrados de toda aquela situação:
- Bem...hum...hum...pois...
A reunião, por motivos óbvios, acabou depressa. Um raid de comandos não seria
mais fulminante.
O suporte económico de PC estava a consolidar-se. Sabia-se da sua ligação camuflada à
agência de viagens, da sua comparticipação nos lucros e actividade da Olivedesportos e
ultimamente até tinha comprado um jornal, um elemento indispensável para dar a
cobertura nacional necessária aos seus mais variados negócios. A corrupção era uma
fonte de receita inesgotável e sem impostos. Mas como não assumia publicamente -
nem o podia fazer - nenhum destes negócios, tinha sérias dificuldades em explicar de
onde lhe vinha a fortuna. Não se preocupava muito com isso. Ele sabia que tinha várias
espécies de argumentos para fazer calar quem ousasse pedir explicações. Era um
homem com a resposta sempre na ponta de uma viperina língua.
Tudo estava devidamente controlado e de nada adiantava aos clubes da capital lutar
pelo poder dentro das estruturas do futebol. PC sabia, há muito, que a força do dinheiro
combatia tudo, e as lutas regionais e clubistas superavam-se com facilidade, com sexo e
com dinheiro. E nestas áreas estava tudo mais que garantido.
Nos momentos decisivos de eleições federativas, era ele quem controlava todas as
situações, tendo com referência a ajuda preciosa de Adriano Pinto, um estratego de alto
nível e um exímio jogador de sueca. Adriano Pinto era homem para deixar o adversário
sem vazas, mesmo quando este só tinha trunfos, passe o exagero.
Adriano e PC escolhiam os lugares que mais garantias lhes davam para a
continuidade dos seus vários negócios, mas, como não podiam escolher todos os
lugares, autorizavam mesmo que alguns mais importantes caíssem nas mãos de
dirigentes ligados aos seus mais directos rivais.
Não seriam necessários mais de dois meses após o acto eleitoral federativo para que
se tornasse claro que os dirigentes indicados pelos clubes da capital já estavam do lado
de PC. Mestres na arte da corrupção, proporcionavam vidas faustosas aos dirigentes
inimigos(?), e a clubite era de imediato esquecida. Era normal ver-se um presidente
federativo ao lado do clube de Pinto da Costa, quando este tinha de enfrentar algumas
dificuldades e, sabendo-se que esse dirigente se afirmava de determinado clube da
capital, nunca ninguém se espantou por ele nunca aparecer ao lado do clube das suas
cores para o defender. Pelo contrário, até surgiu um presidente lisboeta que se tornou
mais nortenho que um galego!
Os pontos-chave estavam todos controlados, para que a manobra fosse absoluta.
Exageraram, no entanto, em algumas situações. A sede do poder subiu à cabeça de Pinto
da Costa, e os ataques ao Governo fizeram-se sentir com grande intensidade quando
verificou que no campo político não era possível ter tanta cobertura como no futebol.
A Procuradoria-Geral da República colocou a Polícia Judiciária em campo, e a acção contra a corrupção no futebol desenvolveu-se de uma forma intensa. Durante vários meses,
Reinaldo Teles e Jorge Gomes foram vigiados de perto, e os seus telefones ficaram sob
escuta. Passado um mês, os agentes encarregados desta função já não tinham qualquer
dúvida em relação à corrupção e aos negócios de Reinaldo Teles, mas as investigações
continuaram.
Os agentes testemunharam vários encontros de árbitros com Reinaldo e Jorge Gomes.
Ouviram várias conversas em código, mas que entendiam perfeitamente. A rede estava
bem montada e tudo indicava que, mais tarde ou mais cedo, Reinaldo e os seus pares
iriam cair nas várias armadilhas que lhes estavam a ser montadas.
Pinto da Costa estava fora dessa investigação. Não era fácil atacar-se um homem com
o seu poder. A polícia tinha de atacar por baixo para chegar lá acima, mas juridicamente
o grupo estava bem organizado e bem escorado.
Jogavam, de uma forma invulgar, com carências que a Lei apresentava no combate à
corrupção. Seria fácil para a polícia chegar à conta bancária de qualquer um deles e
pedir justificações para o movimento semanal de verbas tão volumosas. Mas tal não era
possível. Os agentes encarregados da investigação viviam desesperados por não
poderem provar aquilo que viam com os seus próprios olhos. Por isso, atrasaram as
investigações, esperando uma melhor oportunidade que nunca surgia. Eles sabiam que,
no momento que pedissem contas ou justificações, bastava um deles negar-se a fazê-lo
para que o processo não avançasse. Eles sabiam, também, que quem tinha que provar
que o dinheiro nas suas contas bancárias era ilegal era a polícia e não os acusados.
Estavam de mãos atadas.

Os agentes destacados para a investigação conheciam o terreno que pisavam e não
estavam nada optimistas em relação às provas que poderiam vir a encontrar. Isto apesar
de terem assistido a vários encontros e conversas que indiciavam a existência de actos
corruptos.
Um dia, resolveram seguir Reinaldo Teles e acabaram num bar de alternos perto do
Marquês. No seu interior estavam dirigentes de um clube, em amena cavaqueira, e que
tinham lá ido para se encontrar com um árbitro que lhes ia apitar o jogo da próxima
jornada.
O espectáculo estava a começar, e no meio da pista exibia-se um travesti com farta
cabeleira longa encaracolada e um vestido coberto de lantejoulas vermelhas que lhe
descia pelas pernas até ao tornozelo, abrindo uma enorme racha que se prolongava pela
coxa esquerda. Cantava em play-back uma canção de Maria Betânia. O árbitro, sentado
numa mesa próxima da pista, coçava a sua careca, enquanto alisava os poucos cabelos
que lhe sobravam e que lhe cobriam apenas as têmporas. Levou o copo de whisky aos
lábios e pousou-o quase de imediato para aplaudir a actuação do travesti.
Quando lançou um olhar sobre a entrada viu surgir Reinaldo Teles. Uma das putas
levantou-se com ligeireza e foi cumprimentá-lo, enquanto as outras a olhavam com
inveja e diziam:
- Se a Luísa sabe desta merda, vem aí e dá-lhe uma tareia que a fode.
Reinaldo, sem perder o seu habitual fair-play, afastou a mulher e, quando ela se virou,
mostrando um cu arrebitado e comprimido numas calças de licra, não resistiu a dar-lhe
uma palmada, enquanto lhe dizia:
- Tens o melhor cu da Europa.
O árbitro assistiu a toda a cena e cumprimentou Reinaldo com um ligeiro aceno de
cabeça. Os dirigentes ganharam coragem, levantaram-se e foram falar com o árbitro,
que os conhecia e já esperava a investida. Após os cumprimentos tradicionais, o árbitro
esperou pelo primeiro ataque, e logo que lhe referiram o jogo de domingo disse apenas:
- Não percam tempo. Esses negócios não são tratados comigo. Se querem alguma
coisa, falem com Reinaldo Teles. Ele chegou agora, falem com ele.
Os agentes da PJ nem queriam acreditar no que ouviam. Estavam perto e escutaram a
conversa. Esperaram pela reacção dos dirigentes, e estes, sem perderem tempo, pediram
licença para se sentar na mesa de Reinaldo.
Só ouviram Reinaldo dizer:
- Apareçam amanhã para falarmos desse caso.
Tinham voltado à estaca zero, quando julgavam que estava em perspectiva a flagrante
que tanto desejavam.
Era difícil arranjarem-se provas para deter Reinaldo e Jorge Gomes. Eles rodeavam-se
de cuidados dignos de grandes profissionais. O inspector que comandava a operação
chegou a dizer:
- Isto não vai ser fácil. Ou temos a sorte de os apanhar em flagrante, o que é
tremendamente difícil, ou então temos de utilizar a táctica de Al Capone.
- A táctica de Al Capone? - perguntou um dos agentes, sem entender muito bem o
que o seu chefe queria dizer.
- Eu explico. Toda a gente sabia que Al Capone era um gangster de primeira
categoria. Matava, corrompia e só tinha negócios ilícitos, mas como ninguém podia
provar nada, muitas vezes até passou por bom rapaz, negando descaradamente os seus
crimes. Temos neste caso o exemplo disso mesmo.
Todos temos a certeza que Pinto da Costa e Reinaldo Teles estão envolvidos em
casos de corrupção, mas como ninguém pode provar nada, quando alguém os acusa,
ainda corre o risco de se transformar num difamador. Ao Al Capone meteram-no na
cadeia por fuga aos impostos, e a estes só lhes podemos pegar pelo mesmo motivo,
muito embora o sistema fiscal do nosso país não nos dê muita margem de manobra para
isso. Doutra forma, só mesmo se um dos árbitros corruptos falar, e isso não é muito
provável.
A corrupção atingia quase todos os sectores do futebol, e não havia dúvidas de que
existia uma organização perfeita por trás de toda esta situação.

Os mais altos dirigentes federativos recebiam luvas da Olivedesportos para ultrapassar
regulamentos, dar exclusivos sem concursos públicos ou marcar jogos seguindo as
conveniências horárias da televisão. A PJ seguiu alguns desses dirigentes e verificou
que estes no final de cada mês passavam pelos escritórios da Olivedesportos e nunca
ninguém acreditou que eles fossem apenas cumprimentar ou desejar um bom final de
mês a Joaquim Oliveira. Mas, apesar de toda esta evidência, de que algo de anormal se
passava, e não haver dúvidas de que existia corrupção, não se conseguia prender
ninguém. Quando existia mesmo a possibilidade de se poderem arranjar provas de um
crime, elas eram imediatamente abafadas, sem ninguém saber como.
Mas um jogador que foi contactado por Jorge Gomes para facilitar um resultado fez
questão de dar com a língua nos dentes e transformou o seu caso num escândalo
nacional. Prometeu contar toda a verdade. Porém os casos caíam sempre na mão de
quem sabia como lhes dar destino. Numa primeira abordagem, esse jogador teve medo
de contar toda a verdade. Foram apontadas testemunhas para esse caso que poderiam ser
o início da derrocada da organização, mas mais ninguém foi ouvido sobre essa questão.
O processo desapareceu como o fumo, levando o caminho de tantos outros: arquivado
por falta de provas. É que, quando elas existiam ou se perspectivava o testemunho dos
factos, surgia logo uma misteriosa corrente no sentido de fazer as coisas caírem no
esquecimento. O império resistiu ao movimento das catacumbas.
A televisão gastava milhões em transmissões televisivas. O responsável por essas
negociações comprou a dinheiro, misteriosamente, uma casa no valor de 50 mil contos.
Todos sabiam que meses antes ele não tinha possibilidades de efectuar tal negócio. Era
mais que evidente que estava a receber luvas da Olivedesportos, mas ninguém lhe pediu
contas.
O descaramento era tal neste tipo de negócios, e a cobertura de tal forma forte, que a
Olivedesportos, uma empresa instalada num modesto T1, com dois empregados e uma
mulher de limpeza, fazia frente e vencia as estações de televisão mais fortes em
estruturas e com grande peso político e religioso.
Fomentaram-se guerras, desmascaram-se situações, mas a organização tinha tal poder
que nem sequer foi minimamente abalada. Ninguém compreendia aquele fenómeno. Um
escudo invisível parecia proteger a coutada de PC.
Por trás das outras empresas, havia gente com grande peso político, ex-ministros e até
ex- primeiros-ministros, mas estas empresas esbarravam sempre no gnomo Joaquim
Oliveira, o tal que meia dúzia de anos antes era apenas o proprietário de um bar de
alternos com putas ranhosas e que até as cuecas tinha penhoradas.
A televisão era um enorme fonte de receita. O segredo do negócio não residia, como
se tentava fazer crer, na negociação da exclusividade das transmissões, mas no sistema
camuflado de publicidade estática.
Tudo isto formava uma teia bem tecida e organizada.
Por seu lado, o irmão de Oliveira, quando deixou de jogar futebol, dedicou-se à
actividade de treinador, mas apesar de todas as ligações comerciais com PC, nunca se
deixou envolver pelo sistema. Treinou sempre clubes de pequena nomeada, e era
evidente a sua grande capacidade de comando e leitura de jogo. António Oliveira era
inteligente e conhecia como ninguém o futebol por dentro, mas nunca foi um grande
amante do trabalho. Treinar um clube e ter de se levantar todos os dias de manhã para
exercer essa actividade, ou radicar-se numa cidade pequena para poder laborar, nunca
esteve nos seus horizontes, e daí o seu êxito não ter tido uma dimensão à altura do seu
talento.
A solução para o seu problema estava na selecção. Trabalhava de três em três meses, e
como capacidade e talento eram coisas que não lhe faltavam, este era um emprego à sua
medida.
Pinto da Costa controlava todas estas áreas, e não havia dúvidas de que era ele quem
mandava no futebol. A Polícia incomodava toda a gente, procedia a investigações, fazia
buscas residenciais a várias personalidades, que toda a gente sabia serem satélites de
PC, mas nele ninguém tocava. PC, surgia sempre acima de toda a suspeita e com uma
porta aberta para sair em defesa dos seus protegidos e dar-lhes a cobertura necessária. O
Grande Líder tinha consciência daquilo que valia e do poder que tinha. Sabia que os
mais altos dirigentes políticos lhe vinham mendigar apoio nos momentos cruciais. O
escândalo não o afectava; a contínua suspeita que caía sobre ele e os seus sócios não
tinha grandes efeitos sociais, como se toda a gente aceitasse pacificamente que o futebol
era um antro de negócios marginais. O certo é que, apesar de todos os hinos cantados à
inocência, quando surgia uma suspeita de corrupção ligada ao futebol, a direcção era
sempre a mesma e atingia sempre as mesmas pessoas.
Ninguém podia pensar numa perseguição injusta, como fazia crer, porque isso seria
até um insulto a Pinto da Costa e à sua reconhecida capacidade de gestão de problemas.
- Eles que venham comer o milho à minha mão - sussurrava PC, enquanto abria mais
uma edição do «Independente», de novo com a sua foto na capa.

A Polícia Judiciária estava no auge das suas investigações. Tinha acumulado provas
substanciais, o que levava a brigada a pensar que já havia dados mais que suficientes
para começar a prender pessoas. Mas cantaram demasiado cedo o grito da vitória. Não
acreditavam na força que a organização tinha e acabaram por ser surpreendidos, isto não
obstante terem mesmo chegado a ser passados vários mandatos de busca a casa dos
maiores suspeitos.
Pinto da Costa tinha conhecimento das investigações que estavam a ser efectuadas e
avisou Reinaldo Teles para que este se rodeasse de maiores cuidados nos negócios que
efectuava. Aos poucos, foram retirando de suas casas documentos que poderiam indiciar
a sua actividade marginal. Começou a haver um maior cuidado nos movimentos
bancários, mas o negócio não parou. Quando tinham dúvidas sobre como deveriam
actuar sem deixar rastos que mais tarde os pudessem comprometer, consultavam um dos
seus advogados com fama de grande especialista em crime e avançavam com todas as
medidas de precaução. As despesas eram muitas, e acabar com o negócio seria o
princípio do fim. Alguém tinha de saldar as dívidas e repor o dinheiro mal aplicado.
Num dos momentos de maior pressão, tornou-se necessário negociar o resultado de
um jogo com um árbitro portuense. O preço estabelecido foi de três mil contos e foi
marcado encontro com esse juíz na segunda-feira seguinte no bar de Reinaldo.
Nessa noite, o primeiro a chegar foi Jorge Gomes e só mais tarde apareceu Reinaldo,
um tanto desconfiado, olhando para todos os cantos da sala com a nítida intenção de
identificar todos os seus clientes e classificar os suspeitos. Nem sequer cumprimentou
Jorge Gomes, e este, um tanto admirado, não entendendo o que se estava a passar,
acabou por perguntar entre dentes:
- O que é que tens. Está cá alguém da Judite?
- Estou a ver se descubro alguém suspeito. Olha aqueles dois ali ao canto. Conheces?
Jorge Gomes rodou sobre os calcanhares com tal velocidade que até entornou o
whisky que tinha na mão, marcando-lhe o príncipe-de-gales. Reinaldo, irritado com tal
atitude, não se conteve:
- És mesmo burro. Se eles forem da Judite, dás logo a perceber que estás
comprometido.
- Oh, pá, fiquei assustado! Tens razão, mas não te preocupes com aqueles dois. Eu
conheço-os. São cabritos.
Reinaldo Teles respirou fundo e comentou com Jorge Gomes o jogo do dia anterior e
o investimento dos três mil contos.
- Viste ontem? Foi tão fácil. Ele controlou o jogo como quis, não houve escândalos e
hoje a Imprensa não faz grandes críticas. Assim é que é bom ganhar dinheiro.
Jorge Gomes não perdeu a oportunidade para perguntar quando é que os três mil eram
entregues, assim como a comissão deles, e Reinaldo Teles explicou-lhe o seu plano com
uma certa vaidade:
- O homem ficou de vir cá hoje entregar o dinheiro, e o árbitro também vem cá buscá-lo.
Devem estar aí a chegar.
- Mas, não é perigoso? Ele devia ter sido pago antes, como os outros. O chefe não nos
avisou para termos cuidado, porque estávamos a ser seguidos?
- Não te preocupes, eu tomei as minhas precauções...
Reinaldo nem sequer teve tempo para acabar a frase, pois o árbitro cumpriu
escrupulosamente o horário e estava, nesse momento, a entregar o seu sobretudo no
bengaleiro. Após receber a ficha de depósito, dirigiu-se para uma mesa,
cumprimentando Reinaldo de esguelha. O empregado abeirou-se do cliente, e este pediu
um whisky com Coca-Cola e muito gelo.
Não passaram mais de 10 minutos e entrou o dirigente que levava os três mil contos. Tal
como o árbitro, entregou o seu sobretudo ao porteiro e dirigiu-se para outra mesa,
fazendo também um leve aceno de cabeça a cumprimentar Reinaldo que, de imediato,
lançou um olhar cúmplice a uma das suas miúdas. Esta, sem perder tempo, foi sentar-se
na mesa do dirigente, e minutos depois já saltava a rolha da primeira garrafa de
champanhe, enquanto a empregada lhe mordia o lóbulo da orelha e lhe prometia uma
noite de sonho.
O árbitro acabou de sorver o seu whisky, chamou o empregado, pagou e dirigiu-se
para o bengaleiro, a fim de levantar o seu sobretudo, que lhe foi entregue de imediato.
Saiu, metendo uma nota de cinco mil na mão do porteiro.
Jorge Gomes, que seguiu todos estes movimentos em silêncio, acabou por perguntar a
Reinaldo:
- Então o gajo foi-se embora e não levou a pasta? Viste a gorja que ele deu ao
porteiro?
- És um principiante nestas andanças.
Jorge Gomes ficou a olhar para Reinaldo Teles, sem perceber muito bem o que este
queria dizer, mas a explicação veio de seguida num tom que denunciava uma certa
vaidade:
- Quando o árbitro entrou, entregou o sobretudo no bengaleiro, não foi?
- Foi, eu vi.
- Depois, quando chegou o «pato», fez exactamente a mesma coisa. Só que no
sobretudo dele vinha um pacote com os 3 mil, e o Chico Manco - o homem do
bengaleiro - já tinha instruções para passar os três mil de um sobretudo para o outro. Por
isso, quando o árbitro saiu, já tinha no bolso a fruta. Desafio o mais esperto a provar que
alguém lhe deu aqui dentro o que quer que fosse.
Jorge Gomes ficou de boca aberta, sem dizer palavra, e Reinaldo enchendo o peito
não resistiu a comentar:
- Ainda não entendeste? És mesmo burro. A isto chama-se a táctica do sobretudo.
As investigações intensificavam-se, o cerco apertava-se e Reinaldo Teles começou a
beber uns copos a mais. Num dos seus momentos de delírio, devido ao exagero de
alcoolémia, deu consigo a pensar no passado. Viu-se no centro do ringue, de luvas
levantadas, gritando vitória. Lembrou as patrulhas que fazia em Santos Pousada, quando
era necessário controlar as suas putas. Os momentos difíceis e as lutas travadas. E
chorou. Agora, graças ao futebol, era um empresário de sucesso.
Sozinho, sentado na secretária que tinha a um canto do seu escritório, entrou num
momento de tristeza. Algumas lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, enquanto o
ranho se lhe soltava pelo nariz.
Entabulando um diálogo consigo próprio, reviveu o passado:
- Tenho a agradecer muito ao PC, mas também, se não fosse eu, se calhar ainda hoje
ele andava a vender fogões.
Soltando um palavrão ao mesmo tempo que atirava o copo para o chão, foi
justificando as suas atitudes como se procurasse no infinito a razão para as suas acções.
- Temos o dinheiro que nos apetece. Isso é crime? Nós fazemos parte do espectáculo.
Somos nós que montamos a tenda. Somos nós que damos a alegria ao povo. Ganha
quem a gente quer. Fazemos muita gente feliz. Temos de ser bem pagos por isso. Somos
os maiores!...
Este último grito alertou o porteiro, que foi avisar Luísa. Esta largou o balcão,
entregando a gestão das operações à sua grande amiga Geny, uma mulata que não
escondia o seu gosto pelas mulheres. Luísa entrou no escritório deparando com
Reinaldo a cambalear e a tentar encontrar a cadeira da sua secretária.
Luísa fechou de imediato a porta e comentou com ar de desprezo:
- Já viste a cena que estás a fazer? Olha se alguém te visse nesse estado. Deita-te mas é
aí a dormir, para ver se isso te passa até fecharmos.
Reinaldo olhou Luísa e voltou a lembrar-se do passado. Também ela o tinha ajudado
a triunfar, e prometeu:
- Se nos safarmos desta, podes ter a certeza que vou acabar com esta merda do
putedo. Não quero mais putas a trabalhar para mim. Vou abrir um bar decente. Já chega!
Agora sou um senhor. O primeiro-ministro até me quis condecorar, mas quando soube
que eu tinha esta merda, recuou. Acabaram-se os alternos. Lembra-te que até posso vir a
ser presidente do nosso clube.
Ao ouvir isto, Luísa torceu o nariz e respondeu:
- Com que grande bebedeira tu estás..
- O quê... não acreditas? Olha que continuo a ser o número dois do nosso clube, e
alguns candidatos políticos até já me pedem apoio para as eleições. No fundo, eles são
como nós. Com putas ou sem putas, é quem mais se orienta. Não vês o nosso
presidente. Os grandes políticos vêm todos ao beija-mão. O futebol é que comanda este
país, e o resto é treta.
Luísa não lhe deu muita conversa e ajudou Reinaldo a deitar-se num pequeno sofá,
tirando-lhe a garrafa do whisky da mão:
- Hoje, já não bebes mais. Dorme um bocadinho, que isso passa-te.
Quando tomou a sua posição no balcão, viu entrar Pinto da Costa e ficou assustada.
Se ele visse o estado em que estava Reinaldo, era capaz de ficar aborrecido. Por isso,
chamou-o para o cumprimentar e sem lhe dar tempo para perguntas disse:
- O Reinaldo teve de sair, mas deve estar aí a chegar. Sente-se ali numa mesa que eu
mando-lhe já boa companhia.
PC sorriu, e acabou por dizer:
- Confio nos seus gostos. Estou mesmo a necessitar de uma coisa boa para me
divertir, porque problemas já eu tenho com fartura.
Passadas duas horas, PC já estava todo lambuzado de bâton. Luísa tinha-lhe colocado
na mesa uma das bailarinas que fazia parte do show e, como uma boa profissional que
era, esta fez PC esquecer o tempo.
Luísa entrou novamente no escritório, e Reinaldo roncava que nem um porco. Abanou-o
para o acordar, e este, estremunhado, abriu os olhos e começou a gritar:
- Eu estou inocente, o PC é que tem a culpa de tudo...
Luísa deu-lhe um estalo, ao mesmo tempo que dizia:
- Está calado. Não faças cenas, que eu não sou da Judite. O PC já está lá fora há duas
horas. Arranja-te, que eu vou buscar-te um café. O homem parece que quer falar contigo
ainda hoje.
Reinaldo entrou na casa de banho, molhou a cara, penteou-se, esperou pelo café e só
depois foi ter com PC.
- Então presidente! Quer falar comigo?
- Quero.
As olheiras de Reinaldo não passaram despercebidas a PC, e este, desconfiado, não
resistiu a perguntar:
- Foi a algum lado em especial?
- Tive de tratar aí de umas coisas.
Olhando para a bailarina que se enroscava no pescoço de Pinto da Costa, Reinaldo
piscou-lhe o olho, enquanto lhe dizia:
- Está na hora de te preparares para o show.
A mulher entendeu perfeitamente a mensagem e, com um beijo, despediu-se de PC.
Este não esteve com mais delongas e atacou no primeiro impulso:
- Temos de ter atenção, porque os gajos estão a preparar o ataque final. Ninguém
pode cometer erros, e atenção ao Jorge Gomes, porque ele não é muito certo. Temos de
ter cuidado com o tipo.
- Mas, presidente, agora que estamos no final do campeonato, é quando isto dá mais.
Como é que vamos fazer para satisfazer os nossos clientes?
- Há que ter muito cuidado e fazer os negócios com mais segurança. Agora só se
trabalha com um ou dois clubes, no máximo, o resto já está definido, e não podemos
andar a fazer mais promessas. Segundo as informações que tenho, eles estão
precisamente à espera do final do campeonato para entrarem em acção, mas ninguém
sabe quem é que vai ser incomodado. Penso que ninguém nos vai tocar.
Reinaldo ficou um pouco assustado e lembrou-se de Jorge Gomes. Tinha de o avisar,
mas deixou essa diligência para o dia seguinte, lamentando-se a PC:
- Quem tem a culpa disto tudo são esses filhos da puta dos jornais. Andam para aí a
levantar a suspeição e não nos deixam trabalhar à vontade. Se pudesse, matava-os a
todos. Nem fodem nem deixam foder.
Nessa noite, Reinaldo quase nem dormiu a pensar no que lhe podia acontecer.
Depois de Reinaldo ter falado com Jorge Gomes e lhe ter explicado a conversa que
tivera com o presidente, avisando-o dos cuidados a ter, numa primeira reacção, este
começou a tremer, assustado, mas acalmou-se quando o seu raciocínio o levou a pensar
que para tocarem nele tinham de tocar em PC.
- O homem tem muita força. Ninguém lhe chega. Nós estamos protegidos.
Reinaldo abanou a cabeça, concordando com a sua análise, mas deixou na mesma o
aviso:
- Temos de ter cuidado. As coisas não estão fáceis.
Jorge Gomes tinha compromissos assumidos. Longe iam os dias em que vivia numa
ilha, tinha de mijar num penico e, para necessidades mais sólidas, percorrer 50 metros e
ficar em fila de espera à porta de uma retrete que servia os restantes 20 inquilinos. Já
tinha largado o pesado martelo de bate-chapas, estava habituado a bons apartamentos e
a passar férias no estrangeiro em bons hotéis. Necessitava de solidificar a sua pequena
fortuna, porque, se a organização se desmoronasse, estes hábitos ficavam seriamente
comprometidos.
Jorge Gomes não olhava a meios para atingir fins. A vigarice estava-lhe no sangue. O
sentido de amizade e reconhecimento, para ele, simplesmente não existiam, e em vez
dos cuidados a que fora aconselhado, começou a fazer os seu negócios vigarizando
alguns dos seus melhores clientes.
A acção de Jorge Gomes chegou ao conhecimento de PC, e este não ficou nada contente
com a situação. Mandou chamar Reinaldo e ordenou-lhe o despedimento da criatura:
- Não o quero ver mas ao serviço do nosso clube. Esse gajo é um filho da puta de um
vigarista. Não conhece ninguém, e é capaz de nos comprometer seriamente. Rua com
ele!
- Mas presidente... se ele dá com a língua nos dentes?
- Fica sem ela! Safa-te da forma que quiseres. Foste tu que o trouxeste, agora arruma
tudo com ele.
Reinaldo saiu do gabinete de PC sem saber muito bem o que devia fazer, mas duma
coisa tinha a certeza: o Gomes era mesmo um indivíduo sem escrúpulos.
Logo que o encontrou, fez-lhe saber que o presidente o queria na rua:
- Não tiveste juízo, acabou aqui a tua história.
Jorge Gomes sorriu com cinismo e disse sem mais delongas:
- Vocês não julguem que se livram de mim com tanta facilidade. Se eu cair, vocês
caem comigo, principalmente tu Reinaldo. Lembra-te que nos orientámos muitas vezes
em negócios que o presidente nem sonhava que se faziam, e se me mandarem embora,
chibo-me.
Reinaldo ficou assustado e, sabendo que Jorge Gomes era mesmo capaz de cumprir a
sua promessa, resolveu dar a volta doutra forma à situação.
- Eu vou falar com o presidente novamente, mas tu tens de me prometer que vais
cumprir as ordens que te damos e não vais andar para aí a fazer mais merda.
Virou-lhe as costas e entrou no seu carro a pensar como é que se poderia livrar
daquela encrenca. Só havia realmente uma saída: obrigar o presidente a recuar na sua
acção.
Naquela mesma noite, encontrou-se com Pinto da Costa e pediu-lhe para repensar a
sua posição:
- Ó presidente, o Jorge está arrependido do que fez. Vamos dar-lhe outra
oportunidade...
- Nem penses nisso. Esse gajo já fez merda de mais para continuar ao nosso serviço.
Ele pode comprometer toda a nossa acção. Rua com ele... Não há contemplações.
Reinaldo ficou entalado e sem palavras. Olhou a alcatifa do gabinete de PC, sem
saber muito bem o que havia de fazer. Com a biqueira do sapato começou a raspar o
desenho que nela estava inserido e resolveu arriscar, quando disse:
- Presidente! Se ele for embora, eu também vou.
PC saltou da cadeira e não queria acreditar no que estava a ouvir. Sabia que, naquele
momento, não podia prescindir dos serviços de Reinaldo e era demasiado perigoso
deixá-lo fora da organização. Era a primeira traição do seu dilecto amigo. Do seu
confidente. Do homem da sua confiança.
Sem saber muito bem o que devia fazer, PC sentiu que estava a ser refém dos
monstros que criara e resolveu actuar com mais precaução:
- Ele é assim tão teu amigo? Não estás a confiar demasiado num gajo que não vale
nada?
Reinaldo não respondeu, e PC, passeando-se pelo gabinete, esperou alguns minutos
até pronunciar a sua sentença. Sabia que não podia perder autoridade e tinha de arranjar
uma solução.
- Vou pensar no assunto e depois digo-te alguma coisa. Mas ficas a saber que te vou
responsabilizar por toda a merda que esse gajo fizer.
Reinaldo saiu do gabinete mais descansado, enquanto PC registava a primeira traição
do seu maior amigo. Jorge Gomes aguentou-se no seu primeiro round.
Dias depois, a Polícia Judiciária entrava em acção. Os grandes problemas foram
esquecidos, porque, tal como tudo tinha começado há vinte anos atrás, o slogan
revolucionário continuava a ter a mesma força: «Só unidos venceremos...»

A sala de audiências estava repleta. Nas primeiras filas, os jornalistas disputavam os
melhores lugares e as estações de televisão competiam pelos melhores ângulos. O povo
comprimia-se nas quatro filas de bancos a si destinadas. Lá fora, nos corredores, lutava-se
por uma aproximação à porta da sala de audiências, onde se posicionavam alguns
repórteres radiofónicos, todos a entrarem em directo. Uma selva de cabos, dominada
pelas copas mais altas dos microfones. «Fantástico», pensou o responsável pelas
audiências de um canal televisivo em ascensão meteorológica (apontada assim por ter
substituído os velhos apresentadores do tempo pelas melhores pernas da capital e
arredores...).
O carro celular travou a fundo e logo ali foi rodeado por outra multidão de jornalistas.
Um deles era mesmo um conhecido pivot televisivo, que nesse dia trocara o conforto do
bar onde costumava «aquecer» para o telejornal pela reportagem em directo e ao vivo.
De colete de repórter bem apertado, foi ele quem conseguiu formular a primeira
pergunta a José Guímaro:
- Considera-se inocente ou culpado?
Guímaro reconheceu de imediato o jornalista e até pensou pedir-lhe um autógrafo,
mas não teve tempo para mais, pois foi empurrado por dois possantes guardas prisionais
para o corredor de acesso à sala de audiências, onde entrou perseguido pelos jornalistas.
- Vai fazer-se justiça! - gritava o chefe da equipa de advogados de Guímaro, o
conhecido doutor Mário Taipais.
Excepcionalmente, aquele era um julgamento com jurados, situação raríssima na
história jurídica do País. Os advogados de Guímaro desconfiavam de uma certa
conivência dos juízes com a polícia de investigação, pois aqueles eram tempos de
limpeza geral das contas da nação, e nos últimos meses tinha ido tudo a eito. Para dar só
um exemplo, até o ex-primeiro-ministro tinha passado dois dias na penitenciária geral...
Os jurados eram sete e tinham apenas uma coisa em comum: não queriam estar ali.
Impedidos de usar telemóvel durante o julgamento, os jurados imaginavam também o
quão difícil ia ser viver durante meses numa pensão de duas estrelas sem água corrente
nos quartos, que foi o melhor que um Estado depauperado de finanças conseguiu
encontrar.
José Guimaro exibia outro estado de espírito, ele que logo que entrou na sala de
audiências lançou um olhar sobre os homens e as mulheres que o iam julgar. «São
minha gente», pensou, tentando sorrir para as câmaras e lançando um olhar cúmplice à
mulher e à filha. Na sala de testemunhas, Reinaldo Teles e Pinto da Costa não estavam
tão tranquilos.
- Reinaldo - disse, baixinho, o chefe -, não te esqueças do combinado...
- Sim, chefe, esteja tranquilo, vou negar tudo do princípio ao fim...
- Mas não te enerves. O procurador vai armar-te algumas armadilhas. Faz de conta
que não percebes a pergunta e diz «não sei» quando te parecer que te querem entalar.
- Sim, chefe, mas e o cheque?
- Qual chefe, porra! Não há cheque nenhum. O cheque não é teu, é aqui do presidente
do Leça e foi entregue ao Guímaro como um simples empréstimo de capital. E isso, que
se saiba, não é crime.
- Não, chefe, mas e se o Guímaro abre o livro?
- Isso está fora de hipótese. Tinha muito mais a perder do que nós, e ainda a semana
passada entreguei dois mil contos à mulher dele...
- ´Tá bem, chefe, não se preocupe, vai tudo correr pelo melhor, não é, Senhor Manuel
Lopes Rodrigues.
O presidente do Leça não estava tão seguro disso e falou alto de mais para o gosto de
PC:
- No meio disto tudo, quem se vai lixar ainda vou ser eu. Mas se for assim...
- Calma, presidente, não vá mais longe. Você sabe muito bem que isto está
controlado - corrigiu, de pronto, PC.
- Sim, eu sei, mas um julgamento é sempre um julgamento e já ouvi dizer que o
Ministério Público tem um trunfo na manga...
- Ter um trunfo, pode ter. Mas não é de certeza o ás de trunfo. Desses eu tenho dois
na manga - gabou-se PC, enquanto abria um dos jornais desportivos do dia e se ria com
um título. - O fim do Império, dizem estes anormais - comentou. - Mais uma vez vou
provar a estes tipos que quem faz as previsões sou eu...
A Polícia Judiciária tinha conseguido, após longos meses de investigação, reunir
provas suficientes para levar à barra do tribunal não só o árbitro José Guímaro mas
também um conhecido presidente que podia arrastar consigo PC e Reinaldo. A acusação
teve mesmo a ousadia de nomear estes dois últimos como testemunhas de acusação de
Guimaro. A ideia era clara: de uma só cajadada, juntavam-se todos os coelhos na
mesma toca. E podia ser que um tiro para o ar conseguisse abater o chefe da corja.
O certo é que depois da investida da PJ, Pinto da Costa ficou mais frágil. O escândalo
tinha sido enorme e já ninguém duvidada da existência de uma poderosa organização
que fabricava resultados e distribuía dividendos por muita gente.
Para se safar da contenda, PC teve de se apoiar em muita gente. Pedir pareceres
jurídicos. Dar a conhecer um pouco da sua vida. Claro que foi ajudado por pessoas
importantes e bem colocadas, mas, não obstante tudo terem feito para uma defesa bem
alicerçada, foram tomando conta da situação e, em cada passo dado, PC tornava-se mais
refém dos amigos que o apoiavam.
Os advogados mais directamente ligados a ele, para além dos milhares que foram
facturando, passaram a ocupar lugares de relevo em toda a estrutura do nosso futebol,
somando vencimentos que fariam inveja a um qualquer ponta de lança que semana a
semana leva atrás de si muitos milhares de amantes do futebol. Eram verdadeiros
artistas na arte do embuste, e a ausência de carácter e de coluna vertebral ainda mais os
assemelhava a autênticos répteis.
Capazes de tudo para assumirem o poder, quando começaram a verificar a
vulnerabilidade de PC, também alimentaram a ideia de trair o homem que os tinha
ajudado. PC estava nas mãos daqueles que se fizeram passar pelos mais ciosos amigos,
mas enquanto ele respirasse, nenhum deles tinha vontade de o enfrentar, mesmo de
posse de dados altamente comprometedores, porque, na essência, eram cobardes,
faltava-lhes a coragem para se assumirem e a capacidade para vencer. O que tinham em
excesso era mesmo só a vaidade. E muita ambição.
Foram momentos de grande dificuldade. O clube começava a ficar hipotecado por
falta de verba. O passivo aumentava e as soluções escasseavam. Começaram a ser
alienadas grandes parcelas de bens imóveis. Os melhores jogadores foram vendidos e
para os substituir vinham outros de terceiro plano, mas PC sabia que continuava a ter
toda a estrutura do futebol na mão. Isso dava-lhe a garantia das vitórias e dos golos.
Afinal o necessário para manter as hostes calmas e continuar a gerir com tranquilidade.
O julgamento não podia ter corrido da melhor maneira. Guímaro quase não falou, o
presidente do Leça defendeu-se como pôde e PC e Reinaldo não tugiram nem
mugiram quando foram apertados pela acusação. Aliás, as respostas de PC foram
mais uma vez brilhantes, como acontecia quando era entrevistado na televisão.
Eis como o procurador se espalhou ao comprido e como PC virou o feitiço
contra o feiticeiro...
Perguntava o acusador:
- Alguma vez teve negócios com José Guímaro?
Respondia PC, no seu tom monocórdico:
- Sim senhor. E muitos. Através dele, comprei muitos iogurtes que ofereci a
instituições de caridade da minha cidade. Ele arranjava-os mais baratos.
- Como é que ganha a vida?
- Tenho a minha empresa, ligada à construção civil.
- Mas o senhor está impedido de ter empresas...
- Mas não estou impedido de trabalhar!
E foi assim. O procurador bem procurou encontrar o fio da meada, mas esta
estava bem enrolada e tinha a ponta bem escondida. Nem Reinaldo Teles se
desmanchou.
Perguntou-lhe o acusador:
- Que relações tinha com José Guímaro?
Por momentos, Reinaldo pensou nas relações sexuais que as suas miúdas
mantiveram com Guímaro.
- Senhor Doutor, as melhores relações. Sou amigo de todos os árbitros, sem
excepção.
- Tem conhecimento de que foi entregue ao Senhor Guímaro um cheque?
- Não, Senhor Doutor.
- É normal os árbitros receberem cheques de dirigentes?
- Normal, normal, não será. Mas nada me impede a mim, por exemplo, de
passar um cheque a um amigo, e como tenho muitos amigos na classe dos
árbitros...
E foi assim. No final , Guímaro acabou por ser absolvido, o presidente do
Leça ouviu apenas uma repreensão e PC começou a preparar o golpe final.
PC nunca esqueceu a afronta de Reinaldo quando pretendeu despedir Jorge
Gomes, e só esperou que a poeira assentasse para tomar medidas. Durante o
julgamento, fez de conta que tudo estava bem com Reinaldo, mas depois de
pronunciada a sentença, chamou-o ao seu gabinete e deu-lhe a entender que
estava na hora de ele ir para a selecção nacional.
- Mas, presidente, ir para a selecção é pior que ir para os distritais. Aquilo só
dá trabalho, e eu que até falo mal português, quando mais norueguês...
- Tens de lavar a cara. E a selecção nacional precisa de dirigentes como tu.
Reinaldo não percebeu se isto era um elogio ou uma crítica, mas quando se
viu substituído no cargo por Ilídio Pinto, caiu em si e nunca mais recuperou do
trauma.
Ilídio Pinto nem dormiu nessa noite. Até comprou uma braçadeira bordada a
ouro e voltou a colocar a sua bolsa à ordem de PC. A Dona Virgínia passou a ser
a segunda dama, enquanto PC se entendia cada vez melhor com Maria, uma
mulher de peso e que aos poucos se foi assumindo como uma verdadeira líder.


Este é o verdadeiro "Largos dias têm 100 anos".
O que dizer disto tudo? Que o futebol passa para segundo plano e que nós somos todos uns tótós porque ainda vamos aos estádios e ainda damos de alimentar a estes cabrões. Sim, porque os benfiquistas e sportinguistas e todos os outros dirigentes e governantes de outros clubes e deste país também alinham nestas panelinhas, são coniventes e deixaram que tudo isto evoluisse e chegasse a este ponto. Neste momento, esta máquina está muito bem oleada e não vão agarrar o Pinto da Costa, porque se o fizessem, cairíam com eles os Dias da Cunha e os Vieiras e os Filipe Menezes e tantos outros (demais) deste pântano tenebroso que é a nossa sociedade e o nosso futebol. Sou sportinguista, mas não tenho nada contra o Porto ou outro clube qualquer. E não tenho nada contra o Pinto da Costa e companhia. Não sou juíz nem polícia, nem queria ser. Apenas uma coisa me conforta: eu sei, e os que não sabiam sabem agora, como isto verdadeiramente funciona. O que há de pior é um tipo estar a ver alguma coisa que é completamente falsa e acreditar nela cegamente. As pessoas sabem agora que afinal o Pinto da Costa não é nenhum Viriato, mas umas das pessoas mais inteligentes, maldosas, espertas, mesquinhas, falsas, corruptas e influentes deste país. Fico fodido em ver amigos meus a chamarem nomes ao Pinto da Costa, e não saberem toda a extensão deste caso. 90% das pessoas ainda pensam que o Pinto da Costa rouba uns penalties e compra uns árbitros. Agora, alguns que leram estes textos vão-se sentir mais aliviados. Vão ficar a perceber que afinal estas pessoas, através do Porto, não são super-homens, mas que andaram e andam sim a viciar o nosso futebol há muito tempo. De todos estes textos, o que mais me marcou foi uma grande verdade que o Reinaldo Teles aplicou: umas são putas e chulos, outros são da sociedade, mas querem todos o mesmo: dinheiro e sexo, e quanto mais melhor. Ao menos o Reinaldo tem casas de putas, é chulo e tá-se a cagar para o resto. Já tem um ponto a favor."